Iker II

Quando estive nos Pirinéus, há cerca de 3 anos, enfrentei a minha primeira tempestade de montanha. No grupo onde estava, sabíamos que ela poderia surgir durante a etapa, e, de facto, ela apareceu, sem qualquer aviso. Imediatamente começámos a correr, com o elemento mais experiente do grupo à frente, enquanto eu só olhava para o chão, tentando não cair. Após algum tempo, conseguimos um refúgio num pequeno abrigo natural, uma pequena cavidade onde mal cabíamos todos. De lá, observei uma trovoada tão intensa e maravilhosa quanto a tempestade que a envolvia, num espetáculo que durou pelo menos uma hora. Durante esses momentos, um dos elementos mais experientes do grupo perguntou-me muito curioso porque tinha baixado a cabeça, enquanto corria. Respondi que nem via por onde ia, só queria não cair e com todo o peso da mochila atrás, ao que ele me respondeu algo que nunca mais esqueci…”não o deves fazer…a montanha que te envolve na tempestade é a montanha que te oferece o abrigo…se não a olhares nos olhos, não o encontras.”

Passada essa hora, voltámos ao caminho, rumo ao refúgio dos Florestales (na imagem). Enquanto íamos caminhando, a neblina ia-nos perseguindo. Literalmente. Olhávamos para trás e via-se claramente uma massa nebulosa caminhando veloz no nosso encalço, percorrendo o chão e envolvendo o ar, tornando a visibilidade cada vez menor por onde passava. Chegámos ao refúgio não mais de 10 minutos antes de todo aquele local ser envolvido por toda essa neblina. E na simplicidade dessa estrutura, despida de qualquer artificialidade desnecessária (assim como o nosso pequeno abrigo anterior) esperámos, pacientes, por uma melhoria das condições atmosféricas (mais cerca de uma hora), antes de voltarmos ao trilho para uma das mais belas etapas daquele dia.

E tem sido assim que tenho caminhado perante as interrogações do artigo anterior. Quem já lá esteve sabe que a montanha nunca nos abandona.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Ericeira revival

Ribeira D’Ilhas é um local especial para mim. É daqui que parte, e é aqui que termina, o trail da Ericeira, que fazia todos os anos. Era a última prova do ano (realizada em Dezembro), onde a esmagadora maioria do pelotão do TCC se encontrava para um convívio saudável em prova, conjuntamente com todos os outros participantes que acorriam ao evento. A prova era sempre realizada em Dezembro, e normalmente chegava à praia ainda de madrugada, onde me esperava um vento muito frio, de que gostava particularmente.  E, como prova, não era difícil…rolante, agradável no cruzar de uma paisagem de cores muito bem definidas pelo frio de inverno que se exprimia em dias claros e luminosos, e com uma parte final muito bonita por toda a costa da zona da Ericeira, culminando na escadaria final e na meta, instalada no surf restaurant que lá existe.

Hoje voltei lá, e senti alguma nostalgia…foi o segundo trail que fiz fora de Leiria, depois da experiência de Sintra, e foi o primeiro trail onde vivi de uma forma mais individual (nessa edição), a solidariedade e o calor humano dessas provas, ao ajudar um companheiro, com cãibras em ambas as pernas…durante o tempo que corri (cerca de 5 anos), ajudei alguns companheiros, e alguns companheiros me ajudaram, com algumas situações de ambos os casos a marcarem-me do ponto de vista humano, e que ainda hoje recordo com uma não disfarçada emoção…não sou pessoa de esconder as lágrimas…não faz sentido esconder o que faz parte de nós, e o que de nós diz tanto…

Não me arrependi nunca de deixar de correr. A harmonia que vivi com a montanha, nos Pirenéus, foi de uma amplitude tal, que o Trail Running deixou de fazer sentido na minha vida…a montanha ainda hoje reside em mim numa essência muito diferente, na paz mais ampla que essa harmonia me faz sentir…a ela desejo voltar (vamos ver se será este ano). Mas não esqueço os bons momentos que vivi no trail, especialmente quando assumi o corte com as provas leirienses, e fui em busca de pessoas, experiências e lugares diferentes, que me ensinassem algo mais fora das rotinas instaladas…todos encontrei, e com todos cresci um pouco mais enquanto homem.

