Grev.

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Crédito: Notícias ao minuto

Com a greve dos motoristas de matérias perigosas a ter um epílogo, ou uma reconversão em outro tipo de greve (iremos ver para a semana), confesso que este é um assunto realmente…triste. Assistimos durante uma semana às movimentações de um triângulo verdadeiramente insano…por entre um sindicato que manifestamente (talvez por inexperiência) inverteu a forma de atuar, escalando imediatamente para a forma mais grave de greve e vendo-se na necessidade de ir recuando a sua posição com o tempo; uma associação patronal que se refugiou numa argumentação que basicamente é incompreensível em qualquer realidade que seja analisada, e que geriu os relacionamentos com os sindicatos do setor, fazendo-nos questionar do futuro dos acordos com eles já assinados; e um Governo que não apenas contribuiu até meio da semana para a gestão citada acima, como fez a sua própria gestão política através de uma desnecessária dramatização de toda a questão, por entre a limitação clara do direito à greve…por entre todos estes vértices o país assistiu a uma paupérrima mostra de maturidade social. Algo a que infelizmente vamos assistir mais vezes no futuro, na ótica da emergência de uma realidade sindical pós-centrais, com a qual ninguém parece saber lidar.

E foi isto, uma semanas de greve…

Quo vadis TV?

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Crédito da imagem: Miguel Baltazar

As coisas não vão bem na televisão em Portugal…desta feita, o anátema da desconfiança irrompeu ali para os lados da TVI…depois da confirmação da existência de provas periciais, que atestam a falsidade de alguns testemunhos relativos às reportagens sobre o caso das adoções fraudulentas pela IURD, surgiu agora no Twitter um vídeo com uma reação coletiva de vários pais face a uma reportagem da mesma estação, relativa a alegadas intimidades entre crianças de 3 e 4 anos, numa escola de Lisboa. No vídeo percebe-se de forma clara que o sentimento geral é de defesa da escola. Poderá eventualmente dar-se o benefício da dúvida, embora estejamos a falar de algumas dezenas de pais numa posição coletiva…ou estamos perante um grau de negligência que extravasa a escola, ou realmente poderá existir aqui mais uma polémica.

Existe uma razão para colocar esta fotografia, “televisionamente” inócua. É que, na minha visão, estamos perante um problema transversal, centrado na forma como as televisões inundam diariamente o quotidiano com o lado prático de estratégias centradas sensacionalismo, orientadas por um círculo vicioso entre conquista de share, para obter mais receitas de publicidade, que resultem em mais share. Pelo meio, esta dinâmica alimenta uma cultura baseada na aparência e no ilusório, cativando as pessoas numa sociedade como a portuguesa, onde os sonhos e as esperanças andam por vezes ao nível dos passeios… acresce a este facto que esta é uma estratégia que tem as redes sociais como um dos seus pilares, numa conjunção que não foi de toda feita no céu, como se constata pelo ambiente muito pouco celestial que tudo isto gera, numa base diária. Continuar a ler

CEP

Homenagear condignamente a presença do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial é um acerto de contas com a história de Portugal, e do estado português para com cerca de 55.000 soldados que pariram, mal equipados e preparados, para um dos mais violentos conflitos na história humana recente, um ponto de viragem na estratégia e procedimentos militares que fizeram dele um dos mais mortíferos. Também compreendo que na homenagem exista uma componente militar, através de um grande desfile (penso que um dos maiores em democracia). Afinal estes homens eram militares ao serviço de Portugal, e nesse papel cumpriram a sua (ingrata) missão…é normal e justificado que os seus pares na atualidade desejem esta homenagem…contudo, acho que estas datas, estes momentos, são muito esquecidas na população em geral, por entre uma geração desinteressadas das mesmas, e outra que delas vai perdendo a memória /sendo que por vezes estas duas características se confundem por entre gerações. E neste caso em particular do Corpo Expedicionário Português,já não existem uma testemunhas vivas dos acontecimentos, perdendo-se quase na totalidade o relato das vivências na primeira pessoa.

