Um grilo pela janela

Nas últimas semanas tenho tido um companheiro especial na área junto da janela do meu quarto. Não o vejo, e, para ser franco, não consigo precisar bem onde ele possa estar, mas oiço-o muito bem. Trata-se de um muito amável grilo que me tem vindo fazer companhia nestas noites de verão, mais ou menos quentes, frequentemente de paz por entre os dias. E, devo dizer, tem sido uma companhia muito agradável. É um daqueles toques de natureza que escolhemos ignorar nos recantos da cidade, porque, na realidade, por vezes é mesmo muito fácil de ignorar (no meu caso, o seu som confunde-se por vezes com a confusão da rua). Mas para além desse toque natural na minha existência diária, o meu pequeno companheiro relembra-me a minha idade de criança, em que ia com o meu pai a algum terreno, nos arredores de Leiria, apanhar grilos. Era uma aventura. Ia seguindo as suas pequenas caganitas até à entrada da sua toca. E depois, com o caule muito fino de uma pequena erva, invadia o seu espaço, rodando-a e fazendo-a avançar lentamente pelo buraco, para não magoar o bicho. Passado uns minutos, ele saia de forma mais ou menos rápida, tornando o ato de o apanhar algo que se estendia entre a calma, e um treino precoce de caminhada ou corrida, com um final mais ou menos conseguido. Num dia bom, regressava a casa imensamente feliz, com um pequeno grilo meio assustado dentro de uma caixa de fósforos vazia.

Sentindo-me sempre realizado, queria saber tudo sobre eles. Mas fazia-me confusão ter de o colocar numa gaiola…uma vez, assoberbado por uma miríade de pensamentos confusos sobre o direito à liberdade do pequeno Ser, abri a porta e deixei-o fugir. Fiquei profundamente feliz da vida, o mesmo não se podendo dizer do resto da minha família, que de forma apressada tentava encontrar o pequeno bicho. E assim, conformado com o facto de ele ter de ficar numa pequena gaiola de plástico, procurava que ele comesse bem, e de vez em quando colocava uma folha de alface, digamos, “ligeiramente” maior que a própria gaiola…tinha dias que o ouvia mas não o via, mas, ao mesmo tempo, estava tranquilo de que ele se alimentava bem.

Mas, como em tudo na vida, a liberdade nunca se prende…porque a liberdade, sendo presa, destrói-nos lentamente, não se condescendendo com as vitórias pífias e amorfas da rotina dos dias. E assim, os meus grilos tinham sempre o mesmo fim…morriam, normalmente debaixo de uma folha de alface meio comida. Acho que nunca consegui ultrapassar bem esses pequenos traumas, e talvez por causa disso nunca tive grandes animais de estimação. Ainda por cima, muitos anos depois, os pequenos peixinhos dourados que por vezes trazia para casa deixavam-me profundamente triste quando morriam…sabia-me bem interagir com eles, brincar com eles…as pequenas criaturas vivas são um imenso tesouro de humanidade…agora, tenho o meu Bonsai, resistente, bonito, e que me oferece muitas horas de paz, ao tratar dele…

E também, um grilo, alegremente cantando debaixo da minha janela, deixando-me também a mim um pouco mais alegre nas minhas noites.

Crédito da imagem: Infoescola

Extramuralhas 2018

Hoje começa o Extramuralhas (pode consultar a programação aqui), um dos acontecimentos culturais mais relevantes que tem lugar na cidade de Leiria. Retirado do seu lugar natural (o Castelo de Leiria, presentemente em obras) e que acompanhou o festival desde os primeiros tempos até ao presente, dando-lhe toda uma atmosfera que marcou a própria projeção do evento; a edição deste ano desce até à cidade para, em minha opinião, lhe trazer algo diferente, além da já tradicional movimentação dos grupos góticos. É que apesar de nos últimos anos as assistências do até agora Entremuralhas terem evoluído de forma crescente dentro da fortificação do Castelo, o envolvimento com a cidade acabava por não ser total, em termos do verdadeiro foco do festival, a música, e uma sempre excelente seleção de bandas que marca este festival. Não sei se o “Extra”muralhas voltará a ser o “Entre”muralhas, mas acho que se poderia ter muito a ganhar com um modelo intermédio, principalmente em termos de divulgação de novos sons e novas bandas de uma forma mais ampla.

Pessoalmente, tenho de confessar que não é a minha onda, e este artigo vai sendo escrito ao som do “Paraphernalia” de Miles Davis (do álbum Miles in the Sky). Mas mesmo o que por vezes pode não estar na frequência, em termos individuais, está sempre na experiência de diversidade que nos caracteriza a todos como humanidade, e é bom que este festival se mantenha durante muitos anos em Leiria, e que a Fade In continue o seu trabalho de divulgação de caminhos diferentes na esfera cultural leiriense.

Crédito da imagem: Região de Leiria

Taurautarquias

Li há alguns dias que a Azambuja prepara-se para candidatar a tourada a património mundial. Confesso que não sou apreciador de touradas, pelos motivos que são normalmente utilizados, desde a crueldade para com o animal até ao anacronismo desta tradição em tempos modernos. E, para ser ainda mais franco, tenho muita dificuldade em compreender aquelas largadas que muitas vezes se realizam em festas populares…nestes casos, não acho que exista algum tipo de anacronismo de tradição…nos tempos modernos, cada vez mais as pessoas apreciam as emoções fortes, a adrenalina de desafiar um perigo em condições mais ou menos controladas…assim, rapidamente estes acontecimentos tornam-se bem modernos, cativando, em muitos casos, um número esmagador de pessoas de gerações mais novas…porque o fazem colocando-se à frente de um touro é algo que realmente me escapa. Na era tecnológica em que vivemos, quem sabe o anacronismo não resulte daí.

