A visão Bauhaus

Um vídeo simples, mas muito interessante, que nos mostra como o movimento Bauhaus contém, na sua essência, muitos dos pressupostos que deveriam mover a inovação no tempo moderno. A ideia de um mundo repensado, numa filosofia minimalista que evolui numa base inspirativa e inspiradora, para lá dos ditames do mercado…uma reforma viva, vibrante, baseada na partilha e evolução das ideias como produto duma reflexão liberta, acomodando o progresso e as dinâmicas sociais do nosso tempo no sentir intemporal que nos define enquanto humanidade. Para mim, continua a ser um paradigma muito interessante, num mundo e numa sociedade que de facto necessitam de ser profundamente repensados à luz do homem que se liberta, deixando para trás o homem que um dia se prendeu no vazio do que conquistou.

A paixão continua bem viva…

Crédito do Vídeo:Bauhaus Movement

Salgado censurado

Esta foi a fotografia de Sebastião Salgado, censurada pelo Facebook há alguns dias. Quando por vezes falamos da cegueira dos algoritmos, deveríamos talvez refletir um pouco mais sobre a cegueira dos homens. Em tempos onde a humanidade cada vez mais necessita, não apenas de um retorno ao essencial, mas igualmente de um retorno ao conhecimento do seu património, estrutura primeva dos seus alicerces, censurar o trabalho de Mestre Salgado, todo moldado pela forma como a sua visão do mundo se consubstancia em nós, ajudando-nos a caminhar no mesmo, é censurar a admiração do que somos, no nosso estado mais puro; e da pureza do mundo em que vivemos. Além disso, na era da Inteligência Artificial, dizer que estes algoritmos podem ser cegos desta forma nada mais é do que desviar a atenção de um falso pudor militante e tecnológico, de meninos que um dia gostavam de ser rebeldes, mas que se tornaram eles mesmos os censores modernos, Torquemadas 2.0 de um mundo em deriva Orwelliana.

Crédito da imagem: Sebastião Salgado

Aylan

Passaram 3 anos, desde que o corpo de Aylan Kurdi deu à costa numa praia da costa turca. Desde essa altura, 600 crianças deram à costa, só nessas mesmas praias…os barcos de emigrantes continuam a cruzar o mediterrâneo. Apesar do conflito entre a Etiópia e a Eritreia ter sido debelado após 20 anos, as más condições de vida na generalidade do continente africano, o recrudescer de um conflito nunca terminada na Líbia, e a incerteza imensa que se vive na Síria e em todo o Médio Oriente faz com que as pessoas continuem a sentir uma necessidade extrema, obrigatória, de buscar a segurança e uma vida melhor para si e para os seus filhos, com as redes ilegais a terem uma ação mais abrangente, chegando às costas espanholas. No meio de tudo isto, a falta de uma resposta rápida da Europa, que literalmente abandonou a Itália e a Grécia à sua sorte no recolhimento inicial destes refugiados, colocou-a a jeito de ser “flanqueada” pelos membros do Grupo de Visegrado e de uma Itália recém rendida eleitoralmente ao populismo, que forçam umas das principais feridas desta União Europeia moderna, a tomada de decisões de política externa criteriosas, em conjunto, ainda para mais mergulhada no Brexit e no emergir de uma tendência populista internacional.

Entretanto, Aylan continua a ser uma das bandeiras mais trágicas de uma humanidade que recusa a sua história para se dirigir a lado nenhum… milhares de anos de movimentos migratórios, com os quais sempre tivemos de lidar, e com os quais naturalmente se construiu muito do desenvolvimento que temos no presente; esvaem-se numa era onde a afirmação de um poder alternativo, nos faz lembrar outros períodos históricos, de muito má memória coletiva…

Aylan é a história que não nos deve fazer esquecer a História.

