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Travelling with Miles

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

Buddy

Andava um pouco afastado do Blues. Não sei explicar muito bem porquê, mas em mim sentia uma necessidade de me afastar um pouco deste estilo de música. Havia algo no seu sentir que me fazia sentir preso num lamento enquanto verdadeiramente algo se alegra em mim…mas hoje, no decorrer de um dia cansativo na estrada, passou na Smooth FM este Five Long Years, um dos meus preferidos, na minha versão preferida, a de Buddy Guy…O que sinto no Jazz com Miles, sinto no Blues com os acordes de Buddy, a predestinação do exaltar do sentimento humano.

E de repente…algo se transformou…tinha-me esquecido que poucos estilos como o Blues exultam, através do seu lamento, por vezes intenso, o nosso libertar interior.

Foi o Blues certo. Na hora certa. No infinito certo.

Crédito do vídeo: BMG Rights Management

Extramuralhas 2018

Hoje começa o Extramuralhas (pode consultar a programação aqui), um dos acontecimentos culturais mais relevantes que tem lugar na cidade de Leiria. Retirado do seu lugar natural (o Castelo de Leiria, presentemente em obras) e que acompanhou o festival desde os primeiros tempos até ao presente, dando-lhe toda uma atmosfera que marcou a própria projeção do evento; a edição deste ano desce até à cidade para, em minha opinião, lhe trazer algo diferente, além da já tradicional movimentação dos grupos góticos. É que apesar de nos últimos anos as assistências do até agora Entremuralhas terem evoluído de forma crescente dentro da fortificação do Castelo, o envolvimento com a cidade acabava por não ser total, em termos do verdadeiro foco do festival, a música, e uma sempre excelente seleção de bandas que marca este festival. Não sei se o “Extra”muralhas voltará a ser o “Entre”muralhas, mas acho que se poderia ter muito a ganhar com um modelo intermédio, principalmente em termos de divulgação de novos sons e novas bandas de uma forma mais ampla.

Pessoalmente, tenho de confessar que não é a minha onda, e este artigo vai sendo escrito ao som do “Paraphernalia” de Miles Davis (do álbum Miles in the Sky). Mas mesmo o que por vezes pode não estar na frequência, em termos individuais, está sempre na experiência de diversidade que nos caracteriza a todos como humanidade, e é bom que este festival se mantenha durante muitos anos em Leiria, e que a Fade In continue o seu trabalho de divulgação de caminhos diferentes na esfera cultural leiriense.

Crédito da imagem: Região de Leiria

Mais férias

E surge assim o segundo período de férias do ano. O primeiro (há sensivelmente um mês) já parece demasiado longe na memória, mas acaba por ser o tempo a principal recordação, e a forma como passou bem devagar durante toda uma semana utilizada para mergulhar fundo no meu Sentir. Nesta breve fase de desaceleração, que depois desagua na calma do tempo, dou comigo a refletir sobre esse vale profundo e absolutamente negro que separa a distopia funcional que caracteriza o conceito moderno de trabalho e a afirmação da personalidade e felicidade da pessoa humana…mas isso são contas de outros rosários, para outros textos…

Por agora, desfruto o ritmo dessa desaceleração. Sem obrigações, nem tempo, nem espaço…Miles toca, e ao fechar por um momento os olhos já vai desfilando em mim um som genialmente espontâneo, que sempre foi uma das minhas principais referências no Jazz. Desbloqueia em mim a profunda necessidade que sinto de verdadeiro alimento para a alma, que durante as semanas apenas a espaços consigo usufruir, normalmente devido a um cansaço extremo que no final do dia e na noite me leva apenas a descansar…aqui ao lado, o álbum da Taschen sobre Edward Hopper solta-me um leve fascínio no olhar…há muito que gostava de saber mais sobre um pintor cuja obra me encanta, pela melancolia tranquila que me transmite, expressa nas suas personagens e ambientes, e que reconheço em mim mesmo em várias fases da minha vida, numa paz em mim desenhada e pintada, na sua palete de cores…neste momento, exatamente as mesmas cores reveladas pela luz que entra na janela, inundando a casa…é curioso como tudo ganha uma dimensão diferente quando a mente se retira para descansar…nada fisicamente muda (apesar de ter de começar seriamente a pensar num destino a dar às prateleiras atulhadas de livros que nada mais são do que energia passada acumulada)…mas algo pesado desaparece, levado pela luz que nos relaxa num respirar calmo do som ambiente. E nesta necessidade de abrir portas e janelas sem tempo pelo espaço, espero sinceramente que o sol que faltou no mês passado não me passe outra partida, pois souberam a pouco as duas longas caminhadas na praia, e os banhos subsequentes. Não que me incomode a neblina e a chuva miudinha num cenário que sempre nos encanta e desbrava horizontes em nós, mas o corpo está mesmo a necessitar de sol, do calor e do sal marinho, enquanto a mente anseia pelo céu azul e mar esverdeado,vagueando pelo meio de nenhures. Muito existe para fazer e sentir…

As férias são, para mim, uma reconexão com as coisas simples…e nada existe mais simples do que a sensação essencial do existir pelo desfrutar dos nossos gostos, de como em nós florescem, semente após semente, despertando um qualquer novo horizonte de vida, de voo, de destino, enquanto desligam o mundo que nos rodeia.

Miles in doc

De acordo com a Deadline, um novo documentário sobre Miles Davis irá surgir no início de 2019. Realizado e produzido por Stanley Nelson, um nome ligado a documentários como “The Black Panthers: Vanguard of a Revolution”, “Freedom Riders” e “Tell Them We are Rising: The Story of Black Colleges and Universities”, o documentário sobre Miles chamar-se-à “Miles Davis: the birth of cool”, e estreará na PBS e na BBC2.

O artigo completo pode ser visto aqui.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação