Quo vadis TV?

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Crédito da imagem: Miguel Baltazar

As coisas não vão bem na televisão em Portugal…desta feita, o anátema da desconfiança irrompeu ali para os lados da TVI…depois da confirmação da existência de provas periciais, que atestam a falsidade de alguns testemunhos relativos às reportagens sobre o caso das adoções fraudulentas pela IURD, surgiu agora no Twitter um vídeo com uma reação coletiva de vários pais face a uma reportagem da mesma estação, relativa a alegadas intimidades entre crianças de 3 e 4 anos, numa escola de Lisboa. No vídeo percebe-se de forma clara que o sentimento geral é de defesa da escola. Poderá eventualmente dar-se o benefício da dúvida, embora estejamos a falar de algumas dezenas de pais numa posição coletiva…ou estamos perante um grau de negligência que extravasa a escola, ou realmente poderá existir aqui mais uma polémica.

Existe uma razão para colocar esta fotografia, “televisionamente” inócua. É que, na minha visão, estamos perante um problema transversal, centrado na forma como as televisões inundam diariamente o quotidiano com o lado prático de estratégias centradas sensacionalismo, orientadas por um círculo vicioso entre conquista de share, para obter mais receitas de publicidade, que resultem em mais share. Pelo meio, esta dinâmica alimenta uma cultura baseada na aparência e no ilusório, cativando as pessoas numa sociedade como a portuguesa, onde os sonhos e as esperanças andam por vezes ao nível dos passeios… acresce a este facto que esta é uma estratégia que tem as redes sociais como um dos seus pilares, numa conjunção que não foi de toda feita no céu, como se constata pelo ambiente muito pouco celestial que tudo isto gera, numa base diária. Continuar a ler

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Crédito da imagem: Edward Hopper

Estava, antes de jantar, a ver alguma pintura que aprecio particularmente, e encontrei esta Ryder’s House, de 1933, um dos quadros pintados por Edward Hopper que ilustra a temática da casa. Achei que era a ilustração ideal do meu estado de espírito neste dia de aniversário: bom. Simples, sólido, pacífico, claro…as linhas de Hopper definem o complementar humano da paisagem natural, neste caso campestre, com a casa a surgir como uma complementaridade abrupta, mas fluída na paisagem, com as suas linhas retas definindo a sobriedade neutra do branco, que se destaca por entre o ondular verde da paisagem natural. Quase que se sente uma saudável ousadia.

Provavelmente Hopper não pensou que este quadro ilustrasse tão bem o sentir de uma pessoa, oitenta e seis anos depois. Mas, de facto, ilustra. Sinto-me em paz, numa harmonia algures entre o verde ondulante da paisagem e o branco sóbrio da casa. No horizonte vão-se erguendo as montanhas que alimentam o desejo seguro de caminhar por entre as margens do dia que flui, eterno Eu viajante, sempre com a certeza que, no meio de toda essa paz, uma sólida casa branca cada vez mais se estabelece, aonde posso voltar.

O que está acima dos limites do quadro não me interessa. O que está abaixo também não, e muito menos o que se estende para os lados. Interessa-me o quadro, e a harmonia que ele possui, até nos sonhos e desejos que desperta para onde quer que olhe no infinito do seu sentir, todos partindo da minha sólida e imensa ousadia branca.

Muito obrigado a todos, pelas palavras que recebi durante este dia. Bem hajam.

Serena

Confesso que não percebo muito bem este caso da Serena Williams. Sejamos práticos. O treinador quebrou uma regra. Não interessa se Serena viu ou não, a regra foi quebrada…e filmada (é preciso que se note). Se, tal como diz, Serena não viu, então acho que deveria falar com o seu treinador, buscando a razão do acontecido. Por outro lado, Carlos Ramos não tinha outra opção que não a de tirar o ponto, mediante o comportamento absolutamente deplorável da tenista. Não se pode atirar a raquete ao chão, nem se pode falar com um árbitro daquela forma.

