Robles

Confesso que não tenho acompanhado com atenção este caso de Ricardo Robles. No meio de uma semana de muito trabalho, apenas fui lendo superficialmente alguns tweets e conteúdos que eles referenciavam. Mas do que li, alguns pontos genéricos breves (mas a meu ver importantes) existem a salientar:

  1. Não percebo a relação da aparência física de Ricardo Robles com esta questão… Dizia-me uma das integrantes da minha lista de followers do Twitter que tem a ver com um certo paradigma dogmático sobre o que deve ser uma pessoa de esquerda e uma pessoa de direita, em termos de comportamentos e atitude…por muito que pareça anedótico, é um facto que popularmente este preconceito ainda existe, e tem raízes na história. Para ser franco, um pensamento breve fez-me sentir pena das pessoas que se assumem como integrantes de um centro político…mas, fora este dilema, estamos de facto perante mais um exemplo da leviandade com que muitas vezes estas questões são tratadas socialmente, sendo mais importante a afirmação do ego do que a expressão de uma ideia.
  2. O nível da discussão esquerda – direita neste caso continua o habitual: um nível subterrâneo, onde a política se dilui no insulto fácil e jocoso, no humor trauliteiro, ou na guerra pseudo-intelectual entre lados, suportado na imprensa. No meio de tudo isto, o esclarecimento que se retira deste pântano, originado nas cinzas de uma cidadania morta e enterrada na sua nascença, é praticamente nulo. De tudo isto, apenas resulta o spinning informativo, do qual emerge uma relatividade tão pronunciada, que transforma qualquer tipo de argumento em munição para usar neste ambiente nocivo à formação de qualquer opinião.
  3. Em termos da dimensão política deste caso, existem de facto danos para o Bloco de Esquerda e para Ricardo Robles, que são apanhados numa espécie de curva apertada em relação ao discurso do Bloco sobre estas situações, com consequências não apenas na forma como esse discurso passa para a opinião pública e para o eleitorado do partido, mas igualmente na dinâmica das facções internas, e a forma como as mais radicais possam a estar a ver esta situação. Como costumo dizer, esta coisa da mulher de César é sempre uma imensa chatice…

Crédito da imagem: LUSA

Bourdain

Como todo o mundo, fui apanhado de surpresa pelo falecimento de Bourdain. Soube através de um tweet da CNN, e imediatamente me invadiu um sentimento de vazio, nunca preenchido pelo constante fluxo de informação que se seguiu. Sendo fã dos seus livros, da sua personalidade, duas coisas me encantavam especialmente. Em primeiro lugar, a postura de enfant terrible num mundo tão artificial quanto o da alta cozinha, onde impera a ditadura da imagem e o vazio da essência. Bourdain dava a esse mundo um colorido tão característico da sua personalidade sempre desperta, tão inquietante como inquieta, tão irreverente como criativa, um predicado apenas reservado aos génios, uma genialidade apenas reservada aos espíritos livres, que sentem e refletem o mundo que observa, os caminhos que passam, os céus que os acompanham.

Mas a principal qualidade que apreciava em Bourdain era a sua visão global do mundo, baseada nos seus aromas, nos seus sabores, e na forma como os explanava nas suas viagens. Bourdain era o protótipo do viajante de que tanto falo, viajando pelo mundo tão livre quanto o horizonte do seu sentir. Apesar da sua fama, com todos falava, com todos comia, sempre com a sua natural curiosidade, fosse no fino restaurante ou na roulotte de rua. E depois de tudo, de respirar e de usufruir de cada viagem e de cada ambiente, era imensa a forma como, qualquer viajante, sabia voltar…as suas entrevistas, as suas aparições públicas, eram acontecimentos para serem ouvidos e sentidos. Bourdain contava as suas experiências, o que sentia com elas e as lições que delas tirava, de uma forma tão profunda quanto simples. Sabia voltar, transmitindo algo, dando a conhecer um pouco mais do mundo que na visão dele era unido na extraordinária diversidade dos seus sabores, das suas cores, das suas sensações. Deixava-nos a todos um pouco mais ricos, na partilha da sua experiência, para depois voltar a partir.

Enquanto toda a informação do seu falecimento ia desfilando, dei por mim a pensar que Bourdain iria adorar conhecer o restaurante nordestino que me indicaram perto do local onde me encontrava, em S. Paulo, e que à boa cozinha tradicional adicionava a cultura nordestina e a simpatia dos seus empregados . E com toda a certeza, a simpatia dos convites que tive para experimentar pratos típicos de cozinha brasileira em casa de colegas, não lhe passaria despercebida. Embora apenas tenha tido contacto com o seu trabalho nos últimos anos, não consigo deixar partir um sentimento de perda por alguém que tinha essa forma tão simples e global de sentir o mundo, com a qual me identifico…simplesmente desfrutar, caminhar, conhecer, seja na chuva de Londres, nos pequenos povoados dos Pirinéus, ou no sol de S. Paulo, e que me despertava uma certa figura de mentor. Se alguma lição Bourdain nos deixa é a de que, num mundo que vai ficando cada vez mais tenso nas suas dinâmicas geopolíticas, não devemos esquecer o que nos une enquanto humanidade, uma simplicidade construída por milhares de anos, revelada numa diversidade que a todos nos define. Esse é o nosso caminho. O único caminho. Trilhar esse percurso pode ser algo tão simples quanto apreciar o que nos rodeia de uma forma diferente, como nosso, independentemente da parte do mundo onde estejamos.

Descansa em paz, Anthony Bourdain. Obrigado pelo mundo que nos revelaste com as tuas viagens.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.