You

 

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Crédito da imagem: Netflix

Das séries que até agora vi no Netflix, You foi uma das que mais interesse me despertou. Faz-nos refletir sobre questões relacionadas com as redes sociais, e a sua ligação à nossa vida, trazendo a questão para uma realidade mais próxima de nós…já não falamos da recolha de dados por parte do Facebook ou do Google sobre ações sociais ou individuais do nosso dia, algo sempre presente por via da informação mainstream, e que muitas vezes induz uma sensação de distanciamento face ao que tal significa na nossa vida real. A série vai mais longe, enquadrando a utilização individual e intensiva das redes numa perspetiva aberta, sem grandes salvaguardas pessoais sobre a informação lá partilhada, mostrando-nos como não apenas essa informação pode ser de fácil obtenção, mas como ela é na realidade um mapa para toda a nossa vida. Já não existe o abrir e fechar da nossa existência ao sabor do que queremos mostrar de nós mesmos, como que numa normal porta, e muito menos o controlo de quando abrir e fechar essa entrada. As redes sociais cada vez mais são como uma porta giratória, aberta a todos, não controlada por nós, por onde transita o que mostramos e o que obtemos, a partir dessa exposição, seja isso algo positivo ou negativo.

Numa perspetiva mais individualizada, a série identifica igualmente o triângulo onde assenta a dependência das redes sociais, visível não apenas na ideia conceptual da história, mas igualmente nos pormenores do próprio script. Num dos vértices desse triângulo, a identificação do que somos, de como caminhámos e como chegámos a este ponto na nossa vida, definindo o que nos leva a adotar um posicionamento mais aberto ou mais fechado nas redes. Este é um vértice importante na definição dos outros dois, sendo estes a nossa forma de socializar, mais ou menos dependente da necessidade do permanentemente ligado nos vários tipos de relacionamentos; e a vertente profissional, definido na dimensão que a nossa atividade exige em termos de presença e intervenção nas redes, muitas vezes entre cruzando a dimensão pessoal. No caso de Guinevere Beck, a personagem principal, este triângulo encontra-se não apenas presente, mas igualmente muito denso na sua vida, com todos os vértices a assumirem uma interligação e uma dimensão que por vezes os torna indistinguíveis tornando-a numa vítima da própria liberdade e realização que busca, levando a uma história de stalking muito bem construída e, em alguns pontos, assustadora, nomeadamente porque estamos perante um verdadeiro stalker na visão moderna do mesmo, longe da visão tenebrosa que eventualmente poderíamos ter deste tipo de personagem…na verdade, estamos perante alguém com quem facilmente poderíamos criar empatia, e num relacionamento de qualquer tipo partilhar algo mais sobre nós.

Aconselho vivamente a ver esta série, criada a partir do livro de Caroline Kepnes. As interpretações são excelentes, a história está muito bem construída, não apenas como narrativa mas igualmente pelo ambiente urbano em que toda a ação se desenrola, e surpreendendo-nos sempre a cada passo dado, não apenas de Beck, cuja fragilidade emocional e algum alheamento social não passam despercebidos, mas igualmente (e talvez principalmente) do seu stalker. Spoiler alert: You pode parecer uma série mainstream normal, mas, felizmente, está muito longe de o ser. O final da temporada talvez não seja o esperado, mas deixa-nos impressões muito fortes sobre ambas as personagens, e sobre todo o enquadramento da história.

E para os fãs: a segunda série irá estrear provavelmente ainda em 2019.

Linked

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Crédito da imagem: Search Engine Journal

Há já algum tempo que decidi preparar alguns artigos para a LinkedIn. É um passo algo ousado, uma vez que é um tipo de escrita que sai fora do meu registo normal, mas também porque a LinkedIn tem uma atmosfera sempre algo formatada…se a segunda situação é fácil de resolver (não tenciono seguir qualquer tipo de formatação), o primeiro é um pouco mais complexo, reforçando-se com a pergunta imediata que me surgiu na mente…devo também falar de atividades pessoais?

