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25 anos de Rodrigo Leão

Em noite de eleições intercalares americanas, e já com alguma dificuldade em conter um ou outro bocejo, lembrei-me que este é o ano do 25º aniversário da carreira a solo de Rodrigo Leão. É um dos músicos portugueses que sigo mais de perto, e que na minha opinião, possui a identidade musical mais vincada, uma identidade com a qual me identifico profundamente. Encontro nas suas sonoridades uma paz imensa que se estende desde a melancolia (com a qual tenho uma relação muito particular, não a sentindo de uma forma particularmente negativa), até à serenidade imensa.

Assim, num intervalo por vezes infinito que se explana desde a leveza de um sentir mais reservado, até à imersão num leve sorriso de contemplação interior, sinto na música de Rodrigo Leão a vibração do estar, do agora, do momento, naturalmente submergindo o Ser. No momento desta pequena homenagem, deixo aqui As Cidades, uma música que Rodrigo Leão compôs para a banda sonora de Portugal, Um Retrato Social, uma série da RTP idealizada por António Barreto. É talvez um dos seus menos conhecidos trabalhos (não teve uma publicidade tão intensa quanto a restante obra), mas para mim é um dos mais geniais, pela atmosfera que transmite a toda a série…se as imagens nos documentam, e à nossa evolução por entre os caminhos curvilíneos do Portugal da era moderna, a música identifica-nos na nossa essência comum, do povo que se resigna ao povo que deseja algo mais. Sendo um excelente exemplo dessa visão, este vídeo é assim uma sucessão de momentos, distanciados num tempo vasto, mas unidos nas linhas das partituras, que edificaram este álbum. Vale mesmo a pena ouvir.

Crédito do vídeo: Rodrigo Leão

Crédito da imagem: RTP

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Brasil – eleições 2018

Amanhã, o Brasil escolherá o seu destino, com meio mundo a observar, preocupado. Eu incluído. Dos quase seis meses que passei num país onde fui muito bem recebido por todos, guardo na memória um povo ausente da esperança que normalmente qualquer ato político contém. Um povo sem esperança num país que lentamente se ia afundando num pântano político.

Por um lado o PT aposto na carta de Lula da Silva até demasiado tarde, numa luta apresentada ao povo um pouco como a mãe de todas lutas pela derradeira oportunidade de um Brasil melhor. Com essa luta política, surge então um polido, mas não consensual Fernando Haddad, que ainda assim passou mais tempo a tentar manter Lula na corrida através dele, do que em lutar per se. Por outro lado, a crise no PT levantou uma onda de confiança no centro político brasileiro. Estou convencido que um hábil candidato único nesta zona política ganharia estas eleições…contudo, a confiança foi tanta que o centro político dividiu-se, com cada um dos candidatos que representa esse círculo a achar que podia capitalizar a luta quixotesca do PT. Esse foi um erro que o centro pagará caro, ao ser (parece-me) para já, o primeiro perdedor político em conjunto…de tudo isto emerge Bolsonaro, com um discurso mobilizador, aproveitando a falta de fé de um povo que ao mesmo tempo se traduzia na abertura a uma solução extremista, de rutura, ou até da tomada de controlo pelo exército, algo que o povo via como uma possível solução. Apoiado pela IURD, Bolsonaro soube adaptar o seu discurso a essa desilusão, captando a ala direita do centro e unindo-a ao velho Brasil das elites que desejam voltar ao poder, construindo uma atmosfera de esperança artificial, que poderá dar aos brasileiros o que eles pensam que querem, baseado em forças que são omnipresentes no dia-a-dia, como o racismo, ou a visão negativa do pobre como um dos fulcros de situações, por exemplo, como a insegurança. O atentado que sofreu foi muito bem capitalizado nesse sentido, quase que juntando Bolsonaro ao povo, fundindo-os no seu sofrimento. Foi, de facto, um atentado muito conveniente, em termos de posicionamento na disputa.

