O gelo de Mogadouro

 

granizo
Crédito: TSF

Não pretendendo ser um post extenso, devo dizer que esta foi uma semana em que se falou muito de alterações climáticas em Portugal…sem realmente se falar. Das areias na Costa da Caparica e o crescente domínio que o mar vai tendo sobre aquela zona, até à tempestade de granizo em Mogadouro, em pleno Julho, este foi um tema que pode ter estado no nosso subconsciente, mas  pouco ou nada emergiu que não a descrição dos eventos e das soluções conjunturais encontradas.

Numa realidade natural onde, no nosso âmbito regional, cada vez mais se vão sentindo os efeitos de fenómenos extremos, desde as tempestades (locais ou tropicais) aos incêndios florestais, passando por alterações bem visíveis no próprio clima, Portugal vai adiando um muito necessário debate interno sobre estas questões. Algo que, infelizmente, também assistimos no contexto europeu, onde a península ibérica, pelo facto de ser uma das zonas com maior desequilíbrio potencial, originado pelas alterações climáticas, não se assume como um dos pólos dinamizadores desta análise europeia. Certo é que até 2050, e com maior incidência no período posterior, Portugal pode sentir o impacto das alterações climáticas em setores de importância estratégica da economia, desde o turismo até à agricultura, florestas e pescas (bem como respetivas cadeias de abastecimento e unidades transformadoras associadas), para já não falar nos possíveis impactos nas populações motivados por uma progressiva desertificação da região sul do país e de alterações nos aglomerados costeiros.

Exige-se uma preparação estrutural, assente nos atuais modelos científicos sobre este tema e numa correspondente visão estrutural a prazo da sociedade e economia, seja no contexto nacional ou europeu. Este é, numa visão macro, também uma questão geracional. Os dados presentes apontam para que os nossos filhos e netos herdem um mundo, um continente europeu, e uma península ibérica, muito diferentes das atuais, mais exigentes nos desafios colocados aos seus habitantes. É inquestionável a responsabilidade das gerações anteriores no cenário que irão encontrar…mas essas mesmas gerações anteriores podem iniciar a preparação um futuro que será inevitavelmente de muitas mudanças, numa visão assente numa abordagem sustentada e de união face a este desafio, olhando o planeta de uma forma diferente, talvez mais interior, deixando emergir uma nova forma de buscar e viver a felicidade. Serão eles. os nossos filhos e netos a avaliar o nosso esforço perante as suas necessidades.

On the road

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Crédito da imagem: Paulo Heleno

Dia de regressar às viagens. Dia de sol e céu azul, que me acompanharam por entre as nossas estradas, sempre ladeadas de um verde brilhante de verão. Até ao final do mês irei ficar a maior parte do meu tempo na região de Aveiro, toda uma zona onde me sinto bem, imerso nas suas cores e formas…para ser franco, nesta altura, o viajante não poderia desejar algo melhor. Regressei com um enorme desejo de passar mais tempo na minha terra, harmonizando-me com um sol que num passado recente foi ausente, e transpondo mais alguns degraus daquilo que considero ser a minha caminhada, numa visão cada vez mais larga que vou tendo da minha vida.

As estadias prolongadas no Brasil e no Reino Unido foram fantásticas. E se profissionalmente foi muito interessante, do ponto de vista pessoal foi sensivelmente um ano e meio de um verdadeiro banho de mundo, movimentando-me por várias realidades dentro da própria realidade destes países (cada um deles riquíssimo na sua diversidade), saboreando vários universos sociais, culturais, históricos, artísticos que decididamente me marcaram e me fizeram evoluir enquanto pessoa, rasgando o dogma da viagem de trabalho e atirando-o ao vento em mil pedaços, que se vão consubstanciando em pequenos passos em frente…por vezes grandes passos, que resistem como uma ponte para o futuro por contraponto aos rios revoltos do passado. Reconheço que é por vezes uma ponte de geometria variável 🙂 mas, passo a passo, a caminhada vai-se transformando em horizonte palpável.

