Luís encontrado

A TVI24 está a passar, em última hora, que já foi encontrado o corpo do Luís, o triatleta desaparecido há mais de um mês, e sobre o desaparecimento do qual na altura escrevi. Desde já as sentidas condolências à família e aos amigos nesta hora triste. Mas isto é igualmente um momento de todos os atletas profissionais e praticantes amadores, refletirem um pouco..por muito mágico que seja o treino a solo, e por muita experiência e capacidade que nos dê, tem sempre um risco de segurança associado. Não estou a dizer que não se deve fazer (como eu digo no meu artigo, quando praticava trail running era um fã desse tipo de treino). Vive-se por vezes uma visão de magia e algum êxtase com este tipo de atividades outdoor, mas as coisas não são assim tão simples. Deixo aqui o desafio para que contactem as autoridades, e falem sobre as condições de segurança que devem estar presentes para estes treinos. Fora isso, num treino a solo em natureza ou em zonas pouco populosas, levem sempre quantidade extra de água e alimentos, e certifiquem-se de que a bateria do telemóvel está bem carregada. Façam a planificação para que possam passar, pelo menos por alguns núcleos habitacionais.

Hoje é um dia triste. Mas é também um dia de aprendizagem.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Praia em férias II

A costa da zona centro tem estas coisas. Dias muito bonitos de sol e calor, ou uma invasão de ar marítimo, que baixa às temperaturas e afasta o sol. Mas ainda assim é uma ótima viagem a partir de Leiria, por entre uma natureza que se vai regenerando depois da tragédia do ano passado…por entre os pinheiros ainda queimados, há toda uma cor que vai nascendo do cinzento da terra e que, por entre verde, amarelo e lilás, nos deixa uma sensação de paz, na lição da terra que se regenera…depois, um café bem quente e um pequeno passeio junto ao mar, porque nestas manhãs mais fechadas existe sempre um encantamento especial, uma sensação de calma profunda, de se ter cruzado uma linha, uma dimensão…é algo que vulgarmente sinto nos meus passeios marítimos, mas que se intensifica profundamente nestes dias. Depois o regresso…certamente todo este cenário abrirá durante a hora de almoço, ou um pouco para lá dessa hora, mas com um calor que torna desconfortável a viagem, e mesmo qualquer tipo de passeio marítimo, pois sempre fui um pouco antagonista de temperaturas mais elevadas. Para já não falar na praia repleta de gente.

Muito provavelmente amanhã terei o mesmo cenário…e muito provavelmente a rotina será a mesma, tirando o facto de que tenho de comprar terra para o meu bonsai. É também um bom dia para partilhar alguns momentos de maior paz com um companheiro de folhas e raízes, sempre presente…

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Praia em férias

Quando chego pelas 8:30 da manhã, já a praia se vai enchendo. Está calor, e por aquela hora parece emergir uma consciência coletiva de que ainda irá estar mais, algo que se vê por entre chapéus e famílias que debaixo deles vão experimentando a melhor posição para se protegerem do sol que já se vai fazendo presente. Vou caminhando pelo areal da parte central da praia, bravamente carregando a minha vastíssima coleção de conteúdos balneares. Uma toalha, um protetor solar, um telemóvel e um livro. Deverei dizer neste ponto que, embora vasta, não é das maiores…fico sempre reflexivo com a quantidade de coisas que as pessoas levam para a praia. Ainda mais do que os comportamentos, a quantidade de coisas avulsas e desnecessárias capta-me o olhar…mas não é um problema meu. Mesmo que pudesse ser, tenho uma real dificuldade em tentar perceber coisas que até certo ponto são comuns. Talvez pela minha visão muito particular da vida, acredito que o essencial é simplesmente isso. O essencial. E sou feliz na sabedoria que adquiro no essencial das coisas. O resto faz-me realmente muita confusão.

Mas a esta hora, já os barcos foram ao mar, e do mar já nos mostram o produto da sua faina, com a habitual multidão à sua volta. Para ser sincero, talvez seja o momento mais genuíno do dia…tenho um particular fascínio pela arte xávega e pelas suas gentes, que me ficou de criança e jovem, das imagens impressionantes de barcos a remos a entrar no mar, apenas com a força de braços de homens no seu interior e exterior, e uma estrutura de troncos cilíndricos. Na memória consigo igualmente encontrar as imagens das inúmeras vezes que em inúmeros verões ajudei a puxar as redes, naquele que era um trabalho de equipe entre pescadores e veraneantes. Aprendi muito sobre o mar nessa fase da minha vida, aumentando o meu fascínio por ele. Hoje em dia, os barcos já possuem motor, são assistidos na entrada para o mar por tratores, que depois puxam as redes. Ainda assim, cada barco continua a ser um ponto de encontro entre pais e filhos, e um ponto de união geracional onde algo ainda se pode aprender num certo sentido de comunhão com a natureza, pela natureza, e da interação que temos com ela. E estes momentos são cada vez mais fulcrais no nosso destino.

