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Fim do mundo

Na minha viagem de hoje, por entre uma zona costeira da região centro banhada pelo sol, ouvi com prazer esta reportagem da TSF sobre as rádios comunitárias da Guiné-Bissau. Devo dizer que me emocionei ao ouvi-la. E emocionou-me sobretudo a forma humilde e simples e ao mesmo tempo tão assertiva e voluntária como o nosso povo irmão da Guiné vive a comunidade, e o trabalho para o bem dessa mesma comunidade, defendendo com tenacidade o direito dos que não têm voz a terem a sua opinião, a exprimirem as suas vidas e as suas ideias, num serviço essencialmente comunitário para o bem de todos. Foi bonito ouvir o orgulho e o empenho com que os fundadores destas rádios, assim como aqueles que nelas trabalham, têm nas mesmas e no seu papel, muitas vezes contrariado pelas autoridades.

Partilho agora com todos vós esta reportagem. Vale muito a pena ouvir.

Brexit

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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Vai para um mês…

Enquanto estava a colocar o meu tablet à carga, algo que já não fazia quase desde o momento da compra há alguns meses, quase que me lembrei que tenho um blog…digo quase, porque de facto a magia da escrita não me deixa esquecer que tenho sempre aqui este espaço que me espera, nos bons ou nos maus momentos, nos momentos mais ou menos ocupados…por entre viagens e mudanças de hotel, avolumam-se as notas escritas e mentais, que se explanam entre ideias para artigos e podcasts, meras frases soltas, ou ideias mais vastas para algo talvez um pouco maior. O viajante é muitas vezes ultrapassado pela sua mente, que parece adivinhar o que no tempo sem tempo se vai formando um pouco mais na frente. E nessa viagem da mente, pelo tempo sem tempo, através de um espaço sempre em expansão, muitos destes textos e notas soltas vão se consubstanciando em realidades mais ou menos sólidas, ou sementes de uma esperança consolidada. Profissionalmente, algumas coisas vão continuando a nascer, com muito trabalho e espírito de sacrifício, e que espero serem definidoras de novos caminhos a trilhar, aos quais nos lançamos quando de facto percebemos que somos aquilo que escolhemos evoluir. E é também nesse evoluir que, pessoalmente, a janela da vida continua aberta a coisas novas.

No entretanto, o fluxo da vida tem sempre um espaço para a escrita, cimento antigo da minha construção. A parte de mim que não se esquece que tem um blog. Apesar de por vezes alguma preguiça se intrometer em toda esta dinâmica. Mas isso são outras histórias.

Um dia na América

Uma das principais práticas que tenho neste tipo de acontecimentos é o não promover qualquer tipo de comentário imediato. Sempre me pareceu a postura mais correta a ter, por entre notícias desencontradas, jogos de informação e contra-informação, aumento de fluxo nas redes sociais. Isto não invalida que logo não possam surgir algumas ideias sobre o sucedido, nomeadamente decorrentes do que ações deste tipo podem significar na visão mais global do que as contextualiza.

Faltam cerca de duas semanas para as eleições intercalares, e sobre elas muito haverá para escrever, tendo os acontecimentos deste dia um espaço nessa reflexão. Mas parecendo ser um ato de terrorismo doméstico, convém que não nos esqueçamos de algumas notas…este tipo de terrorismo interno é uma realidade nos EUA, apesar de não muito noticiado no exterior. Ele expande-se desde um conjunto de milícias de direita, espalhadas por todo o território, até movimentos políticos mais radicais, dentro ou fora da esfera do partido republicano, e passando por lobos solitários, gangs de cariz mais violento e criminoso, etc. Toda esta “galáxia” encontrou em Trump a imagem quase perfeita de uma legitimização da sua existência, por um lado…por outro, a retórica presidencial agressiva é, para alguns ideólogos mais radicais, nada mais do que a porta para a assimilação institucional de algumas das suas ideias (embora talvez não na amplitude que desejariam, por enquanto…). Neste enquadramento, este tipo de eventos podem começar a ser normais, especialmente em períodos eleitorais…num ambiente de permanente conflito retórico, ao mais alto nível, que inevitavelmente cria um clima de tensão sobre uma sociedade de feridas abertas (e algumas antigas), a insistência numa colagem a assuntos fraturantes, direcionados com frequência em ataques ao partido, figuras e apoiantes democratas (bem como à imprensa liberal e imigração) estimula a ação de movimentos radicais que desejam mostrar que estão vivos (o que lhes permite angariar mais membros), passando ao mesmo tempo a mensagem de que Trump lhes interessa; ou de lobos solitários, manifestando o seu apoio por via de intervenção prática no terreno, que observam como oportunidades únicas de agir. Em tudo isto, não nos podemos esquecer da forma como Trump tem lidado com instituições como o FBI, particularmente odiadas por estes movimentos ou pessoas, como símbolos de uma autoridade opressora.

Mas ainda existe muita poeira pelo ar. É necessário tempo para que esta assente… esperemos então  pelas eleições intercalares.

Crédito da imagem: Washington Post

A visão Bauhaus

Um vídeo simples, mas muito interessante, que nos mostra como o movimento Bauhaus contém, na sua essência, muitos dos pressupostos que deveriam mover a inovação no tempo moderno. A ideia de um mundo repensado, numa filosofia minimalista que evolui numa base inspirativa e inspiradora, para lá dos ditames do mercado…uma reforma viva, vibrante, baseada na partilha e evolução das ideias como produto duma reflexão liberta, acomodando o progresso e as dinâmicas sociais do nosso tempo no sentir intemporal que nos define enquanto humanidade. Para mim, continua a ser um paradigma muito interessante, num mundo e numa sociedade que de facto necessitam de ser profundamente repensados à luz do homem que se liberta, deixando para trás o homem que um dia se prendeu no vazio do que conquistou.

A paixão continua bem viva…

Crédito do Vídeo:Bauhaus Movement