Iker

imageik
Crédito da imagem: JN

Ao ouvir a notícia de hoje relativa ao enfarte de Iker Casillas, não pude deixar de ter logo, como primeiro pensamento, uma das últimas consultas médicas que tive…depois de descrever o meu trabalho, o médico pausou um pouco, dizendo-me que parecia um pouco cansado. “Ajudava ter um hobbie” disse ele, levando-me a pensar qual das n coisas que amo fazer e que há muito tempo não faço, devia escolher. Talvez tenha sido um pensamento egoísta…obviamente que desejo que tudo não tenha passado de um susto, e que Iker continue a maravilhar os adeptos de futebol com a sua arte. Mas foi o meu primeiro pensamento…para ser franco, desde o que aconteceu ao João Vasconcelos que tenho pensado nestas situações, despertando-me toda uma reflexão estruturante  sobre o meu quotidiano. Sempre senti dentro de mim que 2019 ia ser um ano de evolução, tal como foi o ano de 2016, com todos os seus acontecimentos que guardo com carinho. E os caminhos que tenho trilhado nesta questão, iluminam novos caminhos que vão surgindo, na enorme paisagem aberta há cerca de 3 anos.

É assustador o ritmo a que estas situações vão acontecendo.

O medo em blog

Por entre noticiários de almoço e jantar, fui ouvindo algumas notícias sobre como alguns bloggers, na base do anonimato, entram com os seus blogs nas guerras futebolísticas, como parte ativa ou apenas apoiando as partes. Numa das notícias que ouvi, o Benfica entrou em acordo com a Google para a divulgação dos nomes de alguns desses bloggers, assumidos  detratores do clube, para posterior procedimento judicial sobre os mesmos.

Não sei os motivos, mas para tal pedido ser feito, acredito que existam fundamentos juridicamente razoáveis. A meu ver, qualquer entidade que se sinta prejudicada nos seus interesses pela ação de um blogger anónimo, levada a cabo fora do legalmente enquadrado, tem, a meu ver, o direito de saber a identidade dessa pessoa, e agir judicialmente sobre ela. O que me chamou a atenção foi o grau de alheamento destas pessoas….dizia a notícia que um dos autores tinha manifestado receio pela sua família, pois a sua identificação poderia provocar vinganças de adeptos, com contornos graves. Dizia ainda que, na noite posterior ao aviso da Google de que a sua identidade seria revelada ao clube, não dormiu, e sentiu medo, enquanto observava a sua família pela manhã. Sem dúvida que o futebol capta o que de mais instintivo existe nas pessoas, envolvendo-as numa atmosfera de matilha e num perigoso sentido de pertença. Tal é feito por via de mensagens muito bem dirigidas, neste caso fundamentadas em referências a valores que, na prática, nada mais são mais elementos decorativos de políticas de comunicação, esvaziados de qualquer realidade histórica que lhes têm dado origem…daí nasce uma espécie de justificação medieval para o clima de tensão bárbaro que existe entre clubes, e para as subsequentes batalhas, onde estas pessoas, e mais alguns milhares (a outro nível) são orientadas como peões, com as suas ações a nada mais serem do que elementos de um xadrez jogado num nível estratosférico, do qual pouco compreendem, e sobre o qual não têm nenhuma influência. Na visão inversa, as pessoas (como aquele blogger) que se aventuram a entrar (no jogo) são facilmente esmagadas, numa espécie de guerra bárbara onde nada mais são do que cavaleiros da triste figura, num exército de reis caídos que se movem orgulhosamente nus por entre as turbes, e que pelas turbes são glorificados na elegia da futilidade…

Nenhum clube justifica colocar uma família numa situação perigosa, especialmente nos tempos que vivemos, onde tudo se escala com preocupante facilidade, fazendo com que a razão perca o seu sentido, e as caminhadas percam um qualquer sentido, num ambiente fora de razão. E se quisermos colocar a situação de um ponto de vista social, nenhum desporto vale o potencial descontrolo que estas situações podem tomar, extravasando-o e contaminando o ambiente social. É altura de parar.

Sporting: o fim da novela?

Hoje foi um dia essencialmente de descanso. Como sentia a cabeça um pouco cansada para editar fotografia no Lightroom, fui vendo alguns filmes (essencialmente curtas) e, a espaços, ia deitando o olho a este manifesto exagero televisivo à volta das eleições no Sporting. Um pouco para ver “os bonecos a passar”, e deixar a cabeça ligar à Terra, com algo que, na minha vida pessoal, é basicamente inútil, e não implica qualquer esforço de pensamento.

