Frio e chuva

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Crédito: Wincham Hall

Do frio e chuva britânicos para o frio e chuva português…por entre voos internacionais e domésticos, finalmente de volta após uma semana de trabalho muito corrida. Ainda assim, e porque mesmo no meio do trabalho nunca devemos fechar os olhos aos pequenos prazeres que o mundo nos dá, terá sido das visitas ao Reino Unido onde pude usufruir de um pouco de paz natural, principalmente na minha estadia de duas noites em Wyncham Hall, na zona de Northwich. Uma casa de campo, restaurada, muito simples, enquadrada num cenário belíssimo, com um enquadramento verde que me permitiu alguns breves passeios matinais e de final do dia. Não tinha Wifi muito famoso…mas também não precisei dele enquanto lá estava…precisava sim do ar puro às portas de Manchester, e de poder diluir a velocidade dos dias num cenário de calma e paz, numa região norte de Inglaterra que aprecio particularmente desde que pela primeira vez a visitei…as pessoas tendem a ser mais simpáticas e um pouco mais abertas, ilustrando bem o princípio de que fora dos grandes centros, e particularmente em povoados pequenos, existe uma naturalidade e uma genuinidade que emana de uma vida diferente, num registo diferente, por vezes mais interior.

Para já, estou de volta ao frio e chuva portugueses. Talvez ainda volte a terras britânicas antes das férias, mas sinto a necessidade de, pelo menos durante algumas semanas, usufruir das minhas zonas de conforto. Para mim, que não assino por baixo a conotação negativa que nesta idade moderna se dá a esses pequenos espaços onde o tempo corre um pouco mais lento e sereno, elas são essenciais. Não podemos cair na tentação de confundir comodismo com conforto, realização de trabalho com realização pessoal…é preciso manter a vida naturalmente simples, e as nossas vidas devidamente separadas, pois nada pode ser dado, se nada também não for recebido, numa dinâmica interna de equilíbrio que, essa sim, é a base que cada vez mais devemos procurar na nossa existência.

Deutschland

Acabei agora de trabalhar. Ao ligar a televisão, apenas o tom dos jornalistas parecia deixar antever que algo de fantástico tinha acontecido. Fiquei assim a saber que a Alemanha tinha sido eliminada do Mundial de Futebol, que em Berlim era a tristeza que passeava pelas ruas numa (talvez) solarenga tarde, e que existia um certo tom de contentamento geral dos homens que habitualmente relatam estas coisas da bola. Não é, de facto, coisa que consiga perceber muito bem.

Toda esta reação em torno do gigante caído retrata um pouco de nós mesmos…na rotina dos dias, vivemos uma tão intensa quanto relativa (ou ausente) positividade que se respira no que de artificial nos rodeia, alimentando todo um conjunto de objetivos em que nunca pensámos, mas que com toda a certeza vamos conseguir atingir se muito trabalharmos, abdicando dessa “entidade negra” chamada zona de conforto (aquela a que por vezes temos tanta necessidade de voltar, para sarar as nossas feridas), para transcendermos o estado presente das nossas vidas…as fórmulas rodeiam-nos, e os resultados da sua aplicação multiplicam-se em ainda mais fórmulas, num caminho de nenhures, rumo ao sucesso…também aí reside uma parte importante das mecânicas nacionalistas que vão emergindo no nosso tempo, e que nada mais são do que o apoderar por parte de alguém destas dinâmicas coletivas, algumas vezes aplicando-lhes um símbolo. Mas a isso voltarei outro dia.

Neste processo mental de luta permanente, algures entre David e Golias, em cujo triunfo do underdog é considerado ao nível pessoal, vamos esquecendo como se erra, e como refletir nesses erros…esquecemos igualmente de como a vida nos brinda com a sua ciclicidade, que nos banha nas ondas de um mar interior que gostamos de ver ilustrado no silêncio da praia. Saber observar esse além, na natureza que nos rodeia e na humanidade que nela desponta, é o que nos faz evoluir, sonhar, pensar e amar um mundo melhor…sempre renovando-se, e levando-nos com ele.