Semana longa

Com o intensificar do trabalho, e a ter que aproveitar parte das noites para o meu mini-MBA em Gestão de Serviços, o tempo não tem sido muito para escrever…ou ler, apesar de não conseguir acabar o dia sem aqui deixar o meu pequeno momento de partilha. O tempo escasseia, mas ainda assim, apesar de não ser muito, há sempre lugar para a frescura do novo que sempre se renova em novas ideias…tudo vai estando preparado para a segunda série de episódios do podcast, em muitos aspetos uma evolução da primeira, e que se irá iniciar com a temática dos cuidadores informais, algo que já vivi um pouco na minha vida, e uma causa que aprecio particularmente. Enquanto isso, no dia-a-dia, resta-me algum tempo a seguir ao almoço e ao jantar para ver o que se passa na minha conta do Twitter, ler um pouco, ver televisão…por vezes dormir. Apenas a música me acompanha durante todo o dia, trazendo uma muito doce sensação de equilíbrio ao trabalho, dando-lhe por vezes um muito necessário colorido e vivacidade, naqueles 5 minutos tão necessários para desfrutar uma melodia, saborear uma letra…por vezes até dançar. No meio de tudo isto, só as dores no corpo não ajudam, especialmente nestas estações de transição…por entre o calor que se faz frio e que em calor nos torna a aquecer, o corpo sente-se um pouco, principalmente as costas, um pouco afetadas pelo acidente que sofri o ano passado. Mas o caminho faz-se caminhando…

Os bocadinhos dos dias vão sendo assim cada vez mais importantes, pontos cada vez mais focais de serenidade…por entre a dinâmica ensurdecedora dos homens vai brilhando o meu pequeno silêncio, trilhando um caminho de paz por entre horizontes que despontam na bruma, de forma mais ou menos espontânea…a felicidade não está em usufruir de tudo o que nos é dado, de uma forma indiferenciada…ela está na escolha plena de sabedoria e gratidão do horizonte onde vislumbramos um pouco mais da nossa felicidade.

 

A visão Bauhaus

Um vídeo simples, mas muito interessante, que nos mostra como o movimento Bauhaus contém, na sua essência, muitos dos pressupostos que deveriam mover a inovação no tempo moderno. A ideia de um mundo repensado, numa filosofia minimalista que evolui numa base inspirativa e inspiradora, para lá dos ditames do mercado…uma reforma viva, vibrante, baseada na partilha e evolução das ideias como produto duma reflexão liberta, acomodando o progresso e as dinâmicas sociais do nosso tempo no sentir intemporal que nos define enquanto humanidade. Para mim, continua a ser um paradigma muito interessante, num mundo e numa sociedade que de facto necessitam de ser profundamente repensados à luz do homem que se liberta, deixando para trás o homem que um dia se prendeu no vazio do que conquistou.

A paixão continua bem viva…

Crédito do Vídeo:Bauhaus Movement

Censored Mapplethorpe

Não vale a pena fazer um grande esforço para suavizar palavras que caracterizem o que alegadamente aconteceu em Serralves, com a tão aguardada exposição de fotografia de Robert Mapplethorpe. Se existiu retirada de fotografias nos dias imediatamente anteriores ao evento, indo para além dos normais avisos face à natureza explícita da exposição, ou até de uma já muito questionável sala específica para algumas fotografias (apesar de, particularmente, desejar que essas fotografias pudessem ser vistas em espaço aberto, por todos, incluindo os mais jovens quando acompanhados dos pais), então, estamos perante um ato de censura.