Crédito da imagem: Nilufer Demir/REUTERS

Um grilo pela janela

Nas últimas semanas tenho tido um companheiro especial na área junto da janela do meu quarto. Não o vejo, e, para ser franco, não consigo precisar bem onde ele possa estar, mas oiço-o muito bem. Trata-se de um muito amável grilo que me tem vindo fazer companhia nestas noites de verão, mais ou menos quentes, frequentemente de paz por entre os dias. E, devo dizer, tem sido uma companhia muito agradável. É um daqueles toques de natureza que escolhemos ignorar nos recantos da cidade, porque, na realidade, por vezes é mesmo muito fácil de ignorar (no meu caso, o seu som confunde-se por vezes com a confusão da rua). Mas para além desse toque natural na minha existência diária, o meu pequeno companheiro relembra-me a minha idade de criança, em que ia com o meu pai a algum terreno, nos arredores de Leiria, apanhar grilos. Era uma aventura. Ia seguindo as suas pequenas caganitas até à entrada da sua toca. E depois, com o caule muito fino de uma pequena erva, invadia o seu espaço, rodando-a e fazendo-a avançar lentamente pelo buraco, para não magoar o bicho. Passado uns minutos, ele saia de forma mais ou menos rápida, tornando o ato de o apanhar algo que se estendia entre a calma, e um treino precoce de caminhada ou corrida, com um final mais ou menos conseguido. Num dia bom, regressava a casa imensamente feliz, com um pequeno grilo meio assustado dentro de uma caixa de fósforos vazia.

Sentindo-me sempre realizado, queria saber tudo sobre eles. Mas fazia-me confusão ter de o colocar numa gaiola…uma vez, assoberbado por uma miríade de pensamentos confusos sobre o direito à liberdade do pequeno Ser, abri a porta e deixei-o fugir. Fiquei profundamente feliz da vida, o mesmo não se podendo dizer do resto da minha família, que de forma apressada tentava encontrar o pequeno bicho. E assim, conformado com o facto de ele ter de ficar numa pequena gaiola de plástico, procurava que ele comesse bem, e de vez em quando colocava uma folha de alface, digamos, “ligeiramente” maior que a própria gaiola…tinha dias que o ouvia mas não o via, mas, ao mesmo tempo, estava tranquilo de que ele se alimentava bem.

Mas, como em tudo na vida, a liberdade nunca se prende…porque a liberdade, sendo presa, destrói-nos lentamente, não se condescendendo com as vitórias pífias e amorfas da rotina dos dias. E assim, os meus grilos tinham sempre o mesmo fim…morriam, normalmente debaixo de uma folha de alface meio comida. Acho que nunca consegui ultrapassar bem esses pequenos traumas, e talvez por causa disso nunca tive grandes animais de estimação. Ainda por cima, muitos anos depois, os pequenos peixinhos dourados que por vezes trazia para casa deixavam-me profundamente triste quando morriam…sabia-me bem interagir com eles, brincar com eles…as pequenas criaturas vivas são um imenso tesouro de humanidade…agora, tenho o meu Bonsai, resistente, bonito, e que me oferece muitas horas de paz, ao tratar dele…

E também, um grilo, alegremente cantando debaixo da minha janela, deixando-me também a mim um pouco mais alegre nas minhas noites.

Crédito da imagem: Infoescola

Extramuralhas 2018

Hoje começa o Extramuralhas (pode consultar a programação aqui), um dos acontecimentos culturais mais relevantes que tem lugar na cidade de Leiria. Retirado do seu lugar natural (o Castelo de Leiria, presentemente em obras) e que acompanhou o festival desde os primeiros tempos até ao presente, dando-lhe toda uma atmosfera que marcou a própria projeção do evento; a edição deste ano desce até à cidade para, em minha opinião, lhe trazer algo diferente, além da já tradicional movimentação dos grupos góticos. É que apesar de nos últimos anos as assistências do até agora Entremuralhas terem evoluído de forma crescente dentro da fortificação do Castelo, o envolvimento com a cidade acabava por não ser total, em termos do verdadeiro foco do festival, a música, e uma sempre excelente seleção de bandas que marca este festival. Não sei se o “Extra”muralhas voltará a ser o “Entre”muralhas, mas acho que se poderia ter muito a ganhar com um modelo intermédio, principalmente em termos de divulgação de novos sons e novas bandas de uma forma mais ampla.

Pessoalmente, tenho de confessar que não é a minha onda, e este artigo vai sendo escrito ao som do “Paraphernalia” de Miles Davis (do álbum Miles in the Sky). Mas mesmo o que por vezes pode não estar na frequência, em termos individuais, está sempre na experiência de diversidade que nos caracteriza a todos como humanidade, e é bom que este festival se mantenha durante muitos anos em Leiria, e que a Fade In continue o seu trabalho de divulgação de caminhos diferentes na esfera cultural leiriense.

Crédito da imagem: Região de Leiria