Come and go…

Crédito: Paulo Heleno

Uma das coisas que sempre adorei ver em Porto Covo é a forma como os grandes navios surgem e desaparecem no horizonte. Tudo se passa num infinito conjunto de momentos, em que a forma se vai materializando ou desvanecendo, como se o tempo fosse parando na medida em que a imagem se encaixa na mente e mergulha na alma. É um excelente foco meditativo, para quem gosta de meditação, deixar estes grandes barcos fluir de uma forma calma. É também origem de pensamentos díspares…de como tantas vezes devemos deixar certas pessoas, ações, momentos lentamente desaparecer da nossa vida no momento, e ao ritmo certos. E de como muitas pessoas, ações, momentos, vão surgindo na nossa vida, afigurando-se lentamente como preponderantes na mesma, também no ritmo certo.

Expectativas não nos levam a nenhum lado, e por isso já as abandonei há muito. Muito menos expectativas a concretizar no curto prazo, como que numa deriva conquistadora de vida, moda do momento, que nos vai transformando por vezes no ocaso de nós mesmos. Saber esperar, amar, deixar fluir, nada mais é do que o nosso estado fundamental de humanidade nestes tempos modernos e, principalmente, nos que se avizinham.

Osgas

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Crédito: Spyjournal/Flickr

Nunca percebi o porquê de tanto medo das osgas, pelo menos da denominada osga-comum. Talvez por alguma visão popular baseada em algum tipo de confusão com outras espécies, as desgraçadas das osgas são sempre vítimas de um conjunto de epítetos muito pouco condizentes com a sua realidade. De serem venenosas, até provocarem lesões de pele, passando pela sua falta de beleza, existe todo um conjunto de ideias preconcebidas, um preconceito que sem dúvida se alimenta da repetição sistemática das mesmas sempre com um toque negativo.

Para ser franco, não conheço animal mais tranquilo. Aprendi a apreciar esse comportamento quando ia passar alguns dias de férias na serra algarvia, onde existiam muitas, encontradas nas situações mais díspares. Com mais ou menos movimento, elas  permaneciam na sua abstração, imperturbáveis, apenas fugindo mais vigorosamente quando na presença de atitudes mais enérgicas, e não interagindo de forma agressiva.  Por outro lado, as osgas são excelentes reguladores do ambiente onde se existem, contribuindo para a regulação de espécies, nomeadamente melgas, mosquitos, aranhas, escaravelhos, formigas (entre outras), contribuindo para um funcionamento mais normal do ecossistema. E quanto à beleza…bom…quase que me apetecia dizer que há pessoas que realmente não se podem queixar…

E posto isto, quase que me apetece dizer que se por acaso virem osgas estas férias, deixem o bicho em paz. Com toda a certeza não vos fez mal nenhum, e não gostarmos do seu aspeto não é razão para as perseguir. Abrindo a nossa mente, com toda a certeza podemos aprender algo com elas. Eu aprendi.

No toque do sino

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Crédito referido na imagem

Os dias aqui em Ílhavo começam e acabam ao toque do sino. Não o da imagem, que é nada mais nada menos que o maior sino do mundo, feito na Polónia e colocado numa basílica brasileira, mas o da  igreja local, que não fica longe do hotel onde me encontro. O que é curioso é que o som nunca me incomodou, seja de manhã, seja ao final do dia…existe nele um sentir tranquilo, que praticamente se harmoniza com o silêncio matinal ou com o burburinho vespertino de uma pequena cidade que anoitece. A mente, essa, adora, e num enorme sorriso abre os seus braços a este som que se prolonga num tempo curto, tão curto quanto a distância que leva a tocar a alma. Numa linguagem menos poética, poderíamos dizer que o som do sino possui características que interagem com os nossos padrões de vigília ou de descanso…talvez…o certo é que é uma excelente companhia, que acompanha o meu sentir ao longo dos dias.

Simples

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Crédito: Paulo Heleno

Hoje foi o meu primeiro passeio à beira-mar, em férias. Com corpo e mente a adaptarem-se a uma vibração mais calma, fui, como sempre, lentamente caminhando rumo ao meu destino de sempre, aqueles locais onde as pegadas desaparecem e o silêncio reina…dei por mim a questionar-me sobre a simplicidade do viver, e como nessa simplicidade conseguiria expressar não apenas o caminho que vou vivendo, mas igualmente o que ele me vai traz, passo a passo, acima dos dias…

Paz…Amor…Amar…Ser…Ir…Nós…Tudo…Nada…Flor…Voo…Mar…Céu…Sol…Azul…Dar…

A vida é realmente simples quando cada passo se manifesta apenas em três ou quatro letras…

A luz do voltar

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Crédito da imagem: Paulo Heleno

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.