As motivações de cada um para participar numa comunidade como a LinkedIn podem ser muitas… no meu caso, valorizo a partilha de conhecimento, e os relacionamentos que daí se criam. Mas outros, de outras pessoas, podem passar por exemplo pela atividade comercial, contactos de mais alto nível, exposição de trabalhos, entre outros. Apesar disso, existe sempre uma abertura à partilha de atividades mais pessoais, quanto mais não seja pelo simples facto de, por muito que se goste do que fazemos,  a nossa mente ser recetiva à quebra da rotina, o que ajuda muitas vezes a estabelecer ou a fortalecer as relações em rede. Pode ou não originar relacionamentos de natureza profissional, mas certamente facilita os contactos com uma atmosfera positiva de sermos surpreendidos por pessoas como nós que fazem as mesmas coisas que nós, levando assim a uma certa quebra da rotina dos dias, muitas vezes um pouco submergida numa certa “esterilização” que existe sobre as dinâmicas internas das organizações, muito motivada pela emergência de uma cultura da imagem. Por vezes, é aquele algo que se torna o facto interessante do dia, o pequeno gatilho que nos fez pensar um pouco em nós no meio de todo um ruído muito motivado por necessidades de imagem corporativa. E isto tem influência na produtividade de cada um, deixando-nos até um pouco melhor connosco.

Parto então com o pensamento de que o que somos também tem lugar no que queremos ser. Para além da vivência profissional, que norteia a maioria da informação que existe na LinkedIn, é importante despertar no outro o que ele é. E isto é feito cada vez mais contrariando a velha máxima de uma interdição quase natural de partilha das nossas atividades mais pessoais, não apenas como facilitador de contactos mas, acima de tudo, como catalisador de relações, deixando fluir a naturalidade da comunicação, sem a encerrar em compartimentos estanques. Por isso, lá estarão os meus artigos sobre liderança, processos (gestão e manutenção), cultura e transformação organizacional, economia circular, inovação, mindfulness…mas também, muito provavelmente, de caminhada, de Hiking, de fotografia, de escrita, entre outras coisas. As duas vertentes me definem e, por isso, nas duas vertentes lá estarei.

 

Google Assistant

Com a noite a não convidar a uma saída, decidi experimentar o Google Assistant. O facto de ainda não suportar o idioma português fez-me ir atrasando este primeiro teste. Contudo, em virtude da minha elevada frequência de viagens, decidi começar a experimentar de forma básica este produto da Google. Por enquanto, para se aceder a estas funcionalidades, recomendo colocar o telemóvel com o idioma de English US, pois em sistemas deste tipo é sempre o idioma mais otimizado para a normal utilização. Nesta fase, não existe de momento uma data definida para a disponibilização do português como idioma core.

A primeira impressão foi muito positiva. A ativação do Assistant ocorre aquando da mudança do idioma (contando que já possua um sistema Android recente e, claro, uma conta Google). A parametrização inicial não é complicada, se seguirmos os menus, embora pudesse ser um pouco mais lógica em termos do caminho a percorrer na mesma, sendo necessária alguma atenção. Definem-se aqui os tipos de alertas que desejamos receber, sobre que temas, o tipo de voz com que queremos interagir (masculina, feminina, mais ou menos suave…), a definição do comando de entrada “Ok Google”, apenas para definir as mais importantes. Após isso, e utilizando esse mesmo comando de entrada, acede-se a um conjunto vasto de informação e utilização multi serviços da Google. Com muita facilidade, e utilizando numa linguagem muito próxima da casual, pude ver restaurantes em várias cidades do mundo, conhecer as condições meteorológicas em vários locais (com previsões para os dias futuros), saber um pouco mais sobre potenciais destinos e pesquisar voos a qualquer data e hora (com a possibilidade de envio automático dos resultados por email). Isto, para além das habituais tarefas diárias de leitura de emails, organização de calendário, chamadas, ouvir alguma música no Spotify, etc. Em todo este ensaio, notei alguma pequena instabilidade com a ligação às apps nativas da Samsung, nomeadamente na forma como elas são chamadas. Se por exemplo nos contactos utilizei o comando Open Contacts, já na app de email, por exemplo, necessitei de compor um pouco mais o comando, utilizando Open Samsung email app, algo que naturalmente desapareceu com a utilização de apps nativas da Google, onde o Assistant sempre se deverá sentir mais acomodado. Senti ainda alguma instabilidade aleatória no mecanismo de continuous speak, que permite manter o microfone aberto algum tempo depois de uma resposta. Algumas vezes notei que não funcionava, apesar de em outras, se manter ativo, e de forma estável.