Temos um excedente de celebrações destes momentos, com um foco excessivo no protocolo, na normalidade pacífica do status quo, na cerimónia, já não falando na oportunidade que estas situações proporcionam para marcar, ou entrar na agenda política. Precisamos de mais conhecimento, espalhado pelo país, através de uma visão integrada entre a educação, a sociedade civil  e a cultura, entre a escola, os núcleos e as associações da sociedade civil que existem por todo este país (não esquecendo em certos casos os familiares das pessoas) e a rede museológica (não esquecendo a investigação universitária). O património histórico deixado pelos homens do CEP, e que muitas outras pessoas em muitos outros atos deixaram, tem de ser algo que se renova e evolui no querer saber mais sobre o que nos construiu enquanto país, e que pode ajudar na formação de pessoas com uma superior cultura cívica, e mais interventivas na cidadania. Algo que o país tanto necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Brasil – segundo turno

Chegamos então ao segundo turno das eleições no Brasil. O caminho feito até aqui, desde o primeiro turno, não trouxe nada de novo em termos de estratégias, típicas de uma segunda volta. em qualquer país. Os discursos são mais fluídos nas propostas apresentadas, tentando acomodar o eleitorado “orfão” do primeiro turno, mas igualmente procurando facilitar as negociações políticas  para um congresso que se prevê dividido, uma questão particularmente importante, dada a escolha mais radical de “vices” feita por ambos os candidatos.

Bolsonaro claramente suavizou um pouco o discurso em questões governamentais, retirando certezas da nomeação de Paulo Guedes para um super-ministério da fazenda, economia e desenvolvimento (inclusive lançando dúvidas sobre a criação do mesmo). A junção da agricultura com o ambiente foi também algo em que Bolsonaro pareceu recuar, juntamente com importantes referências de manutenção no acordo de Paris e ao não encerramento da fronteira com a venezuela (ambas importantes no cenário regional e global), tudo mostrando que de facto, a época da negociação política referenciada acima estava em curso). Ao contrário, Bolsonaro manteve a rudeza e a violência no discurso sobre segurança e corrupção, mantendo o sentimento anti-PT como driver fundamental de uma retórica que mais uma vez levantou dúvidas sobre o futuro democrático do Brasil. Continuou igualmente a campanha centralizada nas redes sociais, fazendo circular todo um manancial de fake news em circuito fechado, aumentando o surrealismo de uma campanha que levou o modelo Trump a um novo e infeliz nível ( a intervenção do Facebook e do Whatsapp, para além de tardia face aos indícios que já existiam, foi escassa. Ainda assim, podemos considerá-la um fator mediano na queda de Bolsonaro nos últimos dias.

Quanto a Haddad, já se lhe antecipava o caminho das pedras. Manter o fiel eleitorado do PT enquanto se lançam pontes para uma aliança anti-Bolsonaro nunca seria um exercício fácil no Brasil, depois da forma como o PT, nos anos de governo, tratou o centro-esquerda e o “centro”. Ainda assim, Haddad conseguiu parcialmente fazer essa ponte junto do eleitorado com a ajuda do aumento de rejeição a Bolsonaro, muito baseado na reação aquele discurso “caseiro” do candidato radical; de uma intervenção ao nível de certos núcleos evangélicos que, originalmente apoiando Bolsonaro, alteraram o seu apelo de voto, e com a intervenção de praticamente toda a classe cultural brasileira, que tem intervido em peso nos dias finais da campanha. Outro dos fatores importantes foi a intervenção direta de milhares de voluntários numa estratégia de contacto direto com as pessoas, muito em contraponto com a presença na net de Bolsonaro, promovendo uma “virada”no sentido de voto. A expressão desta tática foi muito forte em S. Paulo, tendo as sondagens ilustrado uma inversão no sentido de voto na cidade. Uma inversão que, em menor escala, se tem feito sentir ao nível nacional, principalmente na última semana, gerando uma onda forte de entusiasmo num sprint final tão interessante quanto indefinido. Ciro Gomes ainda não definiu qualquer orientação pública face ao seu sentido de voto, fazendo com que os 12% de votos expressos que atingiu no primeiro turno sejam uma parte do joker que irá pairar amanhã sobre estas eleições, ao mesmo tempo que mostra que a negociação para o Congresso pode ser bem mais complexa do que a congregação do eleitorado do centro numa frente anti-Bolsonaro, muito guiada pelo medo. A outra parte serão os cerca de 16% de indecisos, cuja provável orientação é, neste momento, bastante difícil de definir.

