Geo em cache

Quando comecei a fazer Geocaching em Leiria (e foi por um mero acaso), o cenário era diferente do atual. Existiam caches feitas com muita imaginação (algumas quase rondavam o estatuto de peças de artesanato manual), muito bem escondidas e com manutenção bastante regular. Para as pessoas que procuravam, já isso era um excelente desafio, em que se sentia um verdadeiro sentimento de partilha… algumas das caches por vezes continham textos muito bonitos, inundados pela experiência pessoal de quem os tinha vivido, ou objetos que se integravam nas temáticas de cada uma. Se nos sentíamos mais atraídos pela temática de uma cache, havia uma certa admiração pelo sentido que alguns desses objetos davam à mesma. Por outro lado, a partilha também existia de uma forma muito espontânea, quando as pessoas se encontravam junto de uma cache, e partilhavam as suas experiências…ainda guardo algumas pessoas no meu círculo, fruto dessa interação.

No tempo que estive sem praticar o jogo (muitos anos), algumas coisas parecem ter mudado…muitas caches têm uma manutenção muito mais espaçada, fazendo com que o seu estado se vá deteriorando (algumas são apenas abandonadas pelos donos, que não se preocupam em encontrar quem as adote). Por outro lado, existe cada vez menos preocupação com a qualidade das caches, abundando os containers micro, pouco cuidados na sua concepção e com logs de registo de má qualidade. Já não se encontram pessoas de forma espontânea junto às caches com tanta frequência, e o contacto centra-se muito mais em eventos…é uma pena. Algum do brilho inerente ao jogo parece que desapareceu um pouco, ainda que por vezes mantido em algumas caches pontuais, ainda que mantendo-se como uma excelente oportunidade de conhecer locais novos, assim como as suas características ou história, num pequeno passeio ou mesmo numa viagem.

Talvez esta situação seja apenas uma questão leiriense. Mas é pena. Por mim, continuo a gostar do jogo, e a senti-lo da mesma forma que nos primeiros tempos, uma forma de partilha.

Fim de semana prolongado…

Confesso que nunca tive a sensação de um fim de semana prolongado tão curto como o que passou. Muito por causa de uma sexta-feira e de uma viagem ao Alentejo que teve tanto de prazer como de sofrer. Por entre a longuíssima viagem pela A23 e pelo IP2, sem grandes estruturas de apoio (tirando a estação de serviço de Abrantes onde tive obrigatoriamente de repousar no regresso), e o facto de tudo o que pretendia visitar estar fechado, ficou a recordação dos caminhos de negro por entre o dourado dos campos onde os vinhedos ocasionais sobressaem, anunciando novo vinho num Outono já anunciado. Seja no litoral, seja pelo seu interior, andar pelo Alentejo é um festival interior de libertação, usufruindo de um espaço, de uma amplitude de olhar que se estende e liberta-nos em cada centímetro de terreno que se vislumbra no horizonte. Terra de luz, de uma tela de paz, terra da parte do meu equilíbrio que busca a sua contra parte no Norte, nas terras do Demo que o Torga cruzou, e nas montanhas que nos inundam. Ainda assim, o calor e a fraqueza fizeram-me cair um pouco…senti que um dia tão bonito foi um dia algo perdido por entre dores de cabeça, naprosyn, e um esforço enorme e desgastante de condução…ao mesmo tempo, tive igualmente pena de, em virtude de ser feriado, não ter podido voltar à Adega Mayor ou ao Museu do Café (agora Centro de Ciência do Café)…tenho refletido muito no meu caminho profissional, e na sua evolução, e é sempre um prazer fazê-lo naquela extensão de terreno enorme e mágica que, para mim, significa Gestão em Portugal, e que tenho como referência de ética, no meu crescimento profissional. A Delta é sempre uma visita obrigatória quando vou a Campo Maior…por outro lado, Vila Viçosa e o seu Paço Ducal fizeram jus ao país de turismo “afirmativo” em que Portugal se vai tornando, permanecendo fechado no feriado, deixando todo um conjunto de carros à porta…

Na próxima há mais. Há sempre mais quando algo de novo define a nossa busca. Foi o que senti quando, já em Leiria, rapidamente recuperei para um profundo relaxamento. No dia a dia pensamos por vezes que rapidamente as coisas podem desaparecer, de um momento para o outro, a uma velocidade que envergonha os incautos segundos no relógio…mas fora esse período algo estranho de existência, nada pode desaparecer se ainda não cumpriu a sua missão em nós…e ainda existem muitos caminhos a trilhar. Preferencialmente com muitas estações de serviço, um microcosmos que aprecio particularmente na observação das pessoas. Mas… isso fica para outro post.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Porto Covo intimista

O post número 100 do blog não poderia ser melhor, produto de uma viagem idealizada antes de ontem, e realizada no dia de ontem. Existe um feeling especial nas ideias que simplesmente surgem e se executam “na hora”…sejam horizontes que se revelam, ou desafios que ousamos ultrapassar, a alma suspira de alívio, voltando a respirar pela mera quebra das rotinas do dia. Decidi rumar a sul, passando pela Comporta (que não conhecia) e continuar até um lugar onde fui muito feliz, na energia das férias de adolescência, fosse qual fosse a forma como se expressava, da diversão imensa, até ao descobrir da essência do meu Ser.

