On the road

20190611_111404[1]
Crédito da imagem: Paulo Heleno

Dia de regressar às viagens. Dia de sol e céu azul, que me acompanharam por entre as nossas estradas, sempre ladeadas de um verde brilhante de verão. Até ao final do mês irei ficar a maior parte do meu tempo na região de Aveiro, toda uma zona onde me sinto bem, imerso nas suas cores e formas…para ser franco, nesta altura, o viajante não poderia desejar algo melhor. Regressei com um enorme desejo de passar mais tempo na minha terra, harmonizando-me com um sol que num passado recente foi ausente, e transpondo mais alguns degraus daquilo que considero ser a minha caminhada, numa visão cada vez mais larga que vou tendo da minha vida.

As estadias prolongadas no Brasil e no Reino Unido foram fantásticas. E se profissionalmente foi muito interessante, do ponto de vista pessoal foi sensivelmente um ano e meio de um verdadeiro banho de mundo, movimentando-me por várias realidades dentro da própria realidade destes países (cada um deles riquíssimo na sua diversidade), saboreando vários universos sociais, culturais, históricos, artísticos que decididamente me marcaram e me fizeram evoluir enquanto pessoa, rasgando o dogma da viagem de trabalho e atirando-o ao vento em mil pedaços, que se vão consubstanciando em pequenos passos em frente…por vezes grandes passos, que resistem como uma ponte para o futuro por contraponto aos rios revoltos do passado. Reconheço que é por vezes uma ponte de geometria variável 🙂 mas, passo a passo, a caminhada vai-se transformando em horizonte palpável.

Tornei-me um cidadão do mundo, pois apenas o mundo preenche a minha vontade de crescer e de o descobrir, sem dúvida com muitas mais viagens para fazer. Mas agora, sinto-me em paz, resguardado num espaço mais próximo, onde posso planear ideias para um futuro mais ou menos distante, com apenas uma certeza: somos o que escolhemos evoluir. Evoluímos na medida do que desejamos ser.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

A luz do voltar

34691012_2016658405250180_458745435410923520_o
Crédito da imagem: Paulo Heleno

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.

15/10

Finalmente um pouco de tempo para escrever sobre este tema, depois de uma semana agitada. Mas para falar do Pinhal de Leiria, teria de ser com o respeito e a dignidade que ele sempre mereceu. Uma dignidade que literalmente vai florescendo em várias zonas, e que só tenho pena de não corresponder a uma dimensão humana.

Nas minhas férias de verão, fui, como sempre, várias vezes à Praia da Vieira. Gosto de seguir pela estrada que sai da Marinha Grande e deixar o carro rolar por um cenário que, antes do incêndio, era magnífico…as casas ficavam para trás e entrávamos no domínio do verde, com muitas estradas secundárias cruzando a via principal, e a convidar para locais maravilhosos. O carro conhece o caminho…quase que se sentia um qualquer piloto automático a simplesmente levar-me…de manhã era frequente estar imersa em neblina, adensando uma aura de mistério que nos levava para um mundo diferente, em paz, com a respiração mais lenta…mas, fosse imerso na neblina, fosse banhado pela luz do sol, era uma estrada inspiradora, amiga, que com a estrada mágica entre S. Pedro e a Vieira, preenchiam-me…toda aquela zona continua um hino à vida, de uma forma diferente…um hino sobre como a beleza se ergue alta no mundo do natural, após a tragédia da sua destruição. Na generalidade to terreno, este vai ganhando mais cor, ainda mais do que da última vez que por lá havia passado…notava nas minhas viagens deste verão que o colorido das flores campestres misturava-se com os fetos…terminado por agora o primado do verde, um pequeno arco-íris nascia mais junto ao chão, ainda dorido. E em algumas zonas, já se ouviam pássaros…fiquei com muita fé no futuro no nosso (de todos) Pinhal de Leiria.

