O medo em blog

Por entre noticiários de almoço e jantar, fui ouvindo algumas notícias sobre como alguns bloggers, na base do anonimato, entram com os seus blogs nas guerras futebolísticas, como parte ativa ou apenas apoiando as partes. Numa das notícias que ouvi, o Benfica entrou em acordo com a Google para a divulgação dos nomes de alguns desses bloggers, assumidos  detratores do clube, para posterior procedimento judicial sobre os mesmos.

Não sei os motivos, mas para tal pedido ser feito, acredito que existam fundamentos juridicamente razoáveis. A meu ver, qualquer entidade que se sinta prejudicada nos seus interesses pela ação de um blogger anónimo, levada a cabo fora do legalmente enquadrado, tem, a meu ver, o direito de saber a identidade dessa pessoa, e agir judicialmente sobre ela. O que me chamou a atenção foi o grau de alheamento destas pessoas….dizia a notícia que um dos autores tinha manifestado receio pela sua família, pois a sua identificação poderia provocar vinganças de adeptos, com contornos graves. Dizia ainda que, na noite posterior ao aviso da Google de que a sua identidade seria revelada ao clube, não dormiu, e sentiu medo, enquanto observava a sua família pela manhã. Sem dúvida que o futebol capta o que de mais instintivo existe nas pessoas, envolvendo-as numa atmosfera de matilha e num perigoso sentido de pertença. Tal é feito por via de mensagens muito bem dirigidas, neste caso fundamentadas em referências a valores que, na prática, nada mais são mais elementos decorativos de políticas de comunicação, esvaziados de qualquer realidade histórica que lhes têm dado origem…daí nasce uma espécie de justificação medieval para o clima de tensão bárbaro que existe entre clubes, e para as subsequentes batalhas, onde estas pessoas, e mais alguns milhares (a outro nível) são orientadas como peões, com as suas ações a nada mais serem do que elementos de um xadrez jogado num nível estratosférico, do qual pouco compreendem, e sobre o qual não têm nenhuma influência. Na visão inversa, as pessoas (como aquele blogger) que se aventuram a entrar (no jogo) são facilmente esmagadas, numa espécie de guerra bárbara onde nada mais são do que cavaleiros da triste figura, num exército de reis caídos que se movem orgulhosamente nus por entre as turbes, e que pelas turbes são glorificados na elegia da futilidade…

Nenhum clube justifica colocar uma família numa situação perigosa, especialmente nos tempos que vivemos, onde tudo se escala com preocupante facilidade, fazendo com que a razão perca o seu sentido, e as caminhadas percam um qualquer sentido, num ambiente fora de razão. E se quisermos colocar a situação de um ponto de vista social, nenhum desporto vale o potencial descontrolo que estas situações podem tomar, extravasando-o e contaminando o ambiente social. É altura de parar.

Vazio

Com realização de Bruno Gascon, e tendo feito parte da seleção do festival sérvio Human District, de 2016, assim como do Short Film Corner do festival de Cannes (do mesmo ano), Vazio é mais um filme que, como The Nest, nos dá um retrato realista da sociedade em que vivemos, sendo neste caso mais enquadrado com as dinâmicas psicológicas inerentes à realidade do dia a dia, e à forma como a falta de adaptação às mesmas nos pode por vezes colocar perante um labirinto sem saída, ou um precipício sem regresso. À beira de cometer um suicídio na madrugada de Lisboa, num dos pontos altos da cidade, a personagem principal não consegue encontrar o ponto onde a partir do qual a sua vida deixou de fazer sentido, tornando o seu viver numa deriva depressiva entre os dogmas vazios e puramente cénicos do seu emprego, e a família, onde cada vez menos se enquadra. Após uma primeira tentativa de suicídio, em que toma consciência desse vazio que domina toda a sua vida passada e futura, mata a sua família e o seu chefe, completando depois a sua queda fatal.

É um filme perturbador, que para além de nos alertar para a dessensibilização da sociedade em que vivemos, e para os desequilíbrios que pode provocar, faz-nos pensar igualmente que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de mudar algo nas suas vidas, seguindo novos caminhos pessoais e profissionais, fora do status quo moderno. É um sentimento tão sentido quanto verbalizado e passado à prática, e que alia uma maior consciência própria e da caminhada realizada, à busca de trabalhos e projetos menos padronizados que tragam um valor realmente acrescentado a essa caminhada…é o preenchimento desse vazio interior, crescente, que guia essas pessoas a um caminho diferente…é o aumento incomensurável desse vazio, por via da inércia da vida, que leva esta personagem a um caminho escuro, sem regresso.

Muito bem escrito e realizado, é um filme sobre o qual vale a pena refletir.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Bruno Gascon

Um grilo pela janela

Nas últimas semanas tenho tido um companheiro especial na área junto da janela do meu quarto. Não o vejo, e, para ser franco, não consigo precisar bem onde ele possa estar, mas oiço-o muito bem. Trata-se de um muito amável grilo que me tem vindo fazer companhia nestas noites de verão, mais ou menos quentes, frequentemente de paz por entre os dias. E, devo dizer, tem sido uma companhia muito agradável. É um daqueles toques de natureza que escolhemos ignorar nos recantos da cidade, porque, na realidade, por vezes é mesmo muito fácil de ignorar (no meu caso, o seu som confunde-se por vezes com a confusão da rua). Mas para além desse toque natural na minha existência diária, o meu pequeno companheiro relembra-me a minha idade de criança, em que ia com o meu pai a algum terreno, nos arredores de Leiria, apanhar grilos. Era uma aventura. Ia seguindo as suas pequenas caganitas até à entrada da sua toca. E depois, com o caule muito fino de uma pequena erva, invadia o seu espaço, rodando-a e fazendo-a avançar lentamente pelo buraco, para não magoar o bicho. Passado uns minutos, ele saia de forma mais ou menos rápida, tornando o ato de o apanhar algo que se estendia entre a calma, e um treino precoce de caminhada ou corrida, com um final mais ou menos conseguido. Num dia bom, regressava a casa imensamente feliz, com um pequeno grilo meio assustado dentro de uma caixa de fósforos vazia.

