Omnia in micro – 8

O mundo cada vez mais lhe parecia uma manta de retalhos. Uma manta antiga, já tão vivida quanto pisada, tão estendida quanto perigosamente recolhida, conforme as épocas por que passava. Pelo meio, os retalhos iam-se descosendo, apagando a sua união num emaranhado confuso de linhas partidas… soltas, mas não propriamente libertas… apontando para um qualquer vazio…estar em casa ou no seu exterior trazia-lhe sempre a mesma imagem…a de um mundo por vezes em despedida de uma humanidade que não o sabe viver, nem mesmo quando, num qualquer futuro bem próximo, enfrenta o risco de o perder.

Steve McCurry: a life in pictures

Não é segredo para ninguém que sou um fã de Steve McCurry. Já o disse aqui uma vez. Para mim, ninguém trabalha a cor como McCurry, e o seu trabalho faz com que este sempre fã do Preto e Branco, como o primado da forma e da sombra que faz sobressair a verdadeira luminosidade do sentir, não apenas do homem mas também do mundo; se compadeça e por vezes se torne pequena essência de nada na dimensão que a cor forma nestas fotografias, por entre um sorriso, uma lágrima, ou apenas um esgar de admiração pela forma como por entre a forma e a sombra, conseguimos pintar um mundo e uma humanidade tão bela.

O livro ainda não saiu, mas a Amazon já está a aceitar reservas de pré-venda.

Crédito da imagem: Steve McCurry 

A visão Bauhaus

Um vídeo simples, mas muito interessante, que nos mostra como o movimento Bauhaus contém, na sua essência, muitos dos pressupostos que deveriam mover a inovação no tempo moderno. A ideia de um mundo repensado, numa filosofia minimalista que evolui numa base inspirativa e inspiradora, para lá dos ditames do mercado…uma reforma viva, vibrante, baseada na partilha e evolução das ideias como produto duma reflexão liberta, acomodando o progresso e as dinâmicas sociais do nosso tempo no sentir intemporal que nos define enquanto humanidade. Para mim, continua a ser um paradigma muito interessante, num mundo e numa sociedade que de facto necessitam de ser profundamente repensados à luz do homem que se liberta, deixando para trás o homem que um dia se prendeu no vazio do que conquistou.

A paixão continua bem viva…

Crédito do Vídeo:Bauhaus Movement

Salgado censurado

Esta foi a fotografia de Sebastião Salgado, censurada pelo Facebook há alguns dias. Quando por vezes falamos da cegueira dos algoritmos, deveríamos talvez refletir um pouco mais sobre a cegueira dos homens. Em tempos onde a humanidade cada vez mais necessita, não apenas de um retorno ao essencial, mas igualmente de um retorno ao conhecimento do seu património, estrutura primeva dos seus alicerces, censurar o trabalho de Mestre Salgado, todo moldado pela forma como a sua visão do mundo se consubstancia em nós, ajudando-nos a caminhar no mesmo, é censurar a admiração do que somos, no nosso estado mais puro; e da pureza do mundo em que vivemos. Além disso, na era da Inteligência Artificial, dizer que estes algoritmos podem ser cegos desta forma nada mais é do que desviar a atenção de um falso pudor militante e tecnológico, de meninos que um dia gostavam de ser rebeldes, mas que se tornaram eles mesmos os censores modernos, Torquemadas 2.0 de um mundo em deriva Orwelliana.

Crédito da imagem: Sebastião Salgado

Aylan

Passaram 3 anos, desde que o corpo de Aylan Kurdi deu à costa numa praia da costa turca. Desde essa altura, 600 crianças deram à costa, só nessas mesmas praias…os barcos de emigrantes continuam a cruzar o mediterrâneo. Apesar do conflito entre a Etiópia e a Eritreia ter sido debelado após 20 anos, as más condições de vida na generalidade do continente africano, o recrudescer de um conflito nunca terminada na Líbia, e a incerteza imensa que se vive na Síria e em todo o Médio Oriente faz com que as pessoas continuem a sentir uma necessidade extrema, obrigatória, de buscar a segurança e uma vida melhor para si e para os seus filhos, com as redes ilegais a terem uma ação mais abrangente, chegando às costas espanholas. No meio de tudo isto, a falta de uma resposta rápida da Europa, que literalmente abandonou a Itália e a Grécia à sua sorte no recolhimento inicial destes refugiados, colocou-a a jeito de ser “flanqueada” pelos membros do Grupo de Visegrado e de uma Itália recém rendida eleitoralmente ao populismo, que forçam umas das principais feridas desta União Europeia moderna, a tomada de decisões de política externa criteriosas, em conjunto, ainda para mais mergulhada no Brexit e no emergir de uma tendência populista internacional.

Entretanto, Aylan continua a ser uma das bandeiras mais trágicas de uma humanidade que recusa a sua história para se dirigir a lado nenhum… milhares de anos de movimentos migratórios, com os quais sempre tivemos de lidar, e com os quais naturalmente se construiu muito do desenvolvimento que temos no presente; esvaem-se numa era onde a afirmação de um poder alternativo, nos faz lembrar outros períodos históricos, de muito má memória coletiva…

Aylan é a história que não nos deve fazer esquecer a História.

Crédito da imagem: Nilufer Demir/REUTERS