Omnia in micro -11

Reparou, no livro de registos, que o nome correspondia à sua língua. Sorriu. “Também sou de Portugal, do Algarve”. Da parte dele, depois de um dia de trabalho intenso, regressou a casa. A 3000 km de distância, o viajante voou num sorriso aberto e sincero até à paz. A sua paz. Que durante um breve momento foi também a paz dela, depois de um dia difícil.

Uma história de Natal…

Quando me levantei no dia de Natal, esta foi a história que vi, mal liguei a televisão. A bordo de um barco de refugiados, em pleno Mediterrâneo, e depois da entrada ter sido vedada nos portos italianos, os refugiados que iam a bordo, e muito especialmente as crianças, tiveram uma festa natalícia plena de sorrisos, levada a cabo com o esforço dos voluntários a bordo, que não se pouparam para criar um ambiente que, por alguns momentos, fizesse esquecer todas as agruras vividas por estas pessoas. Há mesmo um fundo de verdade quando se diz que a história, ou por vezes alguns dos seus aspetos, repetem-se…no exercício intemporal da exploração dos povos pelo interesse de alguns, sobressaem em cada época os pequenos grandes exemplos de libertação que nos indicam um rumo, um horizonte, em tempos mais incertos. Algo que não se encontra nos livros, mas no coração de cada um de nós, despertando sempre na simplicidade das pequenas grandes coisas, como a alegria das crianças.

Tive uma noite de Natal calma e agradável, assim como o dia. Mas ao assistir a estes momentos, confesso que senti-me flutuar até uma dimensão diferente…e por lá vou ficando…

Crédito da imagem: SIC

Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Steve McCurry: a life in pictures

Não é segredo para ninguém que sou um fã de Steve McCurry. Já o disse aqui uma vez. Para mim, ninguém trabalha a cor como McCurry, e o seu trabalho faz com que este sempre fã do Preto e Branco, como o primado da forma e da sombra que faz sobressair a verdadeira luminosidade do sentir, não apenas do homem mas também do mundo; se compadeça e por vezes se torne pequena essência de nada na dimensão que a cor forma nestas fotografias, por entre um sorriso, uma lágrima, ou apenas um esgar de admiração pela forma como por entre a forma e a sombra, conseguimos pintar um mundo e uma humanidade tão bela.

O livro ainda não saiu, mas a Amazon já está a aceitar reservas de pré-venda.

Crédito da imagem: Steve McCurry 

Porto Covo intimista

O post número 100 do blog não poderia ser melhor, produto de uma viagem idealizada antes de ontem, e realizada no dia de ontem. Existe um feeling especial nas ideias que simplesmente surgem e se executam “na hora”…sejam horizontes que se revelam, ou desafios que ousamos ultrapassar, a alma suspira de alívio, voltando a respirar pela mera quebra das rotinas do dia. Decidi rumar a sul, passando pela Comporta (que não conhecia) e continuar até um lugar onde fui muito feliz, na energia das férias de adolescência, fosse qual fosse a forma como se expressava, da diversão imensa, até ao descobrir da essência do meu Ser.

Independentemente do ângulo em que aborde esse tempo, foi um período intenso, do qual guardo muito em mim, estruturado na forma como me tornei homem. Por isso chegar a Porto Covo foi bom. Foi mesmo muito bom. Tinha algum receio que o urbanismo desenfreado de que ouvia alguns falar tivesse consequências bem mais nefastas do que o que vi. O núcleo central da povoação está na mesma, não tendo visto construção em altura no seu interior, ou na sua vizinhança  imediata, num conjunto que me pareceu harmonioso, à luz de um dia muito bonito e de mar imensamente azul,  convidando a ser desfrutado. E por isso fui para a Praia Grande aproveitar bem o sol matinal que aqui a zona centro ainda não vai permitindo (as manhãs marítimas são sempre muito enevoadas). Não sendo saudosista, confesso que no tempo que ali passei e caminhei, desde o porto de pesca ao parque de campismo mais antigo na entrada da povoação (existe um mais recente na Praia Grande), passando pelo sentir do sol na praia, as memórias surgiram naturalmente, em alguns casos fazendo-me sorrir e, em todos, fazendo-me pensar, encaixando-se na reflexão mais vasta que vou fazendo sobre a minha caminhada…o passado de um tempo mais simples não apenas não desaparece, como faz o presente representar-se perante nós numa perspetiva mais vasta…essa simplicidade é também parte de uma forma mais liberta de ver a vida que não se deve perder na nossa caminhada, mas reforçar-se com a aprendizagem obtida, mantendo a felicidade como objetivo principal da mesma, para lá do deambular num percurso circular de rotinas…

Fui para Vila Nova de Milfontes um pouco mais vivo, um pouco mais eu e um pouco mais em paz, deixando-me boiar num mar sem ondas, sobre o mesmo sol que me recebeu em Porto Covo, deixando o tempo simplesmente passar. À minha espera ainda tinha a viagem de regresso a Leiria, também para ser desfrutada como todas as viagens, em todos os tempos. Mas agora o presente estava ali, no meio de águas calmas e do silêncio que envolvia todo aquele cenário…tempo abandonado em seu tempo, abrindo as portas da perceção ao que na busca de mim encontrei durante o dia retirei durante o dia.

Tudo tem o seu tempo…não se adianta nem atrasa a paz…apenas se encontra, vive-se e, caso assim seja a nossa escolha, integramos em nós.

Crédito da imagem: Paulo Heleno