25 anos de Rodrigo Leão

Em noite de eleições intercalares americanas, e já com alguma dificuldade em conter um ou outro bocejo, lembrei-me que este é o ano do 25º aniversário da carreira a solo de Rodrigo Leão. É um dos músicos portugueses que sigo mais de perto, e que na minha opinião, possui a identidade musical mais vincada, uma identidade com a qual me identifico profundamente. Encontro nas suas sonoridades uma paz imensa que se estende desde a melancolia (com a qual tenho uma relação muito particular, não a sentindo de uma forma particularmente negativa), até à serenidade imensa.

Assim, num intervalo por vezes infinito que se explana desde a leveza de um sentir mais reservado, até à imersão num leve sorriso de contemplação interior, sinto na música de Rodrigo Leão a vibração do estar, do agora, do momento, naturalmente submergindo o Ser. No momento desta pequena homenagem, deixo aqui As Cidades, uma música que Rodrigo Leão compôs para a banda sonora de Portugal, Um Retrato Social, uma série da RTP idealizada por António Barreto. É talvez um dos seus menos conhecidos trabalhos (não teve uma publicidade tão intensa quanto a restante obra), mas para mim é um dos mais geniais, pela atmosfera que transmite a toda a série…se as imagens nos documentam, e à nossa evolução por entre os caminhos curvilíneos do Portugal da era moderna, a música identifica-nos na nossa essência comum, do povo que se resigna ao povo que deseja algo mais. Sendo um excelente exemplo dessa visão, este vídeo é assim uma sucessão de momentos, distanciados num tempo vasto, mas unidos nas linhas das partituras, que edificaram este álbum. Vale mesmo a pena ouvir.

Crédito do vídeo: Rodrigo Leão

Crédito da imagem: RTP

Mais férias

E surge assim o segundo período de férias do ano. O primeiro (há sensivelmente um mês) já parece demasiado longe na memória, mas acaba por ser o tempo a principal recordação, e a forma como passou bem devagar durante toda uma semana utilizada para mergulhar fundo no meu Sentir. Nesta breve fase de desaceleração, que depois desagua na calma do tempo, dou comigo a refletir sobre esse vale profundo e absolutamente negro que separa a distopia funcional que caracteriza o conceito moderno de trabalho e a afirmação da personalidade e felicidade da pessoa humana…mas isso são contas de outros rosários, para outros textos…

Por agora, desfruto o ritmo dessa desaceleração. Sem obrigações, nem tempo, nem espaço…Miles toca, e ao fechar por um momento os olhos já vai desfilando em mim um som genialmente espontâneo, que sempre foi uma das minhas principais referências no Jazz. Desbloqueia em mim a profunda necessidade que sinto de verdadeiro alimento para a alma, que durante as semanas apenas a espaços consigo usufruir, normalmente devido a um cansaço extremo que no final do dia e na noite me leva apenas a descansar…aqui ao lado, o álbum da Taschen sobre Edward Hopper solta-me um leve fascínio no olhar…há muito que gostava de saber mais sobre um pintor cuja obra me encanta, pela melancolia tranquila que me transmite, expressa nas suas personagens e ambientes, e que reconheço em mim mesmo em várias fases da minha vida, numa paz em mim desenhada e pintada, na sua palete de cores…neste momento, exatamente as mesmas cores reveladas pela luz que entra na janela, inundando a casa…é curioso como tudo ganha uma dimensão diferente quando a mente se retira para descansar…nada fisicamente muda (apesar de ter de começar seriamente a pensar num destino a dar às prateleiras atulhadas de livros que nada mais são do que energia passada acumulada)…mas algo pesado desaparece, levado pela luz que nos relaxa num respirar calmo do som ambiente. E nesta necessidade de abrir portas e janelas sem tempo pelo espaço, espero sinceramente que o sol que faltou no mês passado não me passe outra partida, pois souberam a pouco as duas longas caminhadas na praia, e os banhos subsequentes. Não que me incomode a neblina e a chuva miudinha num cenário que sempre nos encanta e desbrava horizontes em nós, mas o corpo está mesmo a necessitar de sol, do calor e do sal marinho, enquanto a mente anseia pelo céu azul e mar esverdeado,vagueando pelo meio de nenhures. Muito existe para fazer e sentir…

As férias são, para mim, uma reconexão com as coisas simples…e nada existe mais simples do que a sensação essencial do existir pelo desfrutar dos nossos gostos, de como em nós florescem, semente após semente, despertando um qualquer novo horizonte de vida, de voo, de destino, enquanto desligam o mundo que nos rodeia.