Esta é uma situação que atinge uma dimensão mais ampla em virtude de estarmos a falar de Serralves, um espaço que desde o início se apresentou ao Porto e ao país como um foco de harmonia entre a arte exibida e as vivências culturais, muito vastas, que a globalidade do espaço oferecia. E isso seria importante num país em que a arte é frequentemente desvalorizada, satisfazendo muitas vezes apenas meras necessidades de afirmação social numa sociedade onde googlar conhecimento substituiu o pensar e viver conhecimento, com consequências nefastas nas dinâmicas não apenas de educação cultural formal, mas igualmente no estímulo não apenas dos jovens, mas da população em geral, para a apreciação da cultura como fruto do nosso próprio desenvolvimento interior, motor da nossa ação diária num mundo que cada vez mais se quer diferente, para o bem de todos. Depois da demissão de João Ribas do cargo que desempenhava, esperam-se esclarecimentos, e rápidos, da administração da Fundação de Serralves face a este caso. É preciso conhecer exatamente o que realmente aconteceu. O trabalho de Mapplethorpe toca pontos que na sociedade portuguesa não apenas ainda são tabu, como estão sempre reféns de um certo puritanismo baixo, escondido, mas infelizmente muito funcional, reagindo com incapacidade e receio à visão da arte como pólo de reflexão construtivo (e muitas vezes alternativo) de que o país necessita muito, em troco da manutenção de um status quo de ignorância sobre estas questões. Muitos artistas têm a experiência desse puritanismo quando tentam expor/apresentar as suas criações. Seria triste se viéssemos a comprovar que os motivos do que aconteceu apenas assentaram na necessidade de calar a voz das imagens de Mapplethorpe, que nos tocam em feridas abertas do nosso tecido social, resultando numa sociedade que ainda hoje esconde o que nunca soube admitir e abordar.

E aí, o estado português, que é fundador e um dos principais financiadores de Serralves, deve atuar.

Crédito da imagem: Robert Mapplethorpe Foundation

Vazio

Com realização de Bruno Gascon, e tendo feito parte da seleção do festival sérvio Human District, de 2016, assim como do Short Film Corner do festival de Cannes (do mesmo ano), Vazio é mais um filme que, como The Nest, nos dá um retrato realista da sociedade em que vivemos, sendo neste caso mais enquadrado com as dinâmicas psicológicas inerentes à realidade do dia a dia, e à forma como a falta de adaptação às mesmas nos pode por vezes colocar perante um labirinto sem saída, ou um precipício sem regresso. À beira de cometer um suicídio na madrugada de Lisboa, num dos pontos altos da cidade, a personagem principal não consegue encontrar o ponto onde a partir do qual a sua vida deixou de fazer sentido, tornando o seu viver numa deriva depressiva entre os dogmas vazios e puramente cénicos do seu emprego, e a família, onde cada vez menos se enquadra. Após uma primeira tentativa de suicídio, em que toma consciência desse vazio que domina toda a sua vida passada e futura, mata a sua família e o seu chefe, completando depois a sua queda fatal.

É um filme perturbador, que para além de nos alertar para a dessensibilização da sociedade em que vivemos, e para os desequilíbrios que pode provocar, faz-nos pensar igualmente que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de mudar algo nas suas vidas, seguindo novos caminhos pessoais e profissionais, fora do status quo moderno. É um sentimento tão sentido quanto verbalizado e passado à prática, e que alia uma maior consciência própria e da caminhada realizada, à busca de trabalhos e projetos menos padronizados que tragam um valor realmente acrescentado a essa caminhada…é o preenchimento desse vazio interior, crescente, que guia essas pessoas a um caminho diferente…é o aumento incomensurável desse vazio, por via da inércia da vida, que leva esta personagem a um caminho escuro, sem regresso.

Muito bem escrito e realizado, é um filme sobre o qual vale a pena refletir.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Bruno Gascon

Feminismo on sale

Surgiu-me hoje um tweet sobre formações de feminismo, orientadas por uma conhecida figura do panorama audiovisual português. E confesso que, durante alguns momentos fiquei um pouco atónito, sem saber o que pensar…mas, recomposto, se algo me surge imediatamente é o reconhecimento do falhanço de comunicação de uma mensagem feminista que, bem vistas as coisas, tem no mundo moderno uma ligação ainda bastante vincada ao movimento original, diversificado na sua ação, que defendia os direitos a voto, contrato, educação, propriedade, entre outras lutas que ainda vão subsistindo, e que dependendo dos países, assumem dimensões de verdadeiras lutas por meros direitos humanos existenciais, inerentes à própria humanidade do Ser.