E por isso hoje, juntamente com a nostalgia que era embalada por um belíssimo dia de sol, senti igualmente uma profunda gratidão.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Omnia in micro – 9

Sobre um azul que nunca vira, num verde que nunca sentira, deitou-se junto ao abrigo de montanha abandonado, naquele planalto dos Pirinéus. Ali, acima dos 2500 m de altitude, havia um silêncio que nunca conseguiu encontrar em si mesmo…emergia dos pequenos fios de água que plantavam a terra, ou dos badalos das vacas que pastavam, tomando conta de si, fazendo-o encostar a cabeça à parede do abrigo, simplesmente contemplando a montanha em frente, erguendo-se no céu.

Não ficou. Mas ficou de um dia voltar…dois anos depois, no final de um dia de trabalho, puxou a si o caderno dessa viagem, e logo lhe surgiu a frase de Muir:

“The mountains are calling and I must go”.

Cultura Geral

Sou um espetador atento do Curso de Cultura Geral, da Anabela Mota Ribeiro, e mantenho o seu blog como um dos seguidos aqui no Omnia. Numa das minhas noites semanais de catarse da rotina dos dias, decidi aceitar o desafio dos 10 itens marcantes, na esfera pessoal, da minha relação com a cultura. Com as minhas desculpas à Anabela por me intrometer nestes desafios semanais que tanto aprecio ouvir, e que me fazem renascer num aconchegante e terno sentimento interior de caminhada, perpétua no silêncio da alma…assim, sem nenhuma ordem de importância em particular:

  1.  A minha viagem aos Pirinéus. Durante cerca de duas semanas, viver cores que nunca vi tão vivas, imersas na profundidade de um silêncio como nunca vivi, em altitudes a que nunca subi. Conhecendo ainda pessoas e culturas (nomeadamente a basca) de uma forma tão vivida.
  2. Ler Norwegian Wood, de Haruki Murakami. De vivenciar num livro tantas dinâmicas interiores já sentidas, de sentir, não orgulho, mas paz, e uma profunda gratidão, de já ter vivido algo tão puro, e ao mesmo tempo tão distante.
  3. Ter participado nas manifestações estudantis dos anos 90. Deixei nessa época parte de uma vida não destinada a viver, mas nelas encontrei outra vida de muito mais sentido e ativa. Nenhum ideal tem limites, muito menos os da ilusão moderna de que lutamos por ideais.
  4. Ler A Midsummer Night’s Dream, de Shakespeare, e de achar que sim, viver pode ser uma experiência mágica…na morte interior renasce sempre uma luz imemorial, que brilha em nós independentemente do que lhe chamamos. Eu gosto de lhe chamar criança.
  5. Conhecer a história da Astronomia, e conhecer o céu noturno. Desde pequeno que não meço o mundo como a comum das pessoas, nem a alma como a dos incomuns imortais. Algures no meio caminho na magia de um universo que se espelha, e renova em mim, em todos.
  6. As caminhadas na praia…daquelas que duram kilometros e que nos levam muitas vezes a locais que apenas julgamos existir longe…por onde as pegadas se apagam da areia e apenas somos o som do mar que nos desvanece em puro pensamento…meditar é isso…é ser som de mar em areias de silêncio.
  7. Fotografar. Sentir o mundo como a visão de um Eu profundo, que se manifesta no preto e branco da essência de viver.
  8. Vivenciar Nighthawks, de Edward Hopper. Num bar unem-se mundos em pessoas que se encontram…sou cada uma delas, sou apenas quem as procura, sou apenas quem as deixou…
  9. Bach, interpretado por Yo-Yo Ma. No final do dia, do que teve de bom e de mau, de perfídia ou de humildade, do apenas vácuo de interesse, ao interesse intenso e pleno, a suite nº1 é sempre a porta que na noite em mim se abre…não consigo pensar em mais nada, quando nela me dissolvo em essência de nada.
  10. Abraçar, viver, sentir o meu Bonsai, e com ele aprender… partilhar com ele o meu mundo, e ser grato por ele caminhar comigo.