Tornei-me um cidadão do mundo, pois apenas o mundo preenche a minha vontade de crescer e de o descobrir, sem dúvida com muitas mais viagens para fazer. Mas agora, sinto-me em paz, resguardado num espaço mais próximo, onde posso planear ideias para um futuro mais ou menos distante, com apenas uma certeza: somos o que escolhemos evoluir. Evoluímos na medida do que desejamos ser.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Desvio 45

O aproximar de uma tempestade é sempre uma boa razão para se voltar às curtas do Indie. Deste vez, mais um exemplo de bom cinema português, do já longínquo ano de 2002. Escrito, realizado e produzido por António Borges Correia, Desvio 45 é uma história de distorção temporal muito bem escrita e realizada…enquanto um casal de idosos simula uma viagem, num carro parado algures num descampado (onde outros idosos vão jogando voleibol), um casal jovem inicia a sua viagem de lua de mel. As ações de um casal são o espelho das ações do outro, uma técnica que poderia ser considerada cliché, mas que aqui surge com qualidade, não nos passando pela mente de que já a vimos em bastantes filmes…chegados a um desvio, o casal jovem entra por uma estrada secundária que os leva a ficarem perdidos, sem combustível, o que os leva a caminhar por entre o descampado, encontrando o seu futuro, no casal idoso que simula a viagem num carro que, na sua mala, tem um reservatório de gasolina, que permite ao casal mais novo seguir a sua viagem.

Essencialmente é um trabalho muito bem escrito, com uma boa realização. Com a música de João Gil a dar um toque muito positivo à criação de uma atmosfera de intemporalidade que marca todo o filme, que nos faz pensar se a idade não será apenas uma desculpa para pretendermos alargar a nossa imaturidade.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: António Borges Correia

Leslie

Vem aí o furacão Leslie. Portugal não se encontrava normalmente na rota destes grandes fenómenos atmosféricos, mas as alterações climáticas vão-nos trazendo novidades a um ritmo bem maior do que aquele dedicado a refletir sobre os seus impactos. Estamos situados numa das zonas de primeira linha destas alterações, com o Atlântico por um lado, e os sistemas climáticos africanos pelo outro, prometendo à nossa descendência um país bem diferente do atual, de extremos e de choques climáticos. Confesso que sou daqueles que se questionam se estamos a preparar de forma cuidada esse futuro, numa era onde as crianças são cada vez mais protegidas do próprio mundo que lhes pode ensinar tanto sobre todos nós. Em relação ao Leslie em particular, a imprevisibilidade da rota destes fenómenos torna, nesta altura, difícil a tarefa de estimar a sua trajetória, fortemente influenciada pelas depressões a Norte e pelo Anticiclone dos Açores a Sul. Mantenham-se a par das últimas informações através da página do IPMA, não esquecendo uma visita à página da Autoridade Nacional da Proteção Civil.

Uma última palavra para as pessoas que se colocam em risco para fotografar cenários relacionados com estes fenómenos…uma boa fotografia não vale um acidente grave ou potencial fatal…e mesmo que nada aconteça, o exemplo que transmitem pode ser, um dia, o motivo para alguém poder ter algum acidente. Mantenham as máquinas no saco, partilhem este tempo com um bom serão em família ou com os amigos. Celebrem a vida, que um dia nasceu das forças poderosas que lá fora agitam os elementos nestes dias.

Crédito da imagem: NASA Worldview, Earth Observing System Data and Information System (EOSDIS)/ NOAA

 

Omnia in micro – 8

O mundo cada vez mais lhe parecia uma manta de retalhos. Uma manta antiga, já tão vivida quanto pisada, tão estendida quanto perigosamente recolhida, conforme as épocas por que passava. Pelo meio, os retalhos iam-se descosendo, apagando a sua união num emaranhado confuso de linhas partidas… soltas, mas não propriamente libertas… apontando para um qualquer vazio…estar em casa ou no seu exterior trazia-lhe sempre a mesma imagem…a de um mundo por vezes em despedida de uma humanidade que não o sabe viver, nem mesmo quando, num qualquer futuro bem próximo, enfrenta o risco de o perder.