Na Índia, por exemplo, ainda se luta pela erradicação das violações em grupo, ou da discriminação das meninas pela sua sociedade de castas, que as segrega por serem apenas…meninas. Assim, se me perguntarem em termos da realidade global, eu diria que a mensagem feminista está bem viva, bem ancorada nos seus valores originais e até indo além deles, renovando-os com a realidade do tempo presente de uma forma resoluta, forte, mas saudável, e que por todo o mundo vai produzindo resultados, tendo sempre a igualdade como horizonte. Talvez não à velocidade que se deseje…mas certos caminhos, infelizmente, ainda continuam a ser feitos assim. Caminhando…mas este é o feminismo que apoio, e pelo qual luto, mesmo nesta sociedade ocidental, onde no campo das igualdades, ainda existe muito por fazer.

Mas no ocidente, há muito que esse deixou de ser o foco do discurso, entrando-se numa verdadeira guerra de sexos, muitas vezes sem quartel, levando a sociedade a um exagero, de vigiar comportamentos, a forma como as pessoas se relacionam, à luz de um comportamento que tem mais de belicista do que de construtivo. É a radicalização do discurso, que rapidamente, desde o caso Weinstein, foi largada sociedade fora (também se alimentando muito da figura misógina de Trump na Casa Branca), despoletando todo um conjunto de casos julgados publicamente antes de o serem na justiça, revelando-se em alguns casos flagrantes injustiças, enquanto que noutros, a tão desejada justiça foi feita. A “caça” continua…incluindo a caça “às bruxas”, alimentando-se do relativismo que se vai instalando no nosso mundo, por via da histeria das redes sociais e de todo um conjunto de pessoas que fazem do incêndio das ideias uma pretensão de um nascimento da luz…convinha, neste aspeto, retirar as lições do século passado sobre incendiar ideias, especialmente quando, no tempo moderno, muitas delas são concebidas em departamentos de marketing e de relações públicas, e propagados numa sociedade cada vez menos pensante e atenta ao que a rodeia, apesar da informação abundante que a inunda.

Tal como deixei escrito nas entrelinhas do meu post sobre piropos, e no meu comentário a este texto, ainda existe muito a caminhar em relação a uma certa mentalidade masculina abusiva, física e mentalmente, assim como nos costumes, que se traduz ainda, infelizmente, em muitas mulheres mortas ou vítimas de violência física e psicológica. Mas tudo isto não se pode consubstanciar numa radicalização da mensagem feminista, assente na guerra aberta e no antagonismo militante entre sexos, transformando-se num revisionismo da mensagem original. Homens e mulheres devem caminhar numa comunhão de ideias, unidos na mensagem original igualitária do feminismo, evoluindo métodos e formas de luta para que este caminho possa acontecer com o contributo de todos,  motivando homens e mulheres de vários países (incluindo os ocidentais)  a unirem-se na persecução de soluções construtivas e agregadoras, e não através de radicalizações inconsequentes, baseadas numa intelectualização e mediatização de um discurso que, felizmente, ainda vai sendo muito rejeitado…sinto isso nas mulheres que conheço, muitas das mulheres com que me cruzo nas redes sociais, e muitas mulheres que sobre isto falam nos media. E ainda bem. Devemos por os olhos nas mulheres africanas, que através de uma crescente organização, e com uma compreensão masculina lenta, mas progressivamente maior, vão construindo vitórias importantes, ou pelas mulheres da Índia, que não deixam que a violência que cai sobre elas lhes tolde a necessidade de se organizarem, e de lutarem muitas vezes de formas não violentas, pelos seus direitos, trazendo muitos homens para a sua causa.

Um, é a semente. Dois, são a plenitude.