Brevemente irei dar uma utilização maior a esta ferramenta, não apenas em ambiente nacional mas também internacional, e partilharei alguns resultados, nomeadamente sobre o seu comportamento em cenário de utilização diária. Pode conhecer mais sobre ela através do site oficial onde poderá conhecer todo o seu potencial, incluindo a sua utilização em casa, por via da interação com vários tipos de dispositivos, já numa ótica de clara afirmação de Internet das Coisas. Estes poderão ser ou não fabricados pela Google, devendo apenas ser compatíveis com o Assistant (posso dizer por exemplo, que as colunas de som mais recentes da JBL são compatíveis). E talvez, com um pouco mais de tempo (que de todo não existe neste momento), possa continuar a desenvolver o meu pequeno chatbot. Mas isso será para depois.

Crédito da imagem: Google

Um dia na América

Uma das principais práticas que tenho neste tipo de acontecimentos é o não promover qualquer tipo de comentário imediato. Sempre me pareceu a postura mais correta a ter, por entre notícias desencontradas, jogos de informação e contra-informação, aumento de fluxo nas redes sociais. Isto não invalida que logo não possam surgir algumas ideias sobre o sucedido, nomeadamente decorrentes do que ações deste tipo podem significar na visão mais global do que as contextualiza.

Faltam cerca de duas semanas para as eleições intercalares, e sobre elas muito haverá para escrever, tendo os acontecimentos deste dia um espaço nessa reflexão. Mas parecendo ser um ato de terrorismo doméstico, convém que não nos esqueçamos de algumas notas…este tipo de terrorismo interno é uma realidade nos EUA, apesar de não muito noticiado no exterior. Ele expande-se desde um conjunto de milícias de direita, espalhadas por todo o território, até movimentos políticos mais radicais, dentro ou fora da esfera do partido republicano, e passando por lobos solitários, gangs de cariz mais violento e criminoso, etc. Toda esta “galáxia” encontrou em Trump a imagem quase perfeita de uma legitimização da sua existência, por um lado…por outro, a retórica presidencial agressiva é, para alguns ideólogos mais radicais, nada mais do que a porta para a assimilação institucional de algumas das suas ideias (embora talvez não na amplitude que desejariam, por enquanto…). Neste enquadramento, este tipo de eventos podem começar a ser normais, especialmente em períodos eleitorais…num ambiente de permanente conflito retórico, ao mais alto nível, que inevitavelmente cria um clima de tensão sobre uma sociedade de feridas abertas (e algumas antigas), a insistência numa colagem a assuntos fraturantes, direcionados com frequência em ataques ao partido, figuras e apoiantes democratas (bem como à imprensa liberal e imigração) estimula a ação de movimentos radicais que desejam mostrar que estão vivos (o que lhes permite angariar mais membros), passando ao mesmo tempo a mensagem de que Trump lhes interessa; ou de lobos solitários, manifestando o seu apoio por via de intervenção prática no terreno, que observam como oportunidades únicas de agir. Em tudo isto, não nos podemos esquecer da forma como Trump tem lidado com instituições como o FBI, particularmente odiadas por estes movimentos ou pessoas, como símbolos de uma autoridade opressora.

Mas ainda existe muita poeira pelo ar. É necessário tempo para que esta assente… esperemos então  pelas eleições intercalares.

