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hopper
Crédito da imagem: Edward Hopper

Estava, antes de jantar, a ver alguma pintura que aprecio particularmente, e encontrei esta Ryder’s House, de 1933, um dos quadros pintados por Edward Hopper que ilustra a temática da casa. Achei que era a ilustração ideal do meu estado de espírito neste dia de aniversário: bom. Simples, sólido, pacífico, claro…as linhas de Hopper definem o complementar humano da paisagem natural, neste caso campestre, com a casa a surgir como uma complementaridade abrupta, mas fluída na paisagem, com as suas linhas retas definindo a sobriedade neutra do branco, que se destaca por entre o ondular verde da paisagem natural. Quase que se sente uma saudável ousadia.

Provavelmente Hopper não pensou que este quadro ilustrasse tão bem o sentir de uma pessoa, oitenta e seis anos depois. Mas, de facto, ilustra. Sinto-me em paz, numa harmonia algures entre o verde ondulante da paisagem e o branco sóbrio da casa. No horizonte vão-se erguendo as montanhas que alimentam o desejo seguro de caminhar por entre as margens do dia que flui, eterno Eu viajante, sempre com a certeza que, no meio de toda essa paz, uma sólida casa branca cada vez mais se estabelece, aonde posso voltar.

O que está acima dos limites do quadro não me interessa. O que está abaixo também não, e muito menos o que se estende para os lados. Interessa-me o quadro, e a harmonia que ele possui, até nos sonhos e desejos que desperta para onde quer que olhe no infinito do seu sentir, todos partindo da minha sólida e imensa ousadia branca.

Muito obrigado a todos, pelas palavras que recebi durante este dia. Bem hajam.

Frio e chuva

Do frio e chuva britânicos para o frio e chuva português…por entre voos internacionais e domésticos, finalmente de volta após uma semana de trabalho muito corrida. Ainda assim, e porque mesmo no meio do trabalho nunca devemos fechar os olhos aos pequenos prazeres que o mundo nos dá, terá sido das visitas ao Reino Unido onde pude usufruir de um pouco de paz natural, principalmente na minha estadia de duas noites em Wyncham Hall, na zona de Northwich. Uma casa de campo, restaurada, muito simples, enquadrada num cenário belíssimo, com um enquadramento verde que me permitiu alguns breves passeios matinais e de final do dia. Não tinha Wifi muito famoso…mas também não precisei dele enquanto lá estava…precisava sim do ar puro às portas de Manchester, e de poder diluir a velocidade dos dias num cenário de calma e paz, numa região norte de Inglaterra que aprecio particularmente desde que pela primeira vez a visitei…as pessoas tendem a ser mais simpáticas e um pouco mais abertas, ilustrando bem o princípio de que fora dos grandes centros, e particularmente em povoados pequenos, existe uma naturalidade e uma genuinidade que emana de uma vida diferente, num registo diferente, por vezes mais interior.

Para já, estou de volta ao frio e chuva portugueses. Talvez ainda volte a terras britânicas antes das férias, mas sinto a necessidade de, pelo menos durante algumas semanas, usufruir das minhas zonas de conforto. Para mim, que não assino por baixo a conotação negativa que nesta idade moderna se dá a esses pequenos espaços onde o tempo corre um pouco mais lento e sereno, elas são essenciais. Não podemos cair na tentação de confundir comodismo com conforto, realização de trabalho com realização pessoal…é preciso manter a vida naturalmente simples, e as nossas vidas devidamente separadas, pois nada pode ser dado, se nada também não for recebido, numa dinâmica interna de equilíbrio que, essa sim, é a base que cada vez mais devemos procurar na nossa existência.

PS – Não me esqueci dos podcasts, mas o tempo não tem sido muito. Dezembro trará o seu regresso.

Crédito da imagem: Wincham Hall

Um novo trabalho

Num tempo em que se preparam as comemorações dos 100 anos da Bauhaus, a introdução à “The Theory and Organization of Bauhaus”, pode ser vista como uma antevisão de um fenómeno cada vez mais presente na atualidade, consistindo o mesmo na busca do trabalho como parte integrante da felicidade do viver, parte de uma sensação de plenitude interior cada vez mais desejada pelas pessoas. A vontade de explorar o seu desejo interior, faz com que muitas delas mudem de ramo de atividade, por vezes tendo a criatividade como motor de novas ideias de vida, também se traduzindo num desejo de maior calma e paz, levando a um movimento rumo a meios populacionais mais pequenos, ou numa imersão no natural. O que certamente tem, é a oferta de uma maior liberdade de seguir um caminho próprio. Este é uma tendência ainda não totalmente entendida pelas organizações de modelo mais tradicional, que tardam a perceber o que de positivo advém de uma maior liberdade de expressão interior pelos seus colaboradores, uma proatividade criativa que, independentemente dos setores ou departamentos, torna o todo muito mais aberto a uma realidade contextual cada vez mais global, cada vez mais se acomodando a uma maior necessidade de propósito, de atuação positiva no meio. Porque o mundo, esse mundo cada vez mais global, também se vai tornando cada vez mais pequeno, mais “glocal”…escrevia assim Walter Gropius em 1923, na introdução ao já referido artigo:

The dominant spirit of our epoch is already recognizable although its form is not yet clearly defined. The old dualistic world – concept which envisaged the ego in opposition to the universe is rapidly losing ground. In its place is rising the idea of a universal unity in which all opposing forces exist in a state of absolute balance. This dawning recognition of the essential oneness of all things and their appearances endows creative effort with a fundamental inner meaning.No longer can anything exist in isolation. We perceive every form as the embodiment of an idea, every piece of work as a manifestation of our innermost selves. Only work which is the product of inner compulsion can have spiritual meaning. Mechanized work is lifeless, proper only to the lifeless machine. So long, however, as machine – economy remains an end in itself rather than a means of freeing the intellect from the burden of mechanical labor, the individual will remain enslaved and society will remain disordered. The solution depends on a change in the individual’s attitude toward his work, not on the betterment of his outward circumstances, and the acceptance of this new principle is of decisive importance for new creativ e work.

