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Brexit

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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Polónia sem história

Uma das recordações que retenho dos anos 80 foi a forma como Lech Walesa encabeçou a resistência polaca ao governo de Wojciech Jaruzelski, a partir do porto Lenine, em Gdansk, onde era eletricista de profissão e ativista sindical e líder do sindicato Solidariedade.

Lembro-me claramente de um homem enérgico, nunca escondendo a sua face, que rapidamente se tornou num símbolo em toda a Europa Ocidental, pela sua atitude perante um cenário de repressão violenta, exercida pelo regime. Uma luta que foi crucial para a realidade geopolítica naquela zona, tendo a sua conclusão sido um fator decisivo para uma afirmação da Polónia na Europa (da qual os frutos têm sido colhidos também nos anos recentes), mas igualmente fundamental no recuo da influência russa na região. Nessa altura, a situação no Bloco de Leste fazia parte do dia a dia, fosse das discussões de café ou das conversas de liceu. Vivia-se a política internacional com uma atitude bem mais globalizada do que a vivemos hoje, em plena era da globalização, não sendo incomum encontrar pessoas nas nossas relações com pensamento e conhecimento formados sobre estas temáticas. A Guerra Fria estava bem presente, e existia uma consciência global das dinâmicas da mesma.

Hoje, enquanto revia alguns tweets, chamou-me a atenção um que referia este artigo do Wall Street Journal, afirmando que o nome de Walesa vai desaparecendo da memória coletiva polaca por ação do atual governo, que em exemplos como o citado, frequentemente desvaloriza o papel do antigo sindicalista e presidente. De facto, tem-se assistido na Polónia e em todo o Grupo de Visegrado, a um revisionismo histórico sem precedentes, tentando afirmar um nova filosofia, de pendor mais nacionalista e para consumo imediato…se a UE tem dúvidas sobre o autoritarismo e o défice democrático destes regimes, deveria olhar para esta prática que lhes é muito comum na realidade global. Aliás, tendo sido Walesa um lutador não apenas contra os regimes pró-comunistas polacos, mas igualmente um defensor da entrada da Polónia na UE e na NATO (já na fase da sua presidência), dever-se-ia talvez refletir com alguma atenção sobre a evolução ideológica deste grupo de Visegrado num contexto da afirmação da Rússia na fronteira leste europeia.

São estas as consequências de, entre outras coisas, um crescente e generalizado desinteresse pela história…todo o emergir do movimento populista e fascista na Europa nada mais é do que o reflexo de uma sociedade que vai hipotecando a sua identidade, o conhecimento do seu caminho enquanto povo por entre alguns dos momentos mais negros vividos no continente europeu, a um discurso sem passado, ancorado em futuros incertos que mudam ao sabor das conveniências geopolíticas e económicas…no presente, estes movimentos vão, paulatinamente, chegando ao poder, institucionalizando esse revisionismo, e passando-o à população na forma de uma mensagem demagógica mas muito ativa, de satisfação de necessidades rápidas de mudança, exigidas a partir de uma profunda desilusão que marca o ideal europeu desde a crise económica de 2008. No caso da Polónia, é evidente uma ligação da política à força que a religião mantém no país, procurando um bloco único de interesses que se alimenta a si mesmo.

Os resultados? talvez a história nos possa dar algumas pistas. Mas poucos são os que parecem dispostos a ouvir as lições do passado…

Crédito da imagem: FRANK PERRY/AFP/Getty Images)

Confusões britânicas

Antes de ler este post, convido-vos a irem ao Youtube, e a colocarem nos vossos sistemas de sons a música do genérico inicial do Benny Hill. Ou melhor, eu próprio coloco. Prontos? vamos então começar.

Chegado ontem a Heathrow, e após um cansativo controlo de passaporte (os corredores para passaportes eletrónicos estavam fechados), reparei que faltava uma pequena mala, junto das malas agrupadas em frente ao tapete, que já se encontrava parado…logo, a minha pequena mala. Pensando num cenário não muito agradável, fui ao balcão de bagagens e confirmei mesmo o pior… que a mala efetivamente tinha ficado em Lisboa. Não é propriamente o que desejamos ouvir depois de um voo que, por muito pequeno que seja, deixa sempre um cansaço em corpo e mente…e assim, após receber o procedimento do que deveria fazer, só pensava em ir para o hotel descansar. Após pedir um Uber, que normalmente recolhe as pessoas junto do terminal 3, comecei a perceber que existia um desfasamento entre mapa que me era apresentado, e a minha localização, pois encontrava-me ainda junto do terminal 2 (no mapa, a zona realmente aparece como terminal 2 e 3). Pergunta puxa resposta, sempre simpáticas (nunca tive nem tenho problemas de relacionamento no Reino Unido), e assim saí disparado para o ponto de recolha definido no terminal 3…com tudo isto, e por uma questão de um minuto ou dois, não apanhei aquele carro. Respirar fundo…consciência de que as coisas não estavam a correr bem…mas também não se podiam repetir…nova tentativa de chamada, e desta vez surgiu-me uma simpática senhora paquistanesa, com quem tive uma muito agradável conversa durante a viagem que fizemos. Londres tem este sentido de multiculturalidade único, onde sentimos um calor humano forte, oriundo da humanidade que se explana logo ali, mesmo junto de nós. Senti-me bastante descontraído no carro, enquanto íamos conversando, até finalmente chegar ao meu hotel.

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Aylan

Passaram 3 anos, desde que o corpo de Aylan Kurdi deu à costa numa praia da costa turca. Desde essa altura, 600 crianças deram à costa, só nessas mesmas praias…os barcos de emigrantes continuam a cruzar o mediterrâneo. Apesar do conflito entre a Etiópia e a Eritreia ter sido debelado após 20 anos, as más condições de vida na generalidade do continente africano, o recrudescer de um conflito nunca terminada na Líbia, e a incerteza imensa que se vive na Síria e em todo o Médio Oriente faz com que as pessoas continuem a sentir uma necessidade extrema, obrigatória, de buscar a segurança e uma vida melhor para si e para os seus filhos, com as redes ilegais a terem uma ação mais abrangente, chegando às costas espanholas. No meio de tudo isto, a falta de uma resposta rápida da Europa, que literalmente abandonou a Itália e a Grécia à sua sorte no recolhimento inicial destes refugiados, colocou-a a jeito de ser “flanqueada” pelos membros do Grupo de Visegrado e de uma Itália recém rendida eleitoralmente ao populismo, que forçam umas das principais feridas desta União Europeia moderna, a tomada de decisões de política externa criteriosas, em conjunto, ainda para mais mergulhada no Brexit e no emergir de uma tendência populista internacional.

Entretanto, Aylan continua a ser uma das bandeiras mais trágicas de uma humanidade que recusa a sua história para se dirigir a lado nenhum… milhares de anos de movimentos migratórios, com os quais sempre tivemos de lidar, e com os quais naturalmente se construiu muito do desenvolvimento que temos no presente; esvaem-se numa era onde a afirmação de um poder alternativo, nos faz lembrar outros períodos históricos, de muito má memória coletiva…

Aylan é a história que não nos deve fazer esquecer a História.

Crédito da imagem: Nilufer Demir/REUTERS