A tempestade Leslie deitou muitas árvores ao chão…das que não foram cortadas, algumas não resistiram ao vento forte, e a algumas rajadas fortíssimas que ocasionalmente naquela noite emergiam. Mas muitas ficaram…de pé…algumas mostrando sinais de vida que nasce dos seus restos…ao contrário dos homens que as mataram, ao contrário dos homens que pouco ou nada fizeram desde o incêndio, tirando o amor das crianças que por vezes vão plantar as suas pequenas árvores…ao contrário dos homens que as abandonaram sem dignidade na fúnebre memória dos séculos, após gerações sucessivas que no ajudaram a fazer de nós algo mais enquanto povo…ao contrário de tudo isso elas continuam de pé…porque as árvores morrem de pé.

Crédito da imagem: José Luís Jorge/Jornal de Leiria

Outono

Ao contrário da maioria das pessoas, não me sinto cair numa tristeza algo anunciada na transição para o outono. Se o verão normalmente significa calor, o desfrute dos dias de luminosidade intensa que nos abre ao azul do mar, banhando a nossa praia interior; o outono traz-nos uma palete de cores que nos alimenta a alma pelas longas caminhadas em que o vermelho e o amarelo sobressaem num céu mais ou menos azul, mas sempre enquadrando esta tão invulgar palete.  Se no verão desfruto da energia positiva que me rodeia, e que emerge de um extravasar de energia de um certo libertar interior, o outono traz-me, por contraponto de equilíbrio, o recolhimento e a contemplação introspetiva da natureza por entre finais de tarde envoltos em tons dourados, por vezes entre os meus livros, apreciando de forma mais tranquila locais que no verão são literalmente inacessíveis dado ao volume de pessoas que os visitam ou frequentam. É igualmente a altura de me perder um pouco na montanha, ou nas praias que, já vazias, continuam a chamar quem nelas sempre se renova…

Bem-vindo Outono. Obrigado pela tua companhia sempre amiga.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Destralhar

Adotei carinhosamente este termo: “destralhar”. Li-o num site sobre minimalismo, e fiquei literalmente apaixonado pela fonética e pelo ímpeto que coloca na necessidade de por vezes redefinir o espaço em nossa volta, face ao que desejamos no nosso bem-estar, algo muito ligado também ao que designamos por limpeza interior, pela forma como na ausência do que sai, nascem os horizontes do que fica. Se o termo “tralha” tem força na dimensão da quantidade de coisas que nos cercam, o “destralhe” tem exatamente a força oposta. É um termo delicioso.

Todos os anos faço uma arrumação geral no meu espaço. Acredito que o que guardamos encerra igualmente em si a energia de momentos, positivos ou negativos, que se tornam parte do nosso sentir diário. É uma energia que, mesmo que positiva, nos desenquadra entre o tempo presente e o tempo desses objetos, prendendo-nos em lembranças e recordações que nos fazem por vezes não dar os passos que deveríamos. Sendo negativa, prende-nos a nós mesmos, na prisão do que eles significaram de negativo no nosso caminhar. Este ano para além do que normalmente costumo fazer, lancei-me aos livros. Mais de 60 livros saíram das minhas prateleiras. Alguns, já os possuo em versão eletrónica, enquanto outros apenas passaram o prazo de validade dentro de mim. Nos outros anos, libertar-me destes livros (e também de CD’s, um pouco pelos mesmos motivos), era para mim uma espécie de tabu…sempre sentia alguma intranquilidade quando pensava em os retirar. Energia de lembranças, sorrisos, tristezas, envoltas numa aura intemporal. Mas este ano foi altura de partirem, uns para serem vendidos, outros (apenas por enquanto) arrumados.

E assim, posto tudo isto,  foi dia de abrir a janela, abrir as cortinas, deixar o sol entrar, respirar um novo ar trazido pela luz do verão que caminha para o seu final. Não posso deixar de sentir respirar diferente, de um ar mais leve. Quer queiramos quer não, o ato das limpezas são, mais do que uma ação, uma afirmação de mudança. de compromisso entre o que fomos e o que desejamos ser, naquilo que desejamos construir. E isso, é uma parte importante do caminho da felicidade que sempre buscamos em nós.

Crédito da imagem:O Minimalista