Iker II

Quando estive nos Pirinéus, há cerca de 3 anos, enfrentei a minha primeira tempestade de montanha. No grupo onde estava, sabíamos que ela poderia surgir durante a etapa, e, de facto, ela apareceu, sem qualquer aviso. Imediatamente começámos a correr, com o elemento mais experiente do grupo à frente, enquanto eu só olhava para o chão, tentando não cair. Após algum tempo, conseguimos um refúgio num pequeno abrigo natural, uma pequena cavidade onde mal cabíamos todos. De lá, observei uma trovoada tão intensa e maravilhosa quanto a tempestade que a envolvia, num espetáculo que durou pelo menos uma hora. Durante esses momentos, um dos elementos mais experientes do grupo perguntou-me muito curioso porque tinha baixado a cabeça, enquanto corria. Respondi que nem via por onde ia, só queria não cair e com todo o peso da mochila atrás, ao que ele me respondeu algo que nunca mais esqueci…”não o deves fazer…a montanha que te envolve na tempestade é a montanha que te oferece o abrigo…se não a olhares nos olhos, não o encontras.”

Passada essa hora, voltámos ao caminho, rumo ao refúgio dos Florestales (na imagem). Enquanto íamos caminhando, a neblina ia-nos perseguindo. Literalmente. Olhávamos para trás e via-se claramente uma massa nebulosa caminhando veloz no nosso encalço, percorrendo o chão e envolvendo o ar, tornando a visibilidade cada vez menor por onde passava. Chegámos ao refúgio não mais de 10 minutos antes de todo aquele local ser envolvido por toda essa neblina. E na simplicidade dessa estrutura, despida de qualquer artificialidade desnecessária (assim como o nosso pequeno abrigo anterior) esperámos, pacientes, por uma melhoria das condições atmosféricas (mais cerca de uma hora), antes de voltarmos ao trilho para uma das mais belas etapas daquele dia.

E tem sido assim que tenho caminhado perante as interrogações do artigo anterior. Quem já lá esteve sabe que a montanha nunca nos abandona.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Trilho

Rodado em 2013, com a duração de cerca de uma hora, Trilho é um filme que se pode dizer que vai contra-corrente, e que ao mesmo tempo a segue…tendo como pivot a objetiva de uma fotógrafa (que também é personagem do filme), Trilho leva-nos brevemente pelo percurso de vida e de atividade de um conjunto de pessoas, todas com ligações ao meio artístico…uma fotógrafa, um ator, uma bailarina, e um ator que decide colocar as suas ideias criativas no papel, movido pelo desejo de elaborar um guião para cinema. Num qualquer edifício de uma zona tradicional lisboeta, ouvimos de todos histórias que nos são muito comuns na vida do dia-a-dia, desde as dificuldades que muitas vezes os pais colocaram, à falta de trabalho no meio e a forma como por vezes esse trabalho é dirigido “sempre para as mesmas pessoas”, passando pelo facto de cada ideia passar por um crivo por vezes estranho de dificuldades obscuras. Mas o filme revela-nos também outro lado. Pela mesma objetiva passam histórias do assumir de um caminho como uma experiência de crescimento e realização pessoal, de partilha em liberdade, e de rejubilar com a liberdade do próximo…assumir a felicidade na definição de horizontes próprios, os mesmos que nos fogem na rigidez das rotinas diárias. Corrente e contra-corrente encontram-se assim numa narrativa interessante, enquadrada na encenação de alguns dos seus momentos quotidianos.

Gostei do filme, mas tenho de dizer que, para um filme em que a objetiva é o fio condutor e unificador da história, estava à espera de uma fotografia melhor, apesar de um ou outro plano mais bem conseguidos. Faltou um muito melhor aproveitamento da luz tão mágica com que Lisboa nos brinda na permanência dos dias…achei igualmente um pouco monocórdica a peça de guitarra portuguesa tocada pelo Frankie Chavez. Sendo uma melodia bem conseguida, e que fica no ouvido, vai-se tornando um pouco repetitiva, ao longa da hora que dura o filme.

Mas é um filme que nos faz bem. E que a todos aconselho.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.