Omnia in micro – 10

“A energia para o dia que nasce tem sempre a sua origem no desgaste do dia anterior…” escreveu ela enquanto o chá vagueava pelo quarto em aroma de menta…”entre eles”, continuou, “existe uma noite plena de luz, um silêncio pleno da voz do teu sentir, um vazio que se expande no teu Ser, repleto do que em ti existe para ofertares a ti mesma.”

Parou para refletir um pouco, olhando a janela entreaberta na noite…

“Assim”, concluiu, “quando dormes apenas deixas de existir, por entre a fina cortina do descanso. Tornas-te tempo sem espaço, por entre o pleno do vazio que desponta no brilhar da luz, na paz da voz, no que em ti se renova para renasceres de novo no sol de um dia que amanhece”

Sorriu e lentamente fechou os olhos. No dia seguinte, motivada pela insistência de quem a procurava, a polícia entrou na casa, encontrando-a sem vida na sua cama. Na sua face serena, ia-se erguendo o sol da manhã. Partiu só, como sempre viveu: repleta de si.

Vazio

Com realização de Bruno Gascon, e tendo feito parte da seleção do festival sérvio Human District, de 2016, assim como do Short Film Corner do festival de Cannes (do mesmo ano), Vazio é mais um filme que, como The Nest, nos dá um retrato realista da sociedade em que vivemos, sendo neste caso mais enquadrado com as dinâmicas psicológicas inerentes à realidade do dia a dia, e à forma como a falta de adaptação às mesmas nos pode por vezes colocar perante um labirinto sem saída, ou um precipício sem regresso. À beira de cometer um suicídio na madrugada de Lisboa, num dos pontos altos da cidade, a personagem principal não consegue encontrar o ponto onde a partir do qual a sua vida deixou de fazer sentido, tornando o seu viver numa deriva depressiva entre os dogmas vazios e puramente cénicos do seu emprego, e a família, onde cada vez menos se enquadra. Após uma primeira tentativa de suicídio, em que toma consciência desse vazio que domina toda a sua vida passada e futura, mata a sua família e o seu chefe, completando depois a sua queda fatal.

É um filme perturbador, que para além de nos alertar para a dessensibilização da sociedade em que vivemos, e para os desequilíbrios que pode provocar, faz-nos pensar igualmente que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de mudar algo nas suas vidas, seguindo novos caminhos pessoais e profissionais, fora do status quo moderno. É um sentimento tão sentido quanto verbalizado e passado à prática, e que alia uma maior consciência própria e da caminhada realizada, à busca de trabalhos e projetos menos padronizados que tragam um valor realmente acrescentado a essa caminhada…é o preenchimento desse vazio interior, crescente, que guia essas pessoas a um caminho diferente…é o aumento incomensurável desse vazio, por via da inércia da vida, que leva esta personagem a um caminho escuro, sem regresso.

Muito bem escrito e realizado, é um filme sobre o qual vale a pena refletir.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Bruno Gascon