Independentemente do ângulo em que aborde esse tempo, foi um período intenso, do qual guardo muito em mim, estruturado na forma como me tornei homem. Por isso chegar a Porto Covo foi bom. Foi mesmo muito bom. Tinha algum receio que o urbanismo desenfreado de que ouvia alguns falar tivesse consequências bem mais nefastas do que o que vi. O núcleo central da povoação está na mesma, não tendo visto construção em altura no seu interior, ou na sua vizinhança  imediata, num conjunto que me pareceu harmonioso, à luz de um dia muito bonito e de mar imensamente azul,  convidando a ser desfrutado. E por isso fui para a Praia Grande aproveitar bem o sol matinal que aqui a zona centro ainda não vai permitindo (as manhãs marítimas são sempre muito enevoadas). Não sendo saudosista, confesso que no tempo que ali passei e caminhei, desde o porto de pesca ao parque de campismo mais antigo na entrada da povoação (existe um mais recente na Praia Grande), passando pelo sentir do sol na praia, as memórias surgiram naturalmente, em alguns casos fazendo-me sorrir e, em todos, fazendo-me pensar, encaixando-se na reflexão mais vasta que vou fazendo sobre a minha caminhada…o passado de um tempo mais simples não apenas não desaparece, como faz o presente representar-se perante nós numa perspetiva mais vasta…essa simplicidade é também parte de uma forma mais liberta de ver a vida que não se deve perder na nossa caminhada, mas reforçar-se com a aprendizagem obtida, mantendo a felicidade como objetivo principal da mesma, para lá do deambular num percurso circular de rotinas…

Fui para Vila Nova de Milfontes um pouco mais vivo, um pouco mais eu e um pouco mais em paz, deixando-me boiar num mar sem ondas, sobre o mesmo sol que me recebeu em Porto Covo, deixando o tempo simplesmente passar. À minha espera ainda tinha a viagem de regresso a Leiria, também para ser desfrutada como todas as viagens, em todos os tempos. Mas agora o presente estava ali, no meio de águas calmas e do silêncio que envolvia todo aquele cenário…tempo abandonado em seu tempo, abrindo as portas da perceção ao que na busca de mim encontrei durante o dia retirei durante o dia.

Tudo tem o seu tempo…não se adianta nem atrasa a paz…apenas se encontra, vive-se e, caso assim seja a nossa escolha, integramos em nós.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Os barbeiros

De tempos a tempos, tenho o grato prazer de visitar o meu barbeiro, o sr. João. Nesse dia, sentar-me na barbearia à espera é para mim um repouso, uma forma de parar, na vida e no tempo. É um local de histórias, passadas e presentes…algumas surpreendentemente futuras, assentes na experiência de vida de quem as conta, normalmente envolta numa sabedoria invulgar por estes dias. Não o estranho, pois ali ainda se vive a época do saber sem lugar. E enquanto por vezes no meio dessas histórias irrompe o futebol ou a política, em discussões por vezes quentes, eu, que não sou um saudosista, encanto-me no respirar silencioso de tempos mais simples, consubstanciados na atmosfera, nos objetos da arte, ou no pequeno relógio que marca o cenário num saudoso tic-tac e onde o sr. João se harmoniza por completo. Tenho dele a imagem que tenho de todos os barbeiros, pois em todos eles a senti…de alguém que ouve e fala com a paciência dos tempos sem tempo, estando sempre lá, sabendo que será encontrado por quem vai ao seu encontro…no seu estar, e no partilhar do mesmo com os seus clientes mais habituais, o tempo vai-se tornando mais certo, em sintonia plena com o relógio, tornando deliciosamente normais as conversas…e isso faz-me sentir vivo, por entre um corte de cabelo ou um aparar de bigode…saio sempre de lá a compreender melhor o outro…algures em Leiria, numa qualquer barbearia antiga, há uma liberdade que em mais lado nenhum existe, e que se degrada na justificação do tempo…

Os barbeiros ainda vão sendo uns dos guardiões da nossa paz. Que assim continuem.

Crédito da imagem: João Pires