Só…

Eu e as gaivotas que passam…

É melhor assim. Eu gosto assim…

Crédito da imagem: Paulo Heleno

 

Falcões

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Crédito: Edward Hopper

Quando vi Nigthawks pela primeira vez, demorei algum tempo para passar a outro quadro. Se há na obra de Hopper um símbolo da mestria do lidar com o tempo, de deixar que num momento fixo ele continue a fluir na nossa mente, então esse símbolo será este cenário noturno, intemporal, que podemos encontrar em qualquer cidade, imerso numa qualquer noite, e do qual sempre fugimos na superficialidade da vida moderna. É um quadro sobre a solidão…uma pessoa só, de cabeça um pouco baixa, reflete…um casal parece imerso numa conversa calma, onde a análise de algo impera…não sabemos o que falam ou o que pensam, nem sequer se se encontraram apenas aqui, na partilha da sua solidão individual, ainda que a mulher apareça algo alheia e impaciente. Mas encontramos uma certa dualidade nesta solidão, porque se uma pessoa só pode eventualmente estar perdida no seu mar de pensamentos, sem um caminho ou uma saída, certo é que a solidão também pode existir num espaço de duas pessoas, dois seres que decidem na partilha caminhar sós, num mundo que naquele momento (ou em outros) não lhes interessa. Ainda que possam estar perante um dilema, exigindo reflexão, estão calmos…sabem que têm de estar ali. Sós.

Como em toda a obra de Hopper (principalmente na que retrata momentos, pessoas), é desafiante pensar em Nighthawks como um momento num tempo que passa, num espaço isolado na realidade. Na visão do momento, não é tão importante para mim pensar no “de onde estas pessoas vieram”, mas mais no “como estas pessoas chegaram”…se estariam perdidas na noite e perdidas continuavam, ou se encontraram este local depois de encontrarem a solução para os seus próprios momentos interiores, e apenas relaxam neste ponto de chegada. Posso aqui inferir todo um conjunto de exercícios psicológicos, mas, independentemente dos cenários, desperta-me a atenção de que este café noturno não tem portas de entrada. Surge-nos como uma inevitabilidade da caminhada, um ponto onde não é importante a entrada ou a saída, mas o estar, o pensar, o refletir…tanto mais importante quanto estamos perante uma rua que parece intercetar outra…uma divisão que naquele café se consubstancia não na necessidade de decidir, mas de refletir nessa decisão, o que não deixa de conferir a este quadro uma certa intemporalidade que se assume quase como uma lição do sermos humanos em tempos de desnorte moderno.

Nighthawks realmente fascina-me. Irei voltar a ele várias vezes, porque a sua vastidão não permite colocar todo o seu sentido num artigo, e porque a sua vastidão também depende muito do momento que vivemos quando o observamos, colocando esse sentido numa dimensão que tanto nos assusta: a emocional. A humana. O sermos nós, com a nossa fraqueza moderna de termos de pensar, sentir. É, de facto, um lugar comum da arte,  esta relativização do sentir, mas é isso que torna-o admiravelmente transcendente e, para mim, um dos expoentes máximos da apreciação da pintura como exercício da nossa própria humanidade.

Major Tom

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Crédito: SpaceX

Como todo o mundo, assisti com um misto de admiração e alegria ao lançamento do Falcon Heavy. Numa ótica mais pessoal, juntou-se a este sentimento um certo revivalismo de alguém que sempre gostou muito de astronomia e da ciência astronáutica, e que sentia, desde o final da guerra fria e de alguns lançamentos ocasionais, falta desse imaginário infanto-juvenil, relacionado com a exploração espacial, preso num certo cinzentismo de uma rotina automática e circular em que a mesma se foi tornando. Não que ela não nos trouxesse a magia de cada vez melhor conhecermos a nossa real dimensão no universo (assim como a real consciência da mesma) mas…faltava algo.

Com o Falcon Heavy, a magia da exploração espacial renasceu. E por entre um ambiente geopolítico que evoca a dinâmica de blocos da guerra fria, onde nasceu e se desenvolveu num imemorial primeiro capítulo, renasce simbolizada do eterno Major Tom, o ícone da canção de Bowie…sim, oficialmente chama-se Starman, mas prefiro pensar que é o Major Tom que navega no espaço, transportando em si toda uma nova iconografia baseada no homem em vez do estado, na humanidade em vez do grupo, na conexão em vez dos conectados…a sua nave espacial já não é um símbolo de uma competição, mas de um engenho que mais que a visão de engenho humano e social de Elon Musk, transporta para o espaço o nome de um dos maiores génios que a humanidade, em toda a sua história, alguma vez conheceu, unidos por uma visão diferente, e alternativa do ser humano…Musk ao nível mundo, Tesla ao nível da eternidade.

Voltando à visão pessoal, o Falcon Heavy é também um símbolo de solidão, não com o significado mercantilista dos dias que correm, mas com a capacidade de interiormente discernir o que de mais vasto existe em nós, independentemente da distância e libertos dos grilhões do tempo…de que ainda vale a pena pensar o mundo e a humanidade no contexto da sua história, das lições aprendidas e dos horizontes alcançados por entre as pregas do espaço-tempo. Não sei se o Major Tom pensa nestas coisas no seu caminho para Marte. Gosto de pensar que sim, e de acreditar que quem nos guia pelo espaço nos mostra, de uma forma nova, o universo que todos nós vemos, o universo que desde sempre vive em nós.