De volta

Finalmente de volta às lides do blog, depois de praticamente um mês passado no Reino Unido. Sim, é verdade, o estar fora não me impediria teoricamente de manter os posts regulares, mas também é certo que o trabalho tem sido bastante intensivo, num grau de exigência superior, e as horas fora do mesmo são destinadas a partilhar as novidades com os amigos, de uma forma mais expedita (como a promovida pelas redes sociais), ouvir música, e tentar ler um pouco…o importante mesmo é basicamente esquecer a o dia ou a semana, e tentar devolver-me a mim mesmo por algumas horas ou dias. Um trabalho de balanceamento entre o profissional e o pessoal que para mim é fundamental, e cada vez mais estrutural nas sociedades modernas, e no caminho que vão trilhando, à medida que as pessoas se tornam mais exigentes na busca da sua felicidade. Ainda assim foi uma experiência muito positiva, assim como foi a experiência de quase meio ano no Brasil, e que continuará em 2019, certamente com mais tempo para escrever.

Ainda nos encontraremos antes do Natal. Aqui e nos podcasts.

Dia do cuidador informal

Celebra-se hoje o dia do cuidador informal. Volto a publicar aqui o podcast que fiz sobre este tema, deixando aqui mais uma vez a ligação para o site da Associação Nacional de Cuidadores Informais. Num período de discussão do Orçamento de Estado para 2019, esta é uma boa altura para todos, enquanto sociedade, nos lembrarmos das dificuldades por que passam estas pessoas na sua entrega ao próximo, pontualmente, e de forma escassa ajudadas de forma exígua pelo Estado, seja em apoios monetários ou apoios nos cuidados de saúde, não apenas para quem é cuidado, mas igualmente para quem cuida (apesar de, neste último caso, existirem alguns casos interessantes em termos da atividade de algumas unidades de saúde).

Falo de pessoas que, numa esmagadora maioria, abdicam da sua vida profissional (e mesmo pessoal) para se dedicarem a ascendentes ou descendentes com doenças crónicas graves ou deficiências, caindo com frequência na pobreza ou, pelo menos, em profundas dificuldades de subsistência, sem emprego, e dependendo da solidariedade para com elas, e para as pessoas ao seu cuidado. Urge que o Estado assuma as suas responsabilidades no apoio a estas pessoas, e que a sociedade civil também veja o problema de uma forma mais integrada, nas organizações locais, nas empresas, nas iniciativas privadas de solidariedade…necessitamos de caminhar para um novo paradigma de cuidados de saúde para enfrentar esta realidade cada vez mais presente, e que um dia, pode vir a ser a realidade de qualquer um de nós.

Crédito da imagem: DN (Reportagem sobre cuidadores informais)

CEP

Homenagear condignamente a presença do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial é um acerto de contas com a história de Portugal, e do estado português para com cerca de 55.000 soldados que pariram, mal equipados e preparados, para um dos mais violentos conflitos na história humana recente, um ponto de viragem na estratégia e procedimentos militares que fizeram dele um dos mais mortíferos. Também compreendo que na homenagem exista uma componente militar, através de um grande desfile (penso que um dos maiores em democracia). Afinal estes homens eram militares ao serviço de Portugal, e nesse papel cumpriram a sua (ingrata) missão…é normal e justificado que os seus pares na atualidade desejem esta homenagem…contudo, acho que estas datas, estes momentos, são muito esquecidas na população em geral, por entre uma geração desinteressadas das mesmas, e outra que delas vai perdendo a memória /sendo que por vezes estas duas características se confundem por entre gerações. E neste caso em particular do Corpo Expedicionário Português,já não existem uma testemunhas vivas dos acontecimentos, perdendo-se quase na totalidade o relato das vivências na primeira pessoa.

Temos um excedente de celebrações destes momentos, com um foco excessivo no protocolo, na normalidade pacífica do status quo, na cerimónia, já não falando na oportunidade que estas situações proporcionam para marcar, ou entrar na agenda política. Precisamos de mais conhecimento, espalhado pelo país, através de uma visão integrada entre a educação, a sociedade civil  e a cultura, entre a escola, os núcleos e as associações da sociedade civil que existem por todo este país (não esquecendo em certos casos os familiares das pessoas) e a rede museológica (não esquecendo a investigação universitária). O património histórico deixado pelos homens do CEP, e que muitas outras pessoas em muitos outros atos deixaram, tem de ser algo que se renova e evolui no querer saber mais sobre o que nos construiu enquanto país, e que pode ajudar na formação de pessoas com uma superior cultura cívica, e mais interventivas na cidadania. Algo que o país tanto necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Um dia na América

Uma das principais práticas que tenho neste tipo de acontecimentos é o não promover qualquer tipo de comentário imediato. Sempre me pareceu a postura mais correta a ter, por entre notícias desencontradas, jogos de informação e contra-informação, aumento de fluxo nas redes sociais. Isto não invalida que logo não possam surgir algumas ideias sobre o sucedido, nomeadamente decorrentes do que ações deste tipo podem significar na visão mais global do que as contextualiza.

