Come and go…

Crédito: Paulo Heleno

Uma das coisas que sempre adorei ver em Porto Covo é a forma como os grandes navios surgem e desaparecem no horizonte. Tudo se passa num infinito conjunto de momentos, em que a forma se vai materializando ou desvanecendo, como se o tempo fosse parando na medida em que a imagem se encaixa na mente e mergulha na alma. É um excelente foco meditativo, para quem gosta de meditação, deixar estes grandes barcos fluir de uma forma calma. É também origem de pensamentos díspares…de como tantas vezes devemos deixar certas pessoas, ações, momentos lentamente desaparecer da nossa vida no momento, e ao ritmo certos. E de como muitas pessoas, ações, momentos, vão surgindo na nossa vida, afigurando-se lentamente como preponderantes na mesma, também no ritmo certo.

Expectativas não nos levam a nenhum lado, e por isso já as abandonei há muito. Muito menos expectativas a concretizar no curto prazo, como que numa deriva conquistadora de vida, moda do momento, que nos vai transformando por vezes no ocaso de nós mesmos. Saber esperar, amar, deixar fluir, nada mais é do que o nosso estado fundamental de humanidade nestes tempos modernos e, principalmente, nos que se avizinham.

Omnia in micro – 15

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Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Chegada aquele lugar, onde o vento se ilumina em sol e a areia se explana em mar, pousou a sua mochila e despiu-se. Enquanto as roupas caiam no silêncio da liberdade do momento, contemplou o azul à sua frente, que ali calmamente se explanava numa pequena enseada, como que enquadrando o seu corpo nu e pleno de vida numa qualquer tela de verão, inundada na luz de um qualquer tempo pausado naquele momento. Nele se deixou envolver como se o universo nela repousasse, boiando na contemplação do azul do céu. À sua volta nada existia, tudo se transformando em paz.

Raízes

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Crédito: Gonçalo Cadilhe

Ontem, enquanto ia em viagem, ouvi na TSF uma reportagem com Gonçalo Cadilhe, da qual gostei muito. Confesso que não conheço a sua obra, apesar de já ter ouvido um par de entrevistas suas. Esta foi particularmente interessante e, para ser franco, fiquei com vontade de ler alguns livros. Contudo, foi no fim da mesma que um enorme sorriso fluiu na minha alma…dizia o autor que apesar das viagens, é nas nossas raízes que encontramos a nossa felicidade. A sensação que nos atravessa, quando estamos num qualquer local distante, de que nele poderíamos ser felizes o resto da vida, nada mais é do que uma ilusão, sendo no local onde estão as nossas raízes (no caso dele, Figueira da Foz), que verdadeiramente reside a nossa felicidade. E o sorriso surgiu porque é exatamente o sentimento que tenho vivido desde que regressei de um longo período fora do país, despertando-me profunda paz e felicidade, consolidando-se diariamente.

Dizia igualmente Gonçalo Cadilhe que as viagens ensinam-nos a relativizar aquela faceta mais “orgulhosa” enquanto povo, de considerar muito do que é nosso como o melhor do mundo…eu diria que no mundo, tudo tem o seu lugar e a sua importância, acima do que podemos pensar de forma mais superficial e imediata, por vezes muito influenciada pelas dinâmicas sociais do meio. Diria ainda que é essa relativização, que se estabelece por entre viagens, que nos ajuda a nos tornarmos mais cidadãos do mundo, trazendo o mundo para a realidade das nossas raízes… se o ser humano necessita de ter uma mente sempre aberta ao mundo onde vivemos, nele se completando, também necessita de um local, o seu local, as suas raízes, onde sempre regressa para cada dia ver-se um pouco mais realizado, maduro e mais feliz.