Mas, voltando às touradas, a crueldade levada a cabo para com o animal é em si mesma, não apenas um anacronismo de tradição, mas igualmente de existência. Talvez o nómada que ainda existe em nós ainda vibre com a tortura planeada e coordenada do touro na arena, em vislumbres instintivos dos tempos em que caminhávamos pela Terra, defendendo-nos do ataque de animais selvagens…mas nesse anacronismo da existência cabe igualmente alguma hipocrisia do respeito pelo outro e pela vida, num falso sentimento de humanização que nos mata a todos, ao redor de uma arena, aos olhos de um animal que apenas reage ao sofrimento que lhe é infligido, por vezes de forma particularmente cobarde…levar tal espetáculo cínico ao panteão do património mundial nada mais é do que celebrar o status quo do passado, da mesma forma como ignoramos um planeta que chama por nós, convidando-nos a uma nova vida que nos escapa por entre os dedos da realidade. Saber que o tempo muda, e com ele muda o homem nos trilhos da sua história, libertando-nos do passado para os horizontes dessa mesma liberdade será, mais que um património cultural, o património do nosso futuro.

Crédito da imagem: Plataforma nacional para a abolição das touradas

O meu dia agridoce

Há sempre no espaço, uma relatividade nas emoções…da Tailândia veio o calor humano que me enterneceu o coração. Da minha rua, um ameaço de incêndio no meu prédio fez-me vacilar de receio. Pelo meio, o tempo perde o sentido e tudo se mistura na humanidade de sermos seres que sempre caminharam, e caminham, num mundo fluído, por entre o dia ou a noite, a alegria ou a tristeza, a lágrima ou o riso. Um Yin Yan eterno em nós se movimenta em equilíbrio, apesar de muitas vezes cedermos um pouco mais ao lado pesado da energia que nos rodeia.

Mas ainda assim, no final do dia, quando o trabalho se esvai na última luminosidade de um verão envergonhado, o efeito do pequeno susto se vai perdendo, e a a saúde do momento já vai pedindo férias, é mesmo da Tailândia que vem um pensamento de paz, na certeza que todas aquelas crianças, e o seu treinador, já se encontram abraçados pela luz do dia…e assim deito a cabeça, respirando bem fundo, e deixando a alma esboçar-me um pequeno sorriso na face. Talvez fosse mais fácil carregar já o amanhã com uma qualquer carga negativa, de um qualquer assunto complicado. Mas hoje, só por hoje, tudo se resolveu, e no momento, neste momento, sorrio e tenho esperança dentro de mim. Uma esperança que vai bem fundo, bem para lá das rotinas dos dias…mais do que me fazer sentir bem, fez-me acreditar em todos nós…na humanidade, em mim, em ti. Num mundo melhor. Porque simplesmente não faz sentido sentir-me bem, sem acreditar, e trabalhar, para todos e com todos, para um mundo melhor. Por entre a rotina dos dias. Na via do Caminho do Meio. No horizonte das dez mil coisas.

E muito obrigado a todos pelas vossas mensagens. Foi apenas o susto, tudo está bem 🙂

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Deutschland

Acabei agora de trabalhar. Ao ligar a televisão, apenas o tom dos jornalistas parecia deixar antever que algo de fantástico tinha acontecido. Fiquei assim a saber que a Alemanha tinha sido eliminada do Mundial de Futebol, que em Berlim era a tristeza que passeava pelas ruas numa (talvez) solarenga tarde, e que existia um certo tom de contentamento geral dos homens que habitualmente relatam estas coisas da bola. Não é, de facto, coisa que consiga perceber muito bem.

Toda esta reação em torno do gigante caído retrata um pouco de nós mesmos…na rotina dos dias, vivemos uma tão intensa quanto relativa (ou ausente) positividade que se respira no que de artificial nos rodeia, alimentando todo um conjunto de objetivos em que nunca pensámos, mas que com toda a certeza vamos conseguir atingir se muito trabalharmos, abdicando dessa “entidade negra” chamada zona de conforto (aquela a que por vezes temos tanta necessidade de voltar, para sarar as nossas feridas), para transcendermos o estado presente das nossas vidas…as fórmulas rodeiam-nos, e os resultados da sua aplicação multiplicam-se em ainda mais fórmulas, num caminho de nenhures, rumo ao sucesso…também aí reside uma parte importante das mecânicas nacionalistas que vão emergindo no nosso tempo, e que nada mais são do que o apoderar por parte de alguém destas dinâmicas coletivas, algumas vezes aplicando-lhes um símbolo. Mas a isso voltarei outro dia.

Neste processo mental de luta permanente, algures entre David e Golias, em cujo triunfo do underdog é considerado ao nível pessoal, vamos esquecendo como se erra, e como refletir nesses erros…esquecemos igualmente de como a vida nos brinda com a sua ciclicidade, que nos banha nas ondas de um mar interior que gostamos de ver ilustrado no silêncio da praia. Saber observar esse além, na natureza que nos rodeia e na humanidade que nela desponta, é o que nos faz evoluir, sonhar, pensar e amar um mundo melhor…sempre renovando-se, e levando-nos com ele.