Oscar & Valeria

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Crédito da imagem: AFP

Já estava deitado, mas esta imagem não me saía da cabeça…tal como no caso de Aylan Kurdi, esta não é uma imagem única, que aconteceu neste momento no tempo. Esta é uma imagem sem tempo, porque reflete algo que acontece com uma frequência macabra, uma repetição que incomoda, que normalmente não se gosta de enfrentar numa espécie de não admissão de luto coletivo enquanto humanidade, num purgatório situado entre a ausência de perceção do que nos trouxe até aqui, e a ausência de visão sobre para onde vamos, a partir daqui. Afinal, num vórtice de conceitos vazios, a humanidade vai-se tornando ela própria vazia, na medida em que coletivamente a varremos do nosso ser, numa perspetiva egótica e eugénica do nosso próprio vazio, enquanto Ser individual e social…uma sanitização coletiva da nossa história, que apenas lança um enorme nevoeiro sobre o nosso futuro, fazendo-nos cada vez mais esconder instintivamente nos discursos fáceis e populistas, adaptáveis à plasticidade da sociedade moderna, que glorifica o sonho do outro em ser feliz, por troca da nossa infelicidade, mascarada de ideologia.

Talvez isto explique o porquê de situações como esta estarem a acontecer a um ritmo alarmante nas fronteiras dos EUA e da União Europeia…tradicionais paladinos da liberdade e, pela sua história, destinos tradicionais de emigração, de zonas de crise, em situações de crise…mas cada vez menos existe a noção de mundo e de história, por troca com a necessidade de, para atingir as metas e os valores que a superficialidade da era moderna impõe, nos tornarmos mais pequenos, na glorificação do vácuo das fronteiras e de uma visão quase racista de povo, algo que estes novos movimentos nacionalistas fazem, infelizmente, muito bem.

Porque as ideias estão muito presentes, mas o sono vai apertando, uma última palavra para a fotografia em si…sim, deveria ter sido tirada. Esta e outras. Sim, deveria ter sido publicada e difundida…esta e outras…

Este assunto irá voltar ao universo Omnia.

Travelling with Miles

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Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

Uma história de Natal…

Quando me levantei no dia de Natal, esta foi a história que vi, mal liguei a televisão. A bordo de um barco de refugiados, em pleno Mediterrâneo, e depois da entrada ter sido vedada nos portos italianos, os refugiados que iam a bordo, e muito especialmente as crianças, tiveram uma festa natalícia plena de sorrisos, levada a cabo com o esforço dos voluntários a bordo, que não se pouparam para criar um ambiente que, por alguns momentos, fizesse esquecer todas as agruras vividas por estas pessoas. Há mesmo um fundo de verdade quando se diz que a história, ou por vezes alguns dos seus aspetos, repetem-se…no exercício intemporal da exploração dos povos pelo interesse de alguns, sobressaem em cada época os pequenos grandes exemplos de libertação que nos indicam um rumo, um horizonte, em tempos mais incertos. Algo que não se encontra nos livros, mas no coração de cada um de nós, despertando sempre na simplicidade das pequenas grandes coisas, como a alegria das crianças.

Tive uma noite de Natal calma e agradável, assim como o dia. Mas ao assistir a estes momentos, confesso que senti-me flutuar até uma dimensão diferente…e por lá vou ficando…

Crédito da imagem: SIC

Omnia in micro – 8

O mundo cada vez mais lhe parecia uma manta de retalhos. Uma manta antiga, já tão vivida quanto pisada, tão estendida quanto perigosamente recolhida, conforme as épocas por que passava. Pelo meio, os retalhos iam-se descosendo, apagando a sua união num emaranhado confuso de linhas partidas… soltas, mas não propriamente libertas… apontando para um qualquer vazio…estar em casa ou no seu exterior trazia-lhe sempre a mesma imagem…a de um mundo por vezes em despedida de uma humanidade que não o sabe viver, nem mesmo quando, num qualquer futuro bem próximo, enfrenta o risco de o perder.