De volta ao céu

Depois de quase seis meses no Brasil, e quase mais um mês em Inglaterra, o último ano e meio vai acabar com mais uma viagem a terras britânicas. Confesso que neste momento este viajante estava a usufruir em paz da aproximação ao Natal e da energia que surge neste período, que sempre senti boa e reconfortante. Não me afeta a febre consumista, pois nela nada me atrai e nada nela encontro de mim para preencher, ficando apenas o sentir doce do que de bom o universo nos traz e ensina…mas por outro lado, confesso que já tenho saudades dos meus amigos de asas, do ambiente dos aeroportos e da forma como também me transmitem uma sensação de paz no meio da confusão. É algo que vou aprendendo em mim, a simplesmente trilhar o Caminho do Meio, por entre o equilíbrio que os aparentes desequilíbrios nos induzem. E, por fim, conhecer mais uma cidade nova, Manchester, novas pessoas, novos locais, novas realidades e desafios profissionais e novas portas para a alma e pensamento…só o frio é que deve ser o mesmo de quando estive em Newcastle, se não for mais, mas bem temperado com a postura um pouco mais aberta e afetuosa das pessoas do norte, por comparação à frieza e algum distanciamento de Londres (apesar das boas experiências recentes, a comprovar que toda a regra tem a sua exceção, que nos ergue no conhecimento do que nos rodeia).

Digamos que a vontade de partir já estava cá. Mas ainda não estava no ponto. Ainda assim uma saída da zona de conforto que recebo de braços e coração aberto, e que pode ser muito interessante. Venha agora a partida (penso que no próximo domingo) e, com uma ligeira paragem no início de Dezembro, o regresso mais perto do Natal.

Amelia

Desde criança que tenho um imenso fascínio por Amelia Earhart. Nunca me regi pelas idolatrias da moda, e Amelia surgiu cedo como aquela pessoa com quem me gostava de identificar. Na sequência desse facto, desde muito novo, tenho a espaços escrito sobre ela, fosse na escola (através de simples composições) ou nos anteriores blogs que mantive. Amelia continua a ser para mim uma heroína, alguém sobre o qual procuro saber sempre mais. E, a cada facto novo que vou descobrindo, não posso deixar de impedir o crescer da profunda admiração por esta mulher que, no seu sonho de voar, se tornou um símbolo feminino, tornando-se na imagem que muitas meninas associavam, não apenas ao seu próprio desejo de voar, mas igualmente, e de forma mais ampla, ao desejo de se sentirem mais iguais perante uma sociedade eminentemente masculina e conservadora (a própria Amelia foi muitas vezes diminuída, e mesmo gozada, na persecução do seu sentir).

Mas, com o passar do tempo, a menina que sonhava voar criou a sua obra e os seus feitos, até ao fatídico ano de 1937, altura em que, a bordo de um Lockeed 10E Electra, e com o auxílio do navegador Fred Noonan, se propôs fazer um voo de circum-navegação equatorial do planeta, num total de 47.000 km de extensão. Esta seria uma aventura que teria um fim trágico  no Pacífico, num mistério que ainda hoje se encontra por resolver, submerso numa grande quantidade de teorias, que se estendem desde a captura pelos japoneses após uma aterragem forçada no atol de Mili num período de afirmação militarista do Japão imperial, antes do início da II Guerra Mundial (teoria trabalhada neste documentário do canal História, apresentado hoje) até ao despenhamento em pleno Oceano Pacífico. Pelo meio, a tendência natural dos media americanos para as teorias da conspiração criou todo um conjunto de cenários nunca minimamente consubstanciados. Do documentário referido acima, retirei que a teoria se encontra cada vez melhor fundamentada por um conjunto de documentação e de fontes com variedade geográfica assinalável, para além de tudo se encaixar dentro da cronologia do desaparecimento. Na minha opinião, foi sempre, e continua a ser a hipótese mais plausível.

Ver a prisão onde terá passado os seus últimos dias, e a fotografia (de autenticidade comprovada) onde em desalento observa o Electra a ser içado a bordo de um navio japonês, aumentaram ainda mais a admiração que sinto pela minha heroína de infância. Nesta época de falta de líderes e de símbolos, enredados pelos ditames da teia mediática, Amelia Earhart continua para mim a significar a pureza de um ideal, e de como um sonho sustenta uma vida de nos descobrirmos a nós mesmos e ao mundo, de uma forma contínua, construindo nós mesmos, pela nosso sentir e vontade, novos caminhos. Sempre com alegria. e firmeza no sentir. Costumava dizer:

“The more one does and sees and feels, the more one is able to do, and the more genuine may be one’s appreciation of fundamental things like home, and love, and understanding companionship.”

Onde quer que esteja, qualquer que tenha sido o seu destino, que descanse em paz. Quanto ao seu exemplo de vida, o legado do seu sentir e das suas ideias, continua bem vivo, num mundo que cada vez mais dele necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Transatlântico

Depois de algum tempo ausente, é do Brasil que retomo a escrita, mais precisamente de S. Paulo. A segunda parte de uma estadia que teve o seu início, com interregno de alguns meses, em Setembro do ano passado. É sempre um prazer voltar, porque voltar implica voar, e porque voar implica paz. Por mais ou menos profissionais que sejam as viagens, elas sempre despertam o que de em nós dorme perante as rotinas dos dias. E para quem como eu gosta de aviões, a experiência começa logo no aeroporto de origem…os aeroportos são realmente a minha segunda casa.

Numa cidade como S.Paulo, talvez a única grande metrópole de dimensão verdadeiramente global no pequeno mundo português, também nunca me perco…por entre uma oferta cultural riquíssima e intensa, ou lugares muito interessantes de relaxamento e boa comida (todos em muita, e interessante quantidade), passando pelo convívio com novas gentes e novos costumes, existe verdadeiramente a sensação de se ser um cidadão do mundo, um viajante, não necessitando do glamour que tantas vezes se apregoa. E nos tempos que correm, em mim, essa é a definitiva paz.