Mas vai sendo altura de partir. Desta vez a nortada não me empurra, e um invulgar vento de sul, mais quente, vai inundando a praia. Por entre os meus passos, numa caminhada díficil por entre uma beira-mar muito cavada e uma areia fina que torna tudo um pouco mais cansativo, ela vai ficando mais vazia, mais calma, bailando no vento aquele peculiar concerto energético entre o mar e terra, onde apenas as gaivotas bailam…hoje estão mais em terra, em bandos bastante numerosos, indicando alguma tempestade pelo mar alto. Vou caminhando até esta bandeira… Lentamente ela vai ficando maior, sinalizando uma nova meta para uma nova partida, onde as pegadas e as marcas se vão esbatendo no areal, até desaparecerem no horizonte.

Também eu irei desaparecer neste pedaço de manhã. Pois chegado a este lugar, sou apenas mais um ser vivo, peregrino da criação que me ergue na imensidão da paz. Cheguei a casa. É altura de continuar.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Em busca do Luís

Tenho acompanhado com apreensão as buscas pelo Luís Grilo. Ao mesmo tempo, lembro-me dos tempos em que fazia Trail Running, e das muitas vezes que treinava só, no isolamento da Serra D’Aire, da sua natureza ou das suas povoações dispersas. Era o tipo de treino que gostava mais de fazer…apesar de ser importante o treino coletivo, com as dinâmicas de grupo em termos de ritmos, solidariedade, etc, era sozinho, na paz da natureza, usufruindo da energia do natural, do silêncio, do foco no momento.

Não vou de todo colaborar para o manancial de especulações mais ou menos justificadas sobre o que possa ter acontecido ao Luís Grilo. Poderá ter sido alvo de uma intervenção de terceiros, por via de assalto ou outra, ou pode ter sido um acidente de treino motivado por muitos fatores…se é certo que os atletas de competição ou amadores que levam o desporto mais a sério preferem percursos bem conhecidos que lhes permitem focar na performance e na sua medição, reduzindo preocupações periféricas, também é certo que quem treina individualmente detém uma possibilidade de gestão quase infinita do treino, e, em linha com a experiência, pode induzir um número elevado de variações no mesmo. Nunca tendo sido atleta de competição ou amador mais sério, mas tendo sempre gostado de planeamento e gestão, nos meus dias de treinos em serra, tinha um percurso bem definido e balizado no tempo, após a análise de uma série longa de treinos que me permitia saber exatamente em que zona estaria a certo ponto, com certa condição. Certo é que algumas vezes introduzia variações no percurso por decisão momentânea, face a condicionalismos físicos, vontade de um desafio, alterações rápidas na meteorologia, etc. E se por vezes corria bem, outras não era isento de sustos, pois algumas vezes o menor conhecimento dos percursos alternativos trazia alguma surpresas.

Do pouco que vou sabendo pela imprensa, parece-me  estranho o abandono do telemóvel. No caso dos triatletas, apenas na água ele não pode ser usado, mas num treino em estrada (seja de corrida ou de bicicleta), é um dos acessórios fundamentais, nomeadamente para um contacto rápido em caso de dificuldades. Se bem que por vezes também seja utilizado na marcação da rota, acredito que o Luís, como todos os atletas que de competição levasse consigo um relógio desportivo. Mas é um facto estranho, e preocupante, o facto de o telemóvel ter sido descartado…à partida não existe uma causa lógica para tal ter acontecido, que não o de uma queda acidental de um bolso, sem o atleta dar conta.

Apesar dos sinais, continuo com esperança, e, de coração, desejo apenas o melhor para o desfecho desta situação. Não contem comigo para criticar quem, neste momento, não se encontra apto para se defender…depois de quatro anos de Trail Running, e agora já com dois mais voltado para o Hiking, aprendi o suficiente para saber que muitas vezes as pessoas não sabem o que dizem, e dizem o que não sabem…não será um defeito das pessoas… talvez seja mais feitio de uma sociedade construída numa estrutura “googlada”. Além disso, neste tipo de andanças, bem válida continua a velha máxima popular “só quem lá anda é que sabe…”. E normalmente, aprender com possíveis falhas faz parte dessa sabedoria.

Crédito da imagem: Aline Correia

Summer’s (almost) gone

Para aqueles que abdicam da praia, por estar nublado…

Ao caminhar pelo areal, num dia em que o cinzento escuro das nuvens por vezes se recorta em pedaços de céu azul, reparem em como a cor do mar muda, de um prateado intenso, para um azul esverdeado que se apresenta tão vivido quanto mais intensa for a luz. É algo para se ir apreciando pela caminhada, por entre a luz do que nos rodeia e, por vezes as nossas sombras.

Vale a pena ver como a natureza, nos momentos que pensamos menos oportunos ou agradáveis, se revela um tão fiel espelho de nós.

PS – Deixe o telemóvel junto dos seus. Desfrute o momento.