Boris, the menace

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Crédito: Getty Images

A vitória de Boris Johnson no escrutínio interno dos conservadores ingleses poderia não ser considerada uma tragédia se o bom senso, por uma vez em toda esta polémica do Brexit, saísse vencedor com a convocação imediata de eleições gerais. Mas a razão já não pára pelas terras da Velha Albion, e basicamente, iniciou-se esta semana o início de uma verdadeira sinfonia trágica chamada Reino Unido, que, mantendo-se a posição da Escócia, de se manter na UE como membro de pleno direito, terá os dias contados, fazendo com que a remanescente Inglaterra regrida a anos de crise, e de um clima de tensão na Irlanda do Norte.

Numa análise da votação realizada por Bernardo Pires de Lima (@Bernardo_PL) no seu twitter, votou 0,2% da população, 70% deles homens, com uma média de 55 anos, e 97% brancos. É mais uma vez a Inglaterra profunda, do countryside eminentemente agrícola e envelhecido, das pequenas cidades e dos vivas ao império nos pubs que define o futuro de todo um país, baseada na quimera de ilusões que ainda sobrevive na sua mente coletiva desde o referendo, muitas delas acerrimamente defendidas na altura por Boris. E mais uma vez a multiculturalidade londrina, a juventude, as academias ou o dinamismo económico do Northeast saem derrotados. Talvez realmente não haja lugar na UE para este Reino Unido, demasiado inglês para os valores e os desígnios que esperam a Europa nos anos e na década vindoura.

Oscar & Valeria

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Crédito da imagem: AFP

Já estava deitado, mas esta imagem não me saía da cabeça…tal como no caso de Aylan Kurdi, esta não é uma imagem única, que aconteceu neste momento no tempo. Esta é uma imagem sem tempo, porque reflete algo que acontece com uma frequência macabra, uma repetição que incomoda, que normalmente não se gosta de enfrentar numa espécie de não admissão de luto coletivo enquanto humanidade, num purgatório situado entre a ausência de perceção do que nos trouxe até aqui, e a ausência de visão sobre para onde vamos, a partir daqui. Afinal, num vórtice de conceitos vazios, a humanidade vai-se tornando ela própria vazia, na medida em que coletivamente a varremos do nosso ser, numa perspetiva egótica e eugénica do nosso próprio vazio, enquanto Ser individual e social…uma sanitização coletiva da nossa história, que apenas lança um enorme nevoeiro sobre o nosso futuro, fazendo-nos cada vez mais esconder instintivamente nos discursos fáceis e populistas, adaptáveis à plasticidade da sociedade moderna, que glorifica o sonho do outro em ser feliz, por troca da nossa infelicidade, mascarada de ideologia.

Talvez isto explique o porquê de situações como esta estarem a acontecer a um ritmo alarmante nas fronteiras dos EUA e da União Europeia…tradicionais paladinos da liberdade e, pela sua história, destinos tradicionais de emigração, de zonas de crise, em situações de crise…mas cada vez menos existe a noção de mundo e de história, por troca com a necessidade de, para atingir as metas e os valores que a superficialidade da era moderna impõe, nos tornarmos mais pequenos, na glorificação do vácuo das fronteiras e de uma visão quase racista de povo, algo que estes novos movimentos nacionalistas fazem, infelizmente, muito bem.

Porque as ideias estão muito presentes, mas o sono vai apertando, uma última palavra para a fotografia em si…sim, deveria ter sido tirada. Esta e outras. Sim, deveria ter sido publicada e difundida…esta e outras…

Este assunto irá voltar ao universo Omnia.

Brexit

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Crédito da imagem: Duncan Hill

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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Polónia sem história

Uma das recordações que retenho dos anos 80 foi a forma como Lech Walesa encabeçou a resistência polaca ao governo de Wojciech Jaruzelski, a partir do porto Lenine, em Gdansk, onde era eletricista de profissão e ativista sindical e líder do sindicato Solidariedade.

Lembro-me claramente de um homem enérgico, nunca escondendo a sua face, que rapidamente se tornou num símbolo em toda a Europa Ocidental, pela sua atitude perante um cenário de repressão violenta, exercida pelo regime. Uma luta que foi crucial para a realidade geopolítica naquela zona, tendo a sua conclusão sido um fator decisivo para uma afirmação da Polónia na Europa (da qual os frutos têm sido colhidos também nos anos recentes), mas igualmente fundamental no recuo da influência russa na região. Nessa altura, a situação no Bloco de Leste fazia parte do dia a dia, fosse das discussões de café ou das conversas de liceu. Vivia-se a política internacional com uma atitude bem mais globalizada do que a vivemos hoje, em plena era da globalização, não sendo incomum encontrar pessoas nas nossas relações com pensamento e conhecimento formados sobre estas temáticas. A Guerra Fria estava bem presente, e existia uma consciência global das dinâmicas da mesma.

