Praia em férias II

A costa da zona centro tem estas coisas. Dias muito bonitos de sol e calor, ou uma invasão de ar marítimo, que baixa às temperaturas e afasta o sol. Mas ainda assim é uma ótima viagem a partir de Leiria, por entre uma natureza que se vai regenerando depois da tragédia do ano passado…por entre os pinheiros ainda queimados, há toda uma cor que vai nascendo do cinzento da terra e que, por entre verde, amarelo e lilás, nos deixa uma sensação de paz, na lição da terra que se regenera…depois, um café bem quente e um pequeno passeio junto ao mar, porque nestas manhãs mais fechadas existe sempre um encantamento especial, uma sensação de calma profunda, de se ter cruzado uma linha, uma dimensão…é algo que vulgarmente sinto nos meus passeios marítimos, mas que se intensifica profundamente nestes dias. Depois o regresso…certamente todo este cenário abrirá durante a hora de almoço, ou um pouco para lá dessa hora, mas com um calor que torna desconfortável a viagem, e mesmo qualquer tipo de passeio marítimo, pois sempre fui um pouco antagonista de temperaturas mais elevadas. Para já não falar na praia repleta de gente.

Muito provavelmente amanhã terei o mesmo cenário…e muito provavelmente a rotina será a mesma, tirando o facto de que tenho de comprar terra para o meu bonsai. É também um bom dia para partilhar alguns momentos de maior paz com um companheiro de folhas e raízes, sempre presente…

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Praia em férias

Quando chego pelas 8:30 da manhã, já a praia se vai enchendo. Está calor, e por aquela hora parece emergir uma consciência coletiva de que ainda irá estar mais, algo que se vê por entre chapéus e famílias que debaixo deles vão experimentando a melhor posição para se protegerem do sol que já se vai fazendo presente. Vou caminhando pelo areal da parte central da praia, bravamente carregando a minha vastíssima coleção de conteúdos balneares. Uma toalha, um protetor solar, um telemóvel e um livro. Deverei dizer neste ponto que, embora vasta, não é das maiores…fico sempre reflexivo com a quantidade de coisas que as pessoas levam para a praia. Ainda mais do que os comportamentos, a quantidade de coisas avulsas e desnecessárias capta-me o olhar…mas não é um problema meu. Mesmo que pudesse ser, tenho uma real dificuldade em tentar perceber coisas que até certo ponto são comuns. Talvez pela minha visão muito particular da vida, acredito que o essencial é simplesmente isso. O essencial. E sou feliz na sabedoria que adquiro no essencial das coisas. O resto faz-me realmente muita confusão.

Mas a esta hora, já os barcos foram ao mar, e do mar já nos mostram o produto da sua faina, com a habitual multidão à sua volta. Para ser sincero, talvez seja o momento mais genuíno do dia…tenho um particular fascínio pela arte xávega e pelas suas gentes, que me ficou de criança e jovem, das imagens impressionantes de barcos a remos a entrar no mar, apenas com a força de braços de homens no seu interior e exterior, e uma estrutura de troncos cilíndricos. Na memória consigo igualmente encontrar as imagens das inúmeras vezes que em inúmeros verões ajudei a puxar as redes, naquele que era um trabalho de equipe entre pescadores e veraneantes. Aprendi muito sobre o mar nessa fase da minha vida, aumentando o meu fascínio por ele. Hoje em dia, os barcos já possuem motor, são assistidos na entrada para o mar por tratores, que depois puxam as redes. Ainda assim, cada barco continua a ser um ponto de encontro entre pais e filhos, e um ponto de união geracional onde algo ainda se pode aprender num certo sentido de comunhão com a natureza, pela natureza, e da interação que temos com ela. E estes momentos são cada vez mais fulcrais no nosso destino.

Mas vai sendo altura de partir. Desta vez a nortada não me empurra, e um invulgar vento de sul, mais quente, vai inundando a praia. Por entre os meus passos, numa caminhada díficil por entre uma beira-mar muito cavada e uma areia fina que torna tudo um pouco mais cansativo, ela vai ficando mais vazia, mais calma, bailando no vento aquele peculiar concerto energético entre o mar e terra, onde apenas as gaivotas bailam…hoje estão mais em terra, em bandos bastante numerosos, indicando alguma tempestade pelo mar alto. Vou caminhando até esta bandeira… Lentamente ela vai ficando maior, sinalizando uma nova meta para uma nova partida, onde as pegadas e as marcas se vão esbatendo no areal, até desaparecerem no horizonte.

Também eu irei desaparecer neste pedaço de manhã. Pois chegado a este lugar, sou apenas mais um ser vivo, peregrino da criação que me ergue na imensidão da paz. Cheguei a casa. É altura de continuar.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Omnia in micro – 2

Dia tórrido. Parte dele passado no carro por entre Norte e Sul. Pelas janelas abertas, um suave vento emanava do forte calor, refrescando a mente e levando-a pelo trilho do Sol. Menos rígido que o alcatrão, decididamente mais fresco no seu aroma a mar.

Omnia in micro – 1

Em cada sexta-feira, o desligar do computador era no fundo o desligar de si, em si mesmo. E enquanto lá fora o mundo se renovava numa sucessão de horizontes, o tempo, o seu tempo, arrastava-se por entre a vida, desnudando-se em fumo no sol de segunda-feira.

Renascer

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Crédito da imagem: Paulo Heleno

Os primeiros dias de sol do ano trazem consigo um desejo grande dele usufruir. Talvez aliado a um sentir de ano novo, a luz parece refletir-se de forma mais vasta e brilhante por entre o ar frio, despertando-nos na mente uma imagem de dinâmica que nos faz retomar as atividades entretanto suspensas (normalmente por causa da chuva), e sonhar com um verão não tão distante quanto se possa pensar.

Existem, contudo, por entre esta anualmente renovada promessa de luz, dias mais cinzentos. Como o de hoje. Dias onde o frio se esconde por entre as nuvens, e por entre as nuvens surgem períodos de chuva mais ou menos intensa. Confesso que, depois de um dia um pouco difícil como o de ontem, sinto-me atingido por este manto cinzento, o que não é nada normal…não tenho por este tempo um desagrado militante, sendo que muitas vezes me proporciona tardes de excelente leitura ou de desfrute musical, libertando bastante a minha mente para um merecido descanso ao sabor de um chá bem quente.

Mas hoje, ao contrário do meu bonsai, também me sinto um pouco cinzento. Ele, o bonsai, sendo de interior, nunca cede perante a chuva que por vezes o deixo apanhar, e desde que está comigo, já há mais de meio ano, que por entre ocasionais pequenos banhos matinais vai crescendo, tornando-se mais verde na alegria dos rebentos que nascem por entre a maturidade da folhagem que os rodeia…não consigo deixar de pensar, por entre o cinzentismo do dia, que as plantas não esquecem os ritmos naturais e sazonais, tal como nós há muito os esquecemos, e que neles vivem num equilíbrio intemporal de energias díspares que nos erguem e derrubam num ciclo de harmonia natural, sem os limites que aprendemos a nos colocar, longe no passado ou distantes no futuro.

É uma ideia que me devolve o estado habitual, de sentir que o sol sempre brilha por cima das nuvens, as mesmas nuvens que fazem renascer a natureza no mundo, para mais um ano de uma viagem imensa de vida que nos inspira e nos move. Nada é fundamentalmente mau ou bom. Tudo caminha à nossa volta, deixando-nos um pouco mais maduros na nossa caminhada e capazes de ver horizontes cada vez mais distantes no espaço ou cada vez mais profundos em nós. E o chá…bom…esse já está frio…é tempo de fazer mais.