You

 

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Crédito da imagem: Netflix

Das séries que até agora vi no Netflix, You foi uma das que mais interesse me despertou. Faz-nos refletir sobre questões relacionadas com as redes sociais, e a sua ligação à nossa vida, trazendo a questão para uma realidade mais próxima de nós…já não falamos da recolha de dados por parte do Facebook ou do Google sobre ações sociais ou individuais do nosso dia, algo sempre presente por via da informação mainstream, e que muitas vezes induz uma sensação de distanciamento face ao que tal significa na nossa vida real. A série vai mais longe, enquadrando a utilização individual e intensiva das redes numa perspetiva aberta, sem grandes salvaguardas pessoais sobre a informação lá partilhada, mostrando-nos como não apenas essa informação pode ser de fácil obtenção, mas como ela é na realidade um mapa para toda a nossa vida. Já não existe o abrir e fechar da nossa existência ao sabor do que queremos mostrar de nós mesmos, como que numa normal porta, e muito menos o controlo de quando abrir e fechar essa entrada. As redes sociais cada vez mais são como uma porta giratória, aberta a todos, não controlada por nós, por onde transita o que mostramos e o que obtemos, a partir dessa exposição, seja isso algo positivo ou negativo.

Numa perspetiva mais individualizada, a série identifica igualmente o triângulo onde assenta a dependência das redes sociais, visível não apenas na ideia conceptual da história, mas igualmente nos pormenores do próprio script. Num dos vértices desse triângulo, a identificação do que somos, de como caminhámos e como chegámos a este ponto na nossa vida, definindo o que nos leva a adotar um posicionamento mais aberto ou mais fechado nas redes. Este é um vértice importante na definição dos outros dois, sendo estes a nossa forma de socializar, mais ou menos dependente da necessidade do permanentemente ligado nos vários tipos de relacionamentos; e a vertente profissional, definido na dimensão que a nossa atividade exige em termos de presença e intervenção nas redes, muitas vezes entre cruzando a dimensão pessoal. No caso de Guinevere Beck, a personagem principal, este triângulo encontra-se não apenas presente, mas igualmente muito denso na sua vida, com todos os vértices a assumirem uma interligação e uma dimensão que por vezes os torna indistinguíveis tornando-a numa vítima da própria liberdade e realização que busca, levando a uma história de stalking muito bem construída e, em alguns pontos, assustadora, nomeadamente porque estamos perante um verdadeiro stalker na visão moderna do mesmo, longe da visão tenebrosa que eventualmente poderíamos ter deste tipo de personagem…na verdade, estamos perante alguém com quem facilmente poderíamos criar empatia, e num relacionamento de qualquer tipo partilhar algo mais sobre nós.

Aconselho vivamente a ver esta série, criada a partir do livro de Caroline Kepnes. As interpretações são excelentes, a história está muito bem construída, não apenas como narrativa mas igualmente pelo ambiente urbano em que toda a ação se desenrola, e surpreendendo-nos sempre a cada passo dado, não apenas de Beck, cuja fragilidade emocional e algum alheamento social não passam despercebidos, mas igualmente (e talvez principalmente) do seu stalker. Spoiler alert: You pode parecer uma série mainstream normal, mas, felizmente, está muito longe de o ser. O final da temporada talvez não seja o esperado, mas deixa-nos impressões muito fortes sobre ambas as personagens, e sobre todo o enquadramento da história.

E para os fãs: a segunda série irá estrear provavelmente ainda em 2019.

Simples

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Crédito: Paulo Heleno

Hoje foi o meu primeiro passeio à beira-mar, em férias. Com corpo e mente a adaptarem-se a uma vibração mais calma, fui, como sempre, lentamente caminhando rumo ao meu destino de sempre, aqueles locais onde as pegadas desaparecem e o silêncio reina…dei por mim a questionar-me sobre a simplicidade do viver, e como nessa simplicidade conseguiria expressar não apenas o caminho que vou vivendo, mas igualmente o que ele me vai traz, passo a passo, acima dos dias…

Paz…Amor…Amar…Ser…Ir…Nós…Tudo…Nada…Flor…Voo…Mar…Céu…Sol…Azul…Dar…

A vida é realmente simples quando cada passo se manifesta apenas em três ou quatro letras…