Para ser franco, não sei se a punição não poderia ser um pouco mais grave, uma vez que, na minha visão, esses dois acontecimentos mereciam cada um a sua sanção. Mas Carlos Ramos escolheu assim. É uma prerrogativa sua e, bem vistas as coisas, é compreensível, tentando acalmar a situação. O ténis é simples. Tem regras simples, não vale a pena complicar. E para além da sua simplicidade (do jogo e das suas regras), continua a ter um código de conduta cada vez mais importante nos tempos modernos, caracterizados pela relativização das regras, também contribuindo para alimentar os sonhos das atletas que o praticam, induzindo entre outras coisas o respeito pelo outro na sua formação. Atitudes como a de Serena não têm desculpa, e definem alguém que se calhar já não se identifica com o jogo…não me impressiona a pantera negra e o tutu…isso nada mais é do que o marketing associado a uma necessidade de sobressair no campo, para alimentar o press system que rodeia estas pessoas. Mas, porque durante muitos anos joguei ténis e nele também cresci, absorvendo os seus valores, estas atitudes chocam-me. Existiam outros locais para fazer certo tipo de reclamações. Nunca no campo.

O que ela fará, sobre esta situação no futuro…não sei. Como se irá tentar retratar (porque no ténis, o dinheiro manda e muito), também não sei…sei, que realmente, não me interessa ver mais tenistas como Serena. Interessa-me sim continuar a acompanhar tenistas como Naomi Osaka, que cumpriu o sonho da sua via numa final do Grand Slam, vencendo o seu ídolo, com uma postura de humildade, mestria, concentração (e alguma inocência, como se viu na entrega do prémio) foi feliz. Muito feliz. Que continue a nos encantar durante muitos anos.

Crédito da imagem: USA Today Sports

Omnia in micro – 3

Pelo sono pesado da noite levemente se libertavam os sonhos da manhã…o tempo, esse, limitava-se a seguir o seu trajeto…para ele, que erguido no canto do quarto contemplava o seu corpo deitado, era mais uma questão de luz… apenas ela rasgava esse tempo absorto na sua ausência, dele afastando os sonhos que nela acolhia…talvez afinal a noite não seja assim tão escura. Talvez nada mais seja que a ausência de luz no sentir de cada um.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

 

Deutschland

Acabei agora de trabalhar. Ao ligar a televisão, apenas o tom dos jornalistas parecia deixar antever que algo de fantástico tinha acontecido. Fiquei assim a saber que a Alemanha tinha sido eliminada do Mundial de Futebol, que em Berlim era a tristeza que passeava pelas ruas numa (talvez) solarenga tarde, e que existia um certo tom de contentamento geral dos homens que habitualmente relatam estas coisas da bola. Não é, de facto, coisa que consiga perceber muito bem.

Toda esta reação em torno do gigante caído retrata um pouco de nós mesmos…na rotina dos dias, vivemos uma tão intensa quanto relativa (ou ausente) positividade que se respira no que de artificial nos rodeia, alimentando todo um conjunto de objetivos em que nunca pensámos, mas que com toda a certeza vamos conseguir atingir se muito trabalharmos, abdicando dessa “entidade negra” chamada zona de conforto (aquela a que por vezes temos tanta necessidade de voltar, para sarar as nossas feridas), para transcendermos o estado presente das nossas vidas…as fórmulas rodeiam-nos, e os resultados da sua aplicação multiplicam-se em ainda mais fórmulas, num caminho de nenhures, rumo ao sucesso…também aí reside uma parte importante das mecânicas nacionalistas que vão emergindo no nosso tempo, e que nada mais são do que o apoderar por parte de alguém destas dinâmicas coletivas, algumas vezes aplicando-lhes um símbolo. Mas a isso voltarei outro dia.

Neste processo mental de luta permanente, algures entre David e Golias, em cujo triunfo do underdog é considerado ao nível pessoal, vamos esquecendo como se erra, e como refletir nesses erros…esquecemos igualmente de como a vida nos brinda com a sua ciclicidade, que nos banha nas ondas de um mar interior que gostamos de ver ilustrado no silêncio da praia. Saber observar esse além, na natureza que nos rodeia e na humanidade que nela desponta, é o que nos faz evoluir, sonhar, pensar e amar um mundo melhor…sempre renovando-se, e levando-nos com ele.