Com elevada probabilidade, pelo que se pode ver das sondagens, Bolsonaro passará à segunda fase com um Haddad que consegue fazer ao centro político aquilo que o centro político não lhe conseguiu fazer. Mas as perspetivas não são boas. Logo à partida porque os dois candidatos escolheram “vices” ainda mais radicais que eles, nas suas áreas…no Brasil diz-se (em jeito de brincadeira, ou talvez não) que um impeachement a qualquer um dos dois homens seria impensável, pois o seu vice seria ainda pior. Este facto prejudica irremediavelmente as negociações que já se vão fazendo para um congresso brasileiro que se prevê dividido…a visão alternativa é que as torna um pouco mais tenebrosa…Haddad tenta negociar com os partidos do centro que tentaram destruir o PT (estas coisas no Brasil não se esquecem), ao mesmo tempo que vai ter de gerir a questão do posicionamento perante a libertação de Lula…enquanto isso, do lado de Bolsonaro, Edir Macedo saberá melhor que Deus por que caminhos o candidato se vai virando, mas já é conhecida a falta de grandes reservas morais quando se tenta conquistar algo. E para além disto, Bolsonaro tem sempre uma saída que Haddad nunca ousaria ter: o caminho ditatorial, que é perfeitamente possível de acontecer.

Mas lá chegaremos à segunda volta, quando esta acontecer…se algo aprendi no Brasil é que o melhor mesmo é acompanhar o país dia a dia. O que hoje é certo, amanhã pode ser ainda mais certo…o que pode não interessar a muita gente que pode tornar o certo em algo impossível de acontecer. Ainda assim, os cenários, independentemente dos resultados não serão nada bons. Agora é necessário observar, passo a passo, o que vai acontecer amanhã, na primeira volta. Depois, voltarei a este tema.

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Pedrogão ainda mais negro

Não vi ontem, em direto, a magnífica reportagem da TVI24 sobre Pedrogão Grande, pelo que estive até agora a assistir à mesma no site. As palavras faltam-me numa situação como esta…mas a provar-se o que é dito nesta reportagem, é seguramente uma das fraudes que vai mais longe em termos do completo desrespeito por tudo o que é serviço público às populações, e da completa insensibilidade face a uma das maiores tragédias que assolou o país, desrespeitando-nos a todos. Uma das coisas que me impressionou foi a postura dos entrevistados ligados à reconstrução das (cerca) de 30 casas suspeitas de serem segunda habitação, devolutas, ou utilizadas para outro fim (por via de processo de alteração de morada fiscal), e que, por entre discursos ensaiados e comportamentos demonstrativos de culpa, revelavam um desafio altivo perante a jornalista, ainda escarnecendo das acusações que são feitas por toda a população…não estamos aqui perante uma vingança política, ou de algum outro caráter societário…estamos perante toda uma população que afirma a ilegalidade destas situações, sendo bem definidas na reportagem as ligações que existiam entre os diversos níveis da administração local. Não será difícil (mas é preocupante) pensar que, conhecendo estes meios mais pequenos, e como por vezes são enfrentadas estas situações, que podemos estar perante um cenário futuro de alguma tragédia humana, sempre de lamentar. Quanto à Câmara de Pedrogão Grande, o seu Presidente comporta-se de uma forma ausente de toda esta questão, lamentavelmente mostrando ou culpabilidade, ou uma profunda negligência (assim como a sua Vice). Não há aqui sequer mais nada a ponderar que não a intervenção imediata do Ministério Público e da Inspeção Geral das Finanças, de uma forma musculada e urgente, para o apuramento total de responsabilidades.

No meio desta espiral do mais pútrido da insensibilidade humana, pessoas que perderam a sua primeira habitação, continuam sem uma solução para a sua perda…desde a senhora que está alojada numa casa arrendada, da Segurança Social, e que vai ser despejada, sem ter a sua casa devidamente pronta para habitar, até ao senhor que vive na casa de uma pessoa que “não lhe é nada”, enquanto as obras na sua casa de toda uma vida estão paradas…muitos deles idosos, e alguns deles com problemas de saúde…não posso deixar de também sinalizar as pessoas que se recusaram a alinhar no esquema da alteração das moradas fiscais, denunciando o que se estava a passar às autoridades competentes, denúncias essas que foram ignoradas, assim como os seus casos. Comove esta mistura de integridade, e de resiliência de pessoas a quem o homem parece tirar tudo aqui que com a vida construíram, num interior profundamente esquecido, e entregue ao despotismo da retórica política.

Sessenta e seis mortos, 256 feridos, 53.000 hectares de área ardida e 261 habitações afetadas depois…não entendemos nada, não crescemos nada enquanto povo. Perante este cenário, o máximo que foi feito foi o funcionar das redes da pequena e putrefacta influência local, assentes na extraordinária onda de solidariedade que se gerou, vinda de todo o país, e da qual ainda hoje, seja na sua componente monetária ou material, se geram muitas perguntas, para muito poucas respostas.

Agora vem o tempo da justiça. Que seja célere. Dado o contexto, não pode ter outra velocidade.

Crédito da imagem: Global Imagens