Crédito da imagem: Washington Post

VOST – os filhos de Leslie

Uma das polémicas levantadas com a tempestade Leslie foi a falta de informação por parte da Proteção Civil, especialmente nas zonas que se previam mais afetadas. Em Leiria, nem eu, nem pessoas que conheço receberam algum tipo de SMS indicador da situação e, pelo que tenho ouvido, apenas Lisboa viu surgirem SMS…via EMEL. A juntar a esta situação, relatos têm existido de pessoas que realmente receberam um SMS de aviso mas apenas…24 horas depois. Por outro lado, foi notório o apagão nas redes sociais. Milhares de pessoas esperaram por informação da Proteção Civil nestes canais, mas esta foi inexistente no Twitter e, no Facebook, resumiu-se a pouco mais que nada.

As justificações para o referido acima espantaram-me um pouco, não apenas pela revelação de falta de capacidade, mas igualmente de organização e eficiência. Dizer-se que não se enviaram alertas localizados porque não era possível conhecer com exatidão a trajetória da tempestade, é, na prática, colocar uma muito injusta mancha sobre o bom trabalho que o IPMA realizou. As trajetórias associadas a estas tempestades são muito complexas de calcular, dada a complexidade e extensão dos fenómenos, para não falar da (ainda) raridade dos mesmos, não completamente tipificadas na modelação matemática. Ainda assim, o IPMA conseguiu ir reduzindo a área com mais probabilidade de eventos graves, num trabalho que ia sendo divulgado via comunicados. O que me pareceu contudo, foi que este trabalho não teve um seguimento apropriado pela Proteção Civil que, apesar dos apelos das pessoas nas redes (no Twitter eram constantes), não se fez ouvir em meios que, hoje em dia, são plataformas massivas para comunicação deste tipo, em tempo real, revelando um preocupante autismo ou inépcia face à realidade. Seria talvez de refletir sobre a criação, para este tipo de eventos climáticos (e suas consequências), de um hub comunicacional, albergando o IPMA e a Proteção Civil, para que a informação seja sincronizada e se torne mais rigorosa, concisa e abrangente. Não seria também dispiciente considerar a participação da agência LUSA neste hub, integrando a realidade multi-plataforma destas três entidades (e de outras que fosse conveniente juntar), para maior eficiência da comunicação. Por outro lado, é preciso redefinir a forma como os SMS’s são transmitidos, talvez promovendo maior aproximação com as operadoras de serviço móvel. Por outro lado, e porque alguns disseram, inclusive na própria televisão, que tais avisos poderiam constituir uma situação de alarme social injustificado, apetece-me apenas dizer que tal alarme por vezes surge pela falta de compreensão da mensagem transmitida, mas muito mais surge quando essa mensagem simplesmente não existe…e aqui também cabem algumas perguntas sobre a falta de informação que existiu às populações nos próprios locais, algo que está a ser muito falado na Figueira da Foz.

No meio de tudo isto, surgiu a @VOST , uma página no Twitter, feita por voluntários, que fez um trabalho absolutamente excecional na disseminação de informação clara, concisa, e importante, recolhendo-a criteriosamente de várias fontes e transmitindo-a de forma clara e eficiente, algo que inclusive chamou a atenção de alguns canais de notícias, que igualmente começaram a passar a informação desta iniciativa. Um grupo de voluntários…4 voluntários…estabeleceu uma base no Twitter que se consubstanciou não apenas no emergir de um serviço cívico, de cidadania, mas igualmente, pela dinâmica que foram imprimindo durante a noite, induziram um extraordinário movimento cívico na rede, criando rapidamente confiança e tornando-se um agregador das informações e pedidos de auxílio que iam chegando um pouco de todo o lado. Foi um trabalho notável, e que verdadeiramente merece ser aqui destacado.

Talvez afinal a Tempestade Leslie não tenha deixado apenas coisas negativas junto de nós…que o positivo que nos deixou possa germinar, e mais uma prova de cidadania que Portugal tanto precisa.

Crédito da imagem: VOST Portugal