Veremos amanhã como será orientado o sentido de voto dos brasileiros. Depois, vem aí um dia absolutamente crítico para o futuro deste novo ciclo: o 29 de Outubro de 2018.

Polónia sem história

Uma das recordações que retenho dos anos 80 foi a forma como Lech Walesa encabeçou a resistência polaca ao governo de Wojciech Jaruzelski, a partir do porto Lenine, em Gdansk, onde era eletricista de profissão e ativista sindical e líder do sindicato Solidariedade.

Lembro-me claramente de um homem enérgico, nunca escondendo a sua face, que rapidamente se tornou num símbolo em toda a Europa Ocidental, pela sua atitude perante um cenário de repressão violenta, exercida pelo regime. Uma luta que foi crucial para a realidade geopolítica naquela zona, tendo a sua conclusão sido um fator decisivo para uma afirmação da Polónia na Europa (da qual os frutos têm sido colhidos também nos anos recentes), mas igualmente fundamental no recuo da influência russa na região. Nessa altura, a situação no Bloco de Leste fazia parte do dia a dia, fosse das discussões de café ou das conversas de liceu. Vivia-se a política internacional com uma atitude bem mais globalizada do que a vivemos hoje, em plena era da globalização, não sendo incomum encontrar pessoas nas nossas relações com pensamento e conhecimento formados sobre estas temáticas. A Guerra Fria estava bem presente, e existia uma consciência global das dinâmicas da mesma.

Hoje, enquanto revia alguns tweets, chamou-me a atenção um que referia este artigo do Wall Street Journal, afirmando que o nome de Walesa vai desaparecendo da memória coletiva polaca por ação do atual governo, que em exemplos como o citado, frequentemente desvaloriza o papel do antigo sindicalista e presidente. De facto, tem-se assistido na Polónia e em todo o Grupo de Visegrado, a um revisionismo histórico sem precedentes, tentando afirmar um nova filosofia, de pendor mais nacionalista e para consumo imediato…se a UE tem dúvidas sobre o autoritarismo e o défice democrático destes regimes, deveria olhar para esta prática que lhes é muito comum na realidade global. Aliás, tendo sido Walesa um lutador não apenas contra os regimes pró-comunistas polacos, mas igualmente um defensor da entrada da Polónia na UE e na NATO (já na fase da sua presidência), dever-se-ia talvez refletir com alguma atenção sobre a evolução ideológica deste grupo de Visegrado num contexto da afirmação da Rússia na fronteira leste europeia.

São estas as consequências de, entre outras coisas, um crescente e generalizado desinteresse pela história…todo o emergir do movimento populista e fascista na Europa nada mais é do que o reflexo de uma sociedade que vai hipotecando a sua identidade, o conhecimento do seu caminho enquanto povo por entre alguns dos momentos mais negros vividos no continente europeu, a um discurso sem passado, ancorado em futuros incertos que mudam ao sabor das conveniências geopolíticas e económicas…no presente, estes movimentos vão, paulatinamente, chegando ao poder, institucionalizando esse revisionismo, e passando-o à população na forma de uma mensagem demagógica mas muito ativa, de satisfação de necessidades rápidas de mudança, exigidas a partir de uma profunda desilusão que marca o ideal europeu desde a crise económica de 2008. No caso da Polónia, é evidente uma ligação da política à força que a religião mantém no país, procurando um bloco único de interesses que se alimenta a si mesmo.

Os resultados? talvez a história nos possa dar algumas pistas. Mas poucos são os que parecem dispostos a ouvir as lições do passado…

Crédito da imagem: FRANK PERRY/AFP/Getty Images)