Sentindo-me sempre realizado, queria saber tudo sobre eles. Mas fazia-me confusão ter de o colocar numa gaiola…uma vez, assoberbado por uma miríade de pensamentos confusos sobre o direito à liberdade do pequeno Ser, abri a porta e deixei-o fugir. Fiquei profundamente feliz da vida, o mesmo não se podendo dizer do resto da minha família, que de forma apressada tentava encontrar o pequeno bicho. E assim, conformado com o facto de ele ter de ficar numa pequena gaiola de plástico, procurava que ele comesse bem, e de vez em quando colocava uma folha de alface, digamos, “ligeiramente” maior que a própria gaiola…tinha dias que o ouvia mas não o via, mas, ao mesmo tempo, estava tranquilo de que ele se alimentava bem.

Mas, como em tudo na vida, a liberdade nunca se prende…porque a liberdade, sendo presa, destrói-nos lentamente, não se condescendendo com as vitórias pífias e amorfas da rotina dos dias. E assim, os meus grilos tinham sempre o mesmo fim…morriam, normalmente debaixo de uma folha de alface meio comida. Acho que nunca consegui ultrapassar bem esses pequenos traumas, e talvez por causa disso nunca tive grandes animais de estimação. Ainda por cima, muitos anos depois, os pequenos peixinhos dourados que por vezes trazia para casa deixavam-me profundamente triste quando morriam…sabia-me bem interagir com eles, brincar com eles…as pequenas criaturas vivas são um imenso tesouro de humanidade…agora, tenho o meu Bonsai, resistente, bonito, e que me oferece muitas horas de paz, ao tratar dele…

E também, um grilo, alegremente cantando debaixo da minha janela, deixando-me também a mim um pouco mais alegre nas minhas noites.

Crédito da imagem: Infoescola

Praia em férias

Quando chego pelas 8:30 da manhã, já a praia se vai enchendo. Está calor, e por aquela hora parece emergir uma consciência coletiva de que ainda irá estar mais, algo que se vê por entre chapéus e famílias que debaixo deles vão experimentando a melhor posição para se protegerem do sol que já se vai fazendo presente. Vou caminhando pelo areal da parte central da praia, bravamente carregando a minha vastíssima coleção de conteúdos balneares. Uma toalha, um protetor solar, um telemóvel e um livro. Deverei dizer neste ponto que, embora vasta, não é das maiores…fico sempre reflexivo com a quantidade de coisas que as pessoas levam para a praia. Ainda mais do que os comportamentos, a quantidade de coisas avulsas e desnecessárias capta-me o olhar…mas não é um problema meu. Mesmo que pudesse ser, tenho uma real dificuldade em tentar perceber coisas que até certo ponto são comuns. Talvez pela minha visão muito particular da vida, acredito que o essencial é simplesmente isso. O essencial. E sou feliz na sabedoria que adquiro no essencial das coisas. O resto faz-me realmente muita confusão.

Mas a esta hora, já os barcos foram ao mar, e do mar já nos mostram o produto da sua faina, com a habitual multidão à sua volta. Para ser sincero, talvez seja o momento mais genuíno do dia…tenho um particular fascínio pela arte xávega e pelas suas gentes, que me ficou de criança e jovem, das imagens impressionantes de barcos a remos a entrar no mar, apenas com a força de braços de homens no seu interior e exterior, e uma estrutura de troncos cilíndricos. Na memória consigo igualmente encontrar as imagens das inúmeras vezes que em inúmeros verões ajudei a puxar as redes, naquele que era um trabalho de equipe entre pescadores e veraneantes. Aprendi muito sobre o mar nessa fase da minha vida, aumentando o meu fascínio por ele. Hoje em dia, os barcos já possuem motor, são assistidos na entrada para o mar por tratores, que depois puxam as redes. Ainda assim, cada barco continua a ser um ponto de encontro entre pais e filhos, e um ponto de união geracional onde algo ainda se pode aprender num certo sentido de comunhão com a natureza, pela natureza, e da interação que temos com ela. E estes momentos são cada vez mais fulcrais no nosso destino.

Mas vai sendo altura de partir. Desta vez a nortada não me empurra, e um invulgar vento de sul, mais quente, vai inundando a praia. Por entre os meus passos, numa caminhada díficil por entre uma beira-mar muito cavada e uma areia fina que torna tudo um pouco mais cansativo, ela vai ficando mais vazia, mais calma, bailando no vento aquele peculiar concerto energético entre o mar e terra, onde apenas as gaivotas bailam…hoje estão mais em terra, em bandos bastante numerosos, indicando alguma tempestade pelo mar alto. Vou caminhando até esta bandeira… Lentamente ela vai ficando maior, sinalizando uma nova meta para uma nova partida, onde as pegadas e as marcas se vão esbatendo no areal, até desaparecerem no horizonte.

Também eu irei desaparecer neste pedaço de manhã. Pois chegado a este lugar, sou apenas mais um ser vivo, peregrino da criação que me ergue na imensidão da paz. Cheguei a casa. É altura de continuar.

Crédito da imagem: Paulo Heleno