Hoje, enquanto revia alguns tweets, chamou-me a atenção um que referia este artigo do Wall Street Journal, afirmando que o nome de Walesa vai desaparecendo da memória coletiva polaca por ação do atual governo, que em exemplos como o citado, frequentemente desvaloriza o papel do antigo sindicalista e presidente. De facto, tem-se assistido na Polónia e em todo o Grupo de Visegrado, a um revisionismo histórico sem precedentes, tentando afirmar um nova filosofia, de pendor mais nacionalista e para consumo imediato…se a UE tem dúvidas sobre o autoritarismo e o défice democrático destes regimes, deveria olhar para esta prática que lhes é muito comum na realidade global. Aliás, tendo sido Walesa um lutador não apenas contra os regimes pró-comunistas polacos, mas igualmente um defensor da entrada da Polónia na UE e na NATO (já na fase da sua presidência), dever-se-ia talvez refletir com alguma atenção sobre a evolução ideológica deste grupo de Visegrado num contexto da afirmação da Rússia na fronteira leste europeia.

São estas as consequências de, entre outras coisas, um crescente e generalizado desinteresse pela história…todo o emergir do movimento populista e fascista na Europa nada mais é do que o reflexo de uma sociedade que vai hipotecando a sua identidade, o conhecimento do seu caminho enquanto povo por entre alguns dos momentos mais negros vividos no continente europeu, a um discurso sem passado, ancorado em futuros incertos que mudam ao sabor das conveniências geopolíticas e económicas…no presente, estes movimentos vão, paulatinamente, chegando ao poder, institucionalizando esse revisionismo, e passando-o à população na forma de uma mensagem demagógica mas muito ativa, de satisfação de necessidades rápidas de mudança, exigidas a partir de uma profunda desilusão que marca o ideal europeu desde a crise económica de 2008. No caso da Polónia, é evidente uma ligação da política à força que a religião mantém no país, procurando um bloco único de interesses que se alimenta a si mesmo.

Os resultados? talvez a história nos possa dar algumas pistas. Mas poucos são os que parecem dispostos a ouvir as lições do passado…

Crédito da imagem: FRANK PERRY/AFP/Getty Images)

Confusões britânicas

Antes de ler este post, convido-vos a irem ao Youtube, e a colocarem nos vossos sistemas de sons a música do genérico inicial do Benny Hill. Ou melhor, eu próprio coloco. Prontos? vamos então começar.

Chegado ontem a Heathrow, e após um cansativo controlo de passaporte (os corredores para passaportes eletrónicos estavam fechados), reparei que faltava uma pequena mala, junto das malas agrupadas em frente ao tapete, que já se encontrava parado…logo, a minha pequena mala. Pensando num cenário não muito agradável, fui ao balcão de bagagens e confirmei mesmo o pior… que a mala efetivamente tinha ficado em Lisboa. Não é propriamente o que desejamos ouvir depois de um voo que, por muito pequeno que seja, deixa sempre um cansaço em corpo e mente…e assim, após receber o procedimento do que deveria fazer, só pensava em ir para o hotel descansar. Após pedir um Uber, que normalmente recolhe as pessoas junto do terminal 3, comecei a perceber que existia um desfasamento entre mapa que me era apresentado, e a minha localização, pois encontrava-me ainda junto do terminal 2 (no mapa, a zona realmente aparece como terminal 2 e 3). Pergunta puxa resposta, sempre simpáticas (nunca tive nem tenho problemas de relacionamento no Reino Unido), e assim saí disparado para o ponto de recolha definido no terminal 3…com tudo isto, e por uma questão de um minuto ou dois, não apanhei aquele carro. Respirar fundo…consciência de que as coisas não estavam a correr bem…mas também não se podiam repetir…nova tentativa de chamada, e desta vez surgiu-me uma simpática senhora paquistanesa, com quem tive uma muito agradável conversa durante a viagem que fizemos. Londres tem este sentido de multiculturalidade único, onde sentimos um calor humano forte, oriundo da humanidade que se explana logo ali, mesmo junto de nós. Senti-me bastante descontraído no carro, enquanto íamos conversando, até finalmente chegar ao meu hotel.

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