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Fim do mundo

Na minha viagem de hoje, por entre uma zona costeira da região centro banhada pelo sol, ouvi com prazer esta reportagem da TSF sobre as rádios comunitárias da Guiné-Bissau. Devo dizer que me emocionei ao ouvi-la. E emocionou-me sobretudo a forma humilde e simples e ao mesmo tempo tão assertiva e voluntária como o nosso povo irmão da Guiné vive a comunidade, e o trabalho para o bem dessa mesma comunidade, defendendo com tenacidade o direito dos que não têm voz a terem a sua opinião, a exprimirem as suas vidas e as suas ideias, num serviço essencialmente comunitário para o bem de todos. Foi bonito ouvir o orgulho e o empenho com que os fundadores destas rádios, assim como aqueles que nelas trabalham, têm nas mesmas e no seu papel, muitas vezes contrariado pelas autoridades.

Partilho agora com todos vós esta reportagem. Vale muito a pena ouvir.

Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Serena

Confesso que não percebo muito bem este caso da Serena Williams. Sejamos práticos. O treinador quebrou uma regra. Não interessa se Serena viu ou não, a regra foi quebrada…e filmada (é preciso que se note). Se, tal como diz, Serena não viu, então acho que deveria falar com o seu treinador, buscando a razão do acontecido. Por outro lado, Carlos Ramos não tinha outra opção que não a de tirar o ponto, mediante o comportamento absolutamente deplorável da tenista. Não se pode atirar a raquete ao chão, nem se pode falar com um árbitro daquela forma.

Para ser franco, não sei se a punição não poderia ser um pouco mais grave, uma vez que, na minha visão, esses dois acontecimentos mereciam cada um a sua sanção. Mas Carlos Ramos escolheu assim. É uma prerrogativa sua e, bem vistas as coisas, é compreensível, tentando acalmar a situação. O ténis é simples. Tem regras simples, não vale a pena complicar. E para além da sua simplicidade (do jogo e das suas regras), continua a ter um código de conduta cada vez mais importante nos tempos modernos, caracterizados pela relativização das regras, também contribuindo para alimentar os sonhos das atletas que o praticam, induzindo entre outras coisas o respeito pelo outro na sua formação. Atitudes como a de Serena não têm desculpa, e definem alguém que se calhar já não se identifica com o jogo…não me impressiona a pantera negra e o tutu…isso nada mais é do que o marketing associado a uma necessidade de sobressair no campo, para alimentar o press system que rodeia estas pessoas. Mas, porque durante muitos anos joguei ténis e nele também cresci, absorvendo os seus valores, estas atitudes chocam-me. Existiam outros locais para fazer certo tipo de reclamações. Nunca no campo.

O que ela fará, sobre esta situação no futuro…não sei. Como se irá tentar retratar (porque no ténis, o dinheiro manda e muito), também não sei…sei, que realmente, não me interessa ver mais tenistas como Serena. Interessa-me sim continuar a acompanhar tenistas como Naomi Osaka, que cumpriu o sonho da sua via numa final do Grand Slam, vencendo o seu ídolo, com uma postura de humildade, mestria, concentração (e alguma inocência, como se viu na entrega do prémio) foi feliz. Muito feliz. Que continue a nos encantar durante muitos anos.

Crédito da imagem: USA Today Sports