Dia do cuidador informal

Celebra-se hoje o dia do cuidador informal. Volto a publicar aqui o podcast que fiz sobre este tema, deixando aqui mais uma vez a ligação para o site da Associação Nacional de Cuidadores Informais. Num período de discussão do Orçamento de Estado para 2019, esta é uma boa altura para todos, enquanto sociedade, nos lembrarmos das dificuldades por que passam estas pessoas na sua entrega ao próximo, pontualmente, e de forma escassa ajudadas de forma exígua pelo Estado, seja em apoios monetários ou apoios nos cuidados de saúde, não apenas para quem é cuidado, mas igualmente para quem cuida (apesar de, neste último caso, existirem alguns casos interessantes em termos da atividade de algumas unidades de saúde).

Falo de pessoas que, numa esmagadora maioria, abdicam da sua vida profissional (e mesmo pessoal) para se dedicarem a ascendentes ou descendentes com doenças crónicas graves ou deficiências, caindo com frequência na pobreza ou, pelo menos, em profundas dificuldades de subsistência, sem emprego, e dependendo da solidariedade para com elas, e para as pessoas ao seu cuidado. Urge que o Estado assuma as suas responsabilidades no apoio a estas pessoas, e que a sociedade civil também veja o problema de uma forma mais integrada, nas organizações locais, nas empresas, nas iniciativas privadas de solidariedade…necessitamos de caminhar para um novo paradigma de cuidados de saúde para enfrentar esta realidade cada vez mais presente, e que um dia, pode vir a ser a realidade de qualquer um de nós.

Crédito da imagem: DN (Reportagem sobre cuidadores informais)

Brasil – eleições 2018

Amanhã, o Brasil escolherá o seu destino, com meio mundo a observar, preocupado. Eu incluído. Dos quase seis meses que passei num país onde fui muito bem recebido por todos, guardo na memória um povo ausente da esperança que normalmente qualquer ato político contém. Um povo sem esperança num país que lentamente se ia afundando num pântano político.

Por um lado o PT aposto na carta de Lula da Silva até demasiado tarde, numa luta apresentada ao povo um pouco como a mãe de todas lutas pela derradeira oportunidade de um Brasil melhor. Com essa luta política, surge então um polido, mas não consensual Fernando Haddad, que ainda assim passou mais tempo a tentar manter Lula na corrida através dele, do que em lutar per se. Por outro lado, a crise no PT levantou uma onda de confiança no centro político brasileiro. Estou convencido que um hábil candidato único nesta zona política ganharia estas eleições…contudo, a confiança foi tanta que o centro político dividiu-se, com cada um dos candidatos que representa esse círculo a achar que podia capitalizar a luta quixotesca do PT. Esse foi um erro que o centro pagará caro, ao ser (parece-me) para já, o primeiro perdedor político em conjunto…de tudo isto emerge Bolsonaro, com um discurso mobilizador, aproveitando a falta de fé de um povo que ao mesmo tempo se traduzia na abertura a uma solução extremista, de rutura, ou até da tomada de controlo pelo exército, algo que o povo via como uma possível solução. Apoiado pela IURD, Bolsonaro soube adaptar o seu discurso a essa desilusão, captando a ala direita do centro e unindo-a ao velho Brasil das elites que desejam voltar ao poder, construindo uma atmosfera de esperança artificial, que poderá dar aos brasileiros o que eles pensam que querem, baseado em forças que são omnipresentes no dia-a-dia, como o racismo, ou a visão negativa do pobre como um dos fulcros de situações, por exemplo, como a insegurança. O atentado que sofreu foi muito bem capitalizado nesse sentido, quase que juntando Bolsonaro ao povo, fundindo-os no seu sofrimento. Foi, de facto, um atentado muito conveniente, em termos de posicionamento na disputa.

Com elevada probabilidade, pelo que se pode ver das sondagens, Bolsonaro passará à segunda fase com um Haddad que consegue fazer ao centro político aquilo que o centro político não lhe conseguiu fazer. Mas as perspetivas não são boas. Logo à partida porque os dois candidatos escolheram “vices” ainda mais radicais que eles, nas suas áreas…no Brasil diz-se (em jeito de brincadeira, ou talvez não) que um impeachement a qualquer um dos dois homens seria impensável, pois o seu vice seria ainda pior. Este facto prejudica irremediavelmente as negociações que já se vão fazendo para um congresso brasileiro que se prevê dividido…a visão alternativa é que as torna um pouco mais tenebrosa…Haddad tenta negociar com os partidos do centro que tentaram destruir o PT (estas coisas no Brasil não se esquecem), ao mesmo tempo que vai ter de gerir a questão do posicionamento perante a libertação de Lula…enquanto isso, do lado de Bolsonaro, Edir Macedo saberá melhor que Deus por que caminhos o candidato se vai virando, mas já é conhecida a falta de grandes reservas morais quando se tenta conquistar algo. E para além disto, Bolsonaro tem sempre uma saída que Haddad nunca ousaria ter: o caminho ditatorial, que é perfeitamente possível de acontecer.

Mas lá chegaremos à segunda volta, quando esta acontecer…se algo aprendi no Brasil é que o melhor mesmo é acompanhar o país dia a dia. O que hoje é certo, amanhã pode ser ainda mais certo…o que pode não interessar a muita gente que pode tornar o certo em algo impossível de acontecer. Ainda assim, os cenários, independentemente dos resultados não serão nada bons. Agora é necessário observar, passo a passo, o que vai acontecer amanhã, na primeira volta. Depois, voltarei a este tema.

A outra S. Paulo

A aventura sempre vem ter comigo. Tem sido assim ao longo da minha vida, em momentos muito precisos, e sou muito grato por isso. De forma mais ou menos inesperada, surge sempre um momento no tempo que, nos momentos em que pára o tempo, leva o meu pensamento e o meu sentir mais longe, cortando as amarras do dia, e libertando as velas na noite…crescer é assim. Não tem tempo nem espaço. Apenas a nossa alma e coração abertos para as lições que surgem.

Antes de ontem, fiquei a conhecer uma S. Paulo que, muitos poucos profissionais da minha área, turistas ou gestores conhecem. Uma cidade muito diferente da cidade cosmopolita onde normalmente me movo, e onde imperam a segurança e o conforto. Devido a um erro no funcionamento da app para motoristas do Uber (raro por aqui, mas acontece), a minha normal viagem de 7,5 km, tornou-se num tour de cerca de 60 km por uma S. Paulo diferente, onde fiquei com a sensação de que a nova cidade vai nascendo alicerçada no esquecimento do que de si é mais velho, do que de si é mais pobre, num contraste que em algumas zonas é bastante gritante. Percebem-se um pouco mais muitas das razões para certas situações que acontecem no Brasil, e igualmente muitas das idiossincrasias do seu povo. Povo esse que, na sua maioria, assiste às grandes melhorias de longe, por entre problemas que vão muito para lá das dificuldades sociais de um país profundamente desigual, tocando por vezes a dignidade do viver.

Vou acabar por não pagar mais por isso (segue agora o processo de reaver a despesa). Mas acho que naquelas (quase) duas horas tornei-me uma pessoa um pouco melhor. Um profissional um pouco melhor. Por tudo isso, sou grato. Sinto-me honrado por ter aprendido com todas aquelas pessoas que apenas via através de uma janela de um carro…e para além disso, reforcei a minha ideia de que, para o bem de todos, todos podemos sempre ser um pouco mais. Um pouco melhores.