Faltam cerca de duas semanas para as eleições intercalares, e sobre elas muito haverá para escrever, tendo os acontecimentos deste dia um espaço nessa reflexão. Mas parecendo ser um ato de terrorismo doméstico, convém que não nos esqueçamos de algumas notas…este tipo de terrorismo interno é uma realidade nos EUA, apesar de não muito noticiado no exterior. Ele expande-se desde um conjunto de milícias de direita, espalhadas por todo o território, até movimentos políticos mais radicais, dentro ou fora da esfera do partido republicano, e passando por lobos solitários, gangs de cariz mais violento e criminoso, etc. Toda esta “galáxia” encontrou em Trump a imagem quase perfeita de uma legitimização da sua existência, por um lado…por outro, a retórica presidencial agressiva é, para alguns ideólogos mais radicais, nada mais do que a porta para a assimilação institucional de algumas das suas ideias (embora talvez não na amplitude que desejariam, por enquanto…). Neste enquadramento, este tipo de eventos podem começar a ser normais, especialmente em períodos eleitorais…num ambiente de permanente conflito retórico, ao mais alto nível, que inevitavelmente cria um clima de tensão sobre uma sociedade de feridas abertas (e algumas antigas), a insistência numa colagem a assuntos fraturantes, direcionados com frequência em ataques ao partido, figuras e apoiantes democratas (bem como à imprensa liberal e imigração) estimula a ação de movimentos radicais que desejam mostrar que estão vivos (o que lhes permite angariar mais membros), passando ao mesmo tempo a mensagem de que Trump lhes interessa; ou de lobos solitários, manifestando o seu apoio por via de intervenção prática no terreno, que observam como oportunidades únicas de agir. Em tudo isto, não nos podemos esquecer da forma como Trump tem lidado com instituições como o FBI, particularmente odiadas por estes movimentos ou pessoas, como símbolos de uma autoridade opressora.

Mas ainda existe muita poeira pelo ar. É necessário tempo para que esta assente… esperemos então  pelas eleições intercalares.

Crédito da imagem: Washington Post

Polónia sem história

Uma das recordações que retenho dos anos 80 foi a forma como Lech Walesa encabeçou a resistência polaca ao governo de Wojciech Jaruzelski, a partir do porto Lenine, em Gdansk, onde era eletricista de profissão e ativista sindical e líder do sindicato Solidariedade.

Lembro-me claramente de um homem enérgico, nunca escondendo a sua face, que rapidamente se tornou num símbolo em toda a Europa Ocidental, pela sua atitude perante um cenário de repressão violenta, exercida pelo regime. Uma luta que foi crucial para a realidade geopolítica naquela zona, tendo a sua conclusão sido um fator decisivo para uma afirmação da Polónia na Europa (da qual os frutos têm sido colhidos também nos anos recentes), mas igualmente fundamental no recuo da influência russa na região. Nessa altura, a situação no Bloco de Leste fazia parte do dia a dia, fosse das discussões de café ou das conversas de liceu. Vivia-se a política internacional com uma atitude bem mais globalizada do que a vivemos hoje, em plena era da globalização, não sendo incomum encontrar pessoas nas nossas relações com pensamento e conhecimento formados sobre estas temáticas. A Guerra Fria estava bem presente, e existia uma consciência global das dinâmicas da mesma.

Hoje, enquanto revia alguns tweets, chamou-me a atenção um que referia este artigo do Wall Street Journal, afirmando que o nome de Walesa vai desaparecendo da memória coletiva polaca por ação do atual governo, que em exemplos como o citado, frequentemente desvaloriza o papel do antigo sindicalista e presidente. De facto, tem-se assistido na Polónia e em todo o Grupo de Visegrado, a um revisionismo histórico sem precedentes, tentando afirmar um nova filosofia, de pendor mais nacionalista e para consumo imediato…se a UE tem dúvidas sobre o autoritarismo e o défice democrático destes regimes, deveria olhar para esta prática que lhes é muito comum na realidade global. Aliás, tendo sido Walesa um lutador não apenas contra os regimes pró-comunistas polacos, mas igualmente um defensor da entrada da Polónia na UE e na NATO (já na fase da sua presidência), dever-se-ia talvez refletir com alguma atenção sobre a evolução ideológica deste grupo de Visegrado num contexto da afirmação da Rússia na fronteira leste europeia.

São estas as consequências de, entre outras coisas, um crescente e generalizado desinteresse pela história…todo o emergir do movimento populista e fascista na Europa nada mais é do que o reflexo de uma sociedade que vai hipotecando a sua identidade, o conhecimento do seu caminho enquanto povo por entre alguns dos momentos mais negros vividos no continente europeu, a um discurso sem passado, ancorado em futuros incertos que mudam ao sabor das conveniências geopolíticas e económicas…no presente, estes movimentos vão, paulatinamente, chegando ao poder, institucionalizando esse revisionismo, e passando-o à população na forma de uma mensagem demagógica mas muito ativa, de satisfação de necessidades rápidas de mudança, exigidas a partir de uma profunda desilusão que marca o ideal europeu desde a crise económica de 2008. No caso da Polónia, é evidente uma ligação da política à força que a religião mantém no país, procurando um bloco único de interesses que se alimenta a si mesmo.

Os resultados? talvez a história nos possa dar algumas pistas. Mas poucos são os que parecem dispostos a ouvir as lições do passado…

Crédito da imagem: FRANK PERRY/AFP/Getty Images)