Quem me conhece, sabe que não sou apreciador de futebol. Mas não posso deixar de ver de forma muito positiva uma (espero) solução para toda esta novela do Sporting. Não podemos ter um grande do futebol português em eterna convulsão interna, ao nível das situações que se verificaram no passado recente, promovendo alteração do ambiente social. É certo que, pelo que tenho ouvido, outros escândalos se vão aproximando com outro grande, mas Portugal tem de começar realmente a promover mudanças profundas no edifício do futebol, a começar pelos clubes e a forma como dimensionam a sua intervenção na sociedade. Estaremos porventura a assistir ao início desse período, sendo por isso vital toda a pacificação e maturidade de gestão que se consiga encontrar nestes momentos. Não me agrada rigorosamente nada ver um panorama futebolístico em guerra como válvula de escape de situações de maior crise económica e social.

Parabéns a quem ganhe. Força para quem perca. Não me interessa rigorosamente nada saber quem é quem nesse pódio (assim como não me interessa em outros clubes). O importante é encontrar uma plataforma de unificação e pacificação, dentro dos paradigmas da indústria do futebol moderno, que torne o Sporting e outros clubes, pólos de rivalidade sim, mas também de alegria e festa nos estádios, um foco positivo na vida do país, e muito especialmente nas caminhadas por vezes complexas que os adeptos fazem nas suas vidas diárias.

Os barbeiros

De tempos a tempos, tenho o grato prazer de visitar o meu barbeiro, o sr. João. Nesse dia, sentar-me na barbearia à espera é para mim um repouso, uma forma de parar, na vida e no tempo. É um local de histórias, passadas e presentes…algumas surpreendentemente futuras, assentes na experiência de vida de quem as conta, normalmente envolta numa sabedoria invulgar por estes dias. Não o estranho, pois ali ainda se vive a época do saber sem lugar. E enquanto por vezes no meio dessas histórias irrompe o futebol ou a política, em discussões por vezes quentes, eu, que não sou um saudosista, encanto-me no respirar silencioso de tempos mais simples, consubstanciados na atmosfera, nos objetos da arte, ou no pequeno relógio que marca o cenário num saudoso tic-tac e onde o sr. João se harmoniza por completo. Tenho dele a imagem que tenho de todos os barbeiros, pois em todos eles a senti…de alguém que ouve e fala com a paciência dos tempos sem tempo, estando sempre lá, sabendo que será encontrado por quem vai ao seu encontro…no seu estar, e no partilhar do mesmo com os seus clientes mais habituais, o tempo vai-se tornando mais certo, em sintonia plena com o relógio, tornando deliciosamente normais as conversas…e isso faz-me sentir vivo, por entre um corte de cabelo ou um aparar de bigode…saio sempre de lá a compreender melhor o outro…algures em Leiria, numa qualquer barbearia antiga, há uma liberdade que em mais lado nenhum existe, e que se degrada na justificação do tempo…

Os barbeiros ainda vão sendo uns dos guardiões da nossa paz. Que assim continuem.

Crédito da imagem: João Pires

Nota à nota (ainda Monchique)

Confesso que a forma como está a ser discutida esta questão das evacuações em Monchique, e que numa primeira fase comentei em virtude de alguma insensibilidade que se começava a sentir,  está a atingir níveis absolutamente lamentáveis insulto fácil e gratuito, atropelando a dignidade que as vítimas dos efeitos provocados pelo incêndio de Monchique, todas elas, merecem.

A meu ver, a questão prende-se a dois níveis:

  • A forma como a GNR atua num cenário de grande stress, onde as pessoas estão sobre uma enormíssima pressão emocional. Ao contrário da dúvida existencial de alguma imprensa, nunca tive grandes questões sobre se, à luz dos normativos, o que a GNR estava a fazer era legal ou não. Já me questiono sobre se levar pessoas algemadas para fora das suas casas é a postura mais correta a ter nestes casos.
  • A forma absolutamente leviana como alguns comentam o drama daquelas pessoas ,(e foi mais isto que me levou a escrever o post anterior) que contaminou de uma forma quase viral esta discussão. É preciso perceber bem o que sofrem estas pessoas, e espero sinceramente que quem fez esses comentários nunca passe por isso. Que o futebol permita treinadores de sofá, é uma coisa. Mas estas são situações que não podem ser vistas da mesma forma. Para esta realidade não igualmente contribuído o comportamento de alguma comunicação social tem mostrado ao amplificar e endeusar a forma como essas pessoas procederam, e que é outra forma errada de ver o problema.

Monchique passou pelo meio dos “pingos da chuva”, deixando não apenas uma gigantesca área ardida, mas mais uma vez uma preocupante noção da falta de algo que vai muito para além da cidadania ou de organização do estado, consubstanciando-se num profundo relativismo da crítica fácil e vazia. Mais uma vez, matamos uma discussão importante à nascença por via da irresponsabilidade da comunicação social, e da ansiedade por protagonismo nas redes sociais…

Será que Pedrogão não nos ensinou nada?

Crédito da imagem: Global Imagens