Crédito da imagem: Bauhaus-Dessau

 

Halloween

Ainda hoje referi numa rede social aqui ao lado que não sou grande adepto do Halloween. De facto não o sou, e faz-me impressão todo o marketing associado a esta época, que de forma vazia atinge os adultos. Mas gosto de ver os pequenitos com as suas fatiotas e a sua inocência (é também o que aprecio mais no carnaval). Mas o meu Ser já se sente atraído pelo que está na raiz do Halloween,  para lá da aculturação americana que sofreu, ou da matriz religiosa que lhe começou a dar alguma identidade moderna, nomeadamente a temática das bruxas. Para lá de tudo isto, nos tempos idos dos antigos povos celtas da era do paganismo, celebravam-se as colheitas com alegria e respeito pelas forças naturais, com uma emanação da essência feminina da vida. Isso aproxima-se muito da forma como vejo esta altura do ano, uma altura de celebração da vida que se renova, numa atmosfera especial de reconexão que me infunde profunda paz, como já tenho deixado transparecer em posts anteriores. O facto de nesta época se lidar muito com bolos também é especialmente cativante, diga-se em abono da verdade.

Adoro os Peanuts. Desde criança que o episódio especial de Halloween é um dos meus momentos preferidos em televisão, nunca perdendo as recorrentes repetições anuais. E assim, em homenagem a todos os pequenitos que vivem esta época de uma forma especial (e porque a minha criança interior também assim o pede), fica aqui a imagem do Linus, esperando ansiosamente pela Grande Abóbora. Que todos possamos, na época de transição conturbada em que vivemos, saber esperar pela Grande Abóbora com os pequenitos, libertando as muitas crianças interiores aprisionadas que por mim passam na rua. E ao mesmo tempo, celebrar a renovação da vida, imersos num dos cenários mais bonitos (o outono) que a natureza nos oferece.

Crédito da imagem: Peanuts

Um grilo pela janela

Nas últimas semanas tenho tido um companheiro especial na área junto da janela do meu quarto. Não o vejo, e, para ser franco, não consigo precisar bem onde ele possa estar, mas oiço-o muito bem. Trata-se de um muito amável grilo que me tem vindo fazer companhia nestas noites de verão, mais ou menos quentes, frequentemente de paz por entre os dias. E, devo dizer, tem sido uma companhia muito agradável. É um daqueles toques de natureza que escolhemos ignorar nos recantos da cidade, porque, na realidade, por vezes é mesmo muito fácil de ignorar (no meu caso, o seu som confunde-se por vezes com a confusão da rua). Mas para além desse toque natural na minha existência diária, o meu pequeno companheiro relembra-me a minha idade de criança, em que ia com o meu pai a algum terreno, nos arredores de Leiria, apanhar grilos. Era uma aventura. Ia seguindo as suas pequenas caganitas até à entrada da sua toca. E depois, com o caule muito fino de uma pequena erva, invadia o seu espaço, rodando-a e fazendo-a avançar lentamente pelo buraco, para não magoar o bicho. Passado uns minutos, ele saia de forma mais ou menos rápida, tornando o ato de o apanhar algo que se estendia entre a calma, e um treino precoce de caminhada ou corrida, com um final mais ou menos conseguido. Num dia bom, regressava a casa imensamente feliz, com um pequeno grilo meio assustado dentro de uma caixa de fósforos vazia.

Sentindo-me sempre realizado, queria saber tudo sobre eles. Mas fazia-me confusão ter de o colocar numa gaiola…uma vez, assoberbado por uma miríade de pensamentos confusos sobre o direito à liberdade do pequeno Ser, abri a porta e deixei-o fugir. Fiquei profundamente feliz da vida, o mesmo não se podendo dizer do resto da minha família, que de forma apressada tentava encontrar o pequeno bicho. E assim, conformado com o facto de ele ter de ficar numa pequena gaiola de plástico, procurava que ele comesse bem, e de vez em quando colocava uma folha de alface, digamos, “ligeiramente” maior que a própria gaiola…tinha dias que o ouvia mas não o via, mas, ao mesmo tempo, estava tranquilo de que ele se alimentava bem.

Mas, como em tudo na vida, a liberdade nunca se prende…porque a liberdade, sendo presa, destrói-nos lentamente, não se condescendendo com as vitórias pífias e amorfas da rotina dos dias. E assim, os meus grilos tinham sempre o mesmo fim…morriam, normalmente debaixo de uma folha de alface meio comida. Acho que nunca consegui ultrapassar bem esses pequenos traumas, e talvez por causa disso nunca tive grandes animais de estimação. Ainda por cima, muitos anos depois, os pequenos peixinhos dourados que por vezes trazia para casa deixavam-me profundamente triste quando morriam…sabia-me bem interagir com eles, brincar com eles…as pequenas criaturas vivas são um imenso tesouro de humanidade…agora, tenho o meu Bonsai, resistente, bonito, e que me oferece muitas horas de paz, ao tratar dele…

E também, um grilo, alegremente cantando debaixo da minha janela, deixando-me também a mim um pouco mais alegre nas minhas noites.

Crédito da imagem: Infoescola