25 anos de Rodrigo Leão

Em noite de eleições intercalares americanas, e já com alguma dificuldade em conter um ou outro bocejo, lembrei-me que este é o ano do 25º aniversário da carreira a solo de Rodrigo Leão. É um dos músicos portugueses que sigo mais de perto, e que na minha opinião, possui a identidade musical mais vincada, uma identidade com a qual me identifico profundamente. Encontro nas suas sonoridades uma paz imensa que se estende desde a melancolia (com a qual tenho uma relação muito particular, não a sentindo de uma forma particularmente negativa), até à serenidade imensa.

Assim, num intervalo por vezes infinito que se explana desde a leveza de um sentir mais reservado, até à imersão num leve sorriso de contemplação interior, sinto na música de Rodrigo Leão a vibração do estar, do agora, do momento, naturalmente submergindo o Ser. No momento desta pequena homenagem, deixo aqui As Cidades, uma música que Rodrigo Leão compôs para a banda sonora de Portugal, Um Retrato Social, uma série da RTP idealizada por António Barreto. É talvez um dos seus menos conhecidos trabalhos (não teve uma publicidade tão intensa quanto a restante obra), mas para mim é um dos mais geniais, pela atmosfera que transmite a toda a série…se as imagens nos documentam, e à nossa evolução por entre os caminhos curvilíneos do Portugal da era moderna, a música identifica-nos na nossa essência comum, do povo que se resigna ao povo que deseja algo mais. Sendo um excelente exemplo dessa visão, este vídeo é assim uma sucessão de momentos, distanciados num tempo vasto, mas unidos nas linhas das partituras, que edificaram este álbum. Vale mesmo a pena ouvir.

Crédito do vídeo: Rodrigo Leão

Crédito da imagem: RTP

CEP

Homenagear condignamente a presença do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial é um acerto de contas com a história de Portugal, e do estado português para com cerca de 55.000 soldados que pariram, mal equipados e preparados, para um dos mais violentos conflitos na história humana recente, um ponto de viragem na estratégia e procedimentos militares que fizeram dele um dos mais mortíferos. Também compreendo que na homenagem exista uma componente militar, através de um grande desfile (penso que um dos maiores em democracia). Afinal estes homens eram militares ao serviço de Portugal, e nesse papel cumpriram a sua (ingrata) missão…é normal e justificado que os seus pares na atualidade desejem esta homenagem…contudo, acho que estas datas, estes momentos, são muito esquecidas na população em geral, por entre uma geração desinteressadas das mesmas, e outra que delas vai perdendo a memória /sendo que por vezes estas duas características se confundem por entre gerações. E neste caso em particular do Corpo Expedicionário Português,já não existem uma testemunhas vivas dos acontecimentos, perdendo-se quase na totalidade o relato das vivências na primeira pessoa.

Temos um excedente de celebrações destes momentos, com um foco excessivo no protocolo, na normalidade pacífica do status quo, na cerimónia, já não falando na oportunidade que estas situações proporcionam para marcar, ou entrar na agenda política. Precisamos de mais conhecimento, espalhado pelo país, através de uma visão integrada entre a educação, a sociedade civil  e a cultura, entre a escola, os núcleos e as associações da sociedade civil que existem por todo este país (não esquecendo em certos casos os familiares das pessoas) e a rede museológica (não esquecendo a investigação universitária). O património histórico deixado pelos homens do CEP, e que muitas outras pessoas em muitos outros atos deixaram, tem de ser algo que se renova e evolui no querer saber mais sobre o que nos construiu enquanto país, e que pode ajudar na formação de pessoas com uma superior cultura cívica, e mais interventivas na cidadania. Algo que o país tanto necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Sporting: o fim da novela?

Hoje foi um dia essencialmente de descanso. Como sentia a cabeça um pouco cansada para editar fotografia no Lightroom, fui vendo alguns filmes (essencialmente curtas) e, a espaços, ia deitando o olho a este manifesto exagero televisivo à volta das eleições no Sporting. Um pouco para ver “os bonecos a passar”, e deixar a cabeça ligar à Terra, com algo que, na minha vida pessoal, é basicamente inútil, e não implica qualquer esforço de pensamento.

Quem me conhece, sabe que não sou apreciador de futebol. Mas não posso deixar de ver de forma muito positiva uma (espero) solução para toda esta novela do Sporting. Não podemos ter um grande do futebol português em eterna convulsão interna, ao nível das situações que se verificaram no passado recente, promovendo alteração do ambiente social. É certo que, pelo que tenho ouvido, outros escândalos se vão aproximando com outro grande, mas Portugal tem de começar realmente a promover mudanças profundas no edifício do futebol, a começar pelos clubes e a forma como dimensionam a sua intervenção na sociedade. Estaremos porventura a assistir ao início desse período, sendo por isso vital toda a pacificação e maturidade de gestão que se consiga encontrar nestes momentos. Não me agrada rigorosamente nada ver um panorama futebolístico em guerra como válvula de escape de situações de maior crise económica e social.

Parabéns a quem ganhe. Força para quem perca. Não me interessa rigorosamente nada saber quem é quem nesse pódio (assim como não me interessa em outros clubes). O importante é encontrar uma plataforma de unificação e pacificação, dentro dos paradigmas da indústria do futebol moderno, que torne o Sporting e outros clubes, pólos de rivalidade sim, mas também de alegria e festa nos estádios, um foco positivo na vida do país, e muito especialmente nas caminhadas por vezes complexas que os adeptos fazem nas suas vidas diárias.

SCP

Apesar de, como já é conhecido de todos, não ser um adepto do futebol, não posso deixar de prestar aqui solidariedade à equipe profissional do Sporting Clube de Portugal, e aos jogadores e técnicos que foram, de forma bárbara, agredidos no centro de estágios do clube.

O futebol em Portugal chegou a um nível apenas previsto por todos, e simplesmente ignorado por todos. Nada a que não estejamos já habituados nas nossas vidas profissionais, ou mesmo nos ditâmes sociais que nos regem, mas que no futebol explode no potenciar das emoções, ao sabor do vácuo dos tempos modernos.

Pandora nunca negou ajuda para fechar a sua lendária caixa. Simplesmente, apenas nunca a teve…