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Omnia in micro – 10

“A energia para o dia que nasce tem sempre a sua origem no desgaste do dia anterior…” escreveu ela enquanto o chá vagueava pelo quarto em aroma de menta…”entre eles”, continuou, “existe uma noite plena de luz, um silêncio pleno da voz do teu sentir, um vazio que se expande no teu Ser, repleto do que em ti existe para ofertares a ti mesma.”

Parou para refletir um pouco, olhando a janela entreaberta na noite…

“Assim”, concluiu, “quando dormes apenas deixas de existir, por entre a fina cortina do descanso. Tornas-te tempo sem espaço, por entre o pleno do vazio que desponta no brilhar da luz, na paz da voz, no que em ti se renova para renasceres de novo no sol de um dia que amanhece”

Sorriu e lentamente fechou os olhos. No dia seguinte, motivada pela insistência de quem a procurava, a polícia entrou na casa, encontrando-a sem vida na sua cama. Na sua face serena, ia-se erguendo o sol da manhã. Partiu só, como sempre viveu: repleta de si.

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Akiko

Uma mulher perdida numa estrada noturna. Uma visão da passagem entre vidas por entre o cenário vazio de um qualquer momento de transição, onde a vida e a morte se consubstanciam em harmonia num cenário sem tempo, e onde a personagem se busca no meio da busca do que vai acontecendo ao seu redor, ao mesmo tempo que revive os seus últimos momentos na realidade da sua vida. Gostei muito deste Akiko, escrito e realizado em 2008 por Michael Sewandono. Um exercício visual muito bem conseguido e que vale a pena ver.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: LEV Pictures

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Um grilo pela janela

Nas últimas semanas tenho tido um companheiro especial na área junto da janela do meu quarto. Não o vejo, e, para ser franco, não consigo precisar bem onde ele possa estar, mas oiço-o muito bem. Trata-se de um muito amável grilo que me tem vindo fazer companhia nestas noites de verão, mais ou menos quentes, frequentemente de paz por entre os dias. E, devo dizer, tem sido uma companhia muito agradável. É um daqueles toques de natureza que escolhemos ignorar nos recantos da cidade, porque, na realidade, por vezes é mesmo muito fácil de ignorar (no meu caso, o seu som confunde-se por vezes com a confusão da rua). Mas para além desse toque natural na minha existência diária, o meu pequeno companheiro relembra-me a minha idade de criança, em que ia com o meu pai a algum terreno, nos arredores de Leiria, apanhar grilos. Era uma aventura. Ia seguindo as suas pequenas caganitas até à entrada da sua toca. E depois, com o caule muito fino de uma pequena erva, invadia o seu espaço, rodando-a e fazendo-a avançar lentamente pelo buraco, para não magoar o bicho. Passado uns minutos, ele saia de forma mais ou menos rápida, tornando o ato de o apanhar algo que se estendia entre a calma, e um treino precoce de caminhada ou corrida, com um final mais ou menos conseguido. Num dia bom, regressava a casa imensamente feliz, com um pequeno grilo meio assustado dentro de uma caixa de fósforos vazia.

Sentindo-me sempre realizado, queria saber tudo sobre eles. Mas fazia-me confusão ter de o colocar numa gaiola…uma vez, assoberbado por uma miríade de pensamentos confusos sobre o direito à liberdade do pequeno Ser, abri a porta e deixei-o fugir. Fiquei profundamente feliz da vida, o mesmo não se podendo dizer do resto da minha família, que de forma apressada tentava encontrar o pequeno bicho. E assim, conformado com o facto de ele ter de ficar numa pequena gaiola de plástico, procurava que ele comesse bem, e de vez em quando colocava uma folha de alface, digamos, “ligeiramente” maior que a própria gaiola…tinha dias que o ouvia mas não o via, mas, ao mesmo tempo, estava tranquilo de que ele se alimentava bem.

Mas, como em tudo na vida, a liberdade nunca se prende…porque a liberdade, sendo presa, destrói-nos lentamente, não se condescendendo com as vitórias pífias e amorfas da rotina dos dias. E assim, os meus grilos tinham sempre o mesmo fim…morriam, normalmente debaixo de uma folha de alface meio comida. Acho que nunca consegui ultrapassar bem esses pequenos traumas, e talvez por causa disso nunca tive grandes animais de estimação. Ainda por cima, muitos anos depois, os pequenos peixinhos dourados que por vezes trazia para casa deixavam-me profundamente triste quando morriam…sabia-me bem interagir com eles, brincar com eles…as pequenas criaturas vivas são um imenso tesouro de humanidade…agora, tenho o meu Bonsai, resistente, bonito, e que me oferece muitas horas de paz, ao tratar dele…

E também, um grilo, alegremente cantando debaixo da minha janela, deixando-me também a mim um pouco mais alegre nas minhas noites.

Crédito da imagem: Infoescola

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SIC…transit gloria mundi

Os dias de ontem e hoje foram tristes, com exemplos de uma mediocridade muito pequenina, face ao que se está a passar na Grécia e na Suécia, rondando o inacreditável…do jornalista da SIC que questionou veementemente um Secretário de Estado sobre o custo da ajuda a estes dois países, até ao costumeiro assomo de populismo, por parte de um já popular populista, que nas populistas manhãs da TV portuguesa nos brinda com algo parecido a uma campanha de imagem própria…até ao infeliz (nem lhe posso dar outro nome) que fez a piadinha no Twitter do David Fonseca, sobre os concertos de solidariedade, ou um deputado que faz jogos políticos no meio da tragédia…pelo meio, um coro de vozes que se levantou na retaguarda apenas confirma a forma escondida como nas redes sociais se desenvolvem as alcateias de serviço, orquestradas pelos “ídolos”e as suas agências de comunicação, ou apenas pela mera existência ínfima de alguns.

Temos da Europa apenas uma imagem de fluxo de dinheiro, ou de destinos mais ou menos na moda para aplacar o nosso provincianismo militante. É triste que para alguns portugueses, chorar os nossos mortos significa abandonar os outros ao fogo e ao mar. É triste que seja essa a ideia de solidariedade para a Grécia, que foi dos primeiros países a colocar-se à disposição para um apoio face nossa própria tragédia. Mas isso já não interessa…