Boris, the menace

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Crédito: Getty Images

A vitória de Boris Johnson no escrutínio interno dos conservadores ingleses poderia não ser considerada uma tragédia se o bom senso, por uma vez em toda esta polémica do Brexit, saísse vencedor com a convocação imediata de eleições gerais. Mas a razão já não pára pelas terras da Velha Albion, e basicamente, iniciou-se esta semana o início de uma verdadeira sinfonia trágica chamada Reino Unido, que, mantendo-se a posição da Escócia, de se manter na UE como membro de pleno direito, terá os dias contados, fazendo com que a remanescente Inglaterra regrida a anos de crise, e de um clima de tensão na Irlanda do Norte.

Numa análise da votação realizada por Bernardo Pires de Lima (@Bernardo_PL) no seu twitter, votou 0,2% da população, 70% deles homens, com uma média de 55 anos, e 97% brancos. É mais uma vez a Inglaterra profunda, do countryside eminentemente agrícola e envelhecido, das pequenas cidades e dos vivas ao império nos pubs que define o futuro de todo um país, baseada na quimera de ilusões que ainda sobrevive na sua mente coletiva desde o referendo, muitas delas acerrimamente defendidas na altura por Boris. E mais uma vez a multiculturalidade londrina, a juventude, as academias ou o dinamismo económico do Northeast saem derrotados. Talvez realmente não haja lugar na UE para este Reino Unido, demasiado inglês para os valores e os desígnios que esperam a Europa nos anos e na década vindoura.

O gelo de Mogadouro

 

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Crédito: TSF

Não pretendendo ser um post extenso, devo dizer que esta foi uma semana em que se falou muito de alterações climáticas em Portugal…sem realmente se falar. Das areias na Costa da Caparica e o crescente domínio que o mar vai tendo sobre aquela zona, até à tempestade de granizo em Mogadouro, em pleno Julho, este foi um tema que pode ter estado no nosso subconsciente, mas  pouco ou nada emergiu que não a descrição dos eventos e das soluções conjunturais encontradas.

Numa realidade natural onde, no nosso âmbito regional, cada vez mais se vão sentindo os efeitos de fenómenos extremos, desde as tempestades (locais ou tropicais) aos incêndios florestais, passando por alterações bem visíveis no próprio clima, Portugal vai adiando um muito necessário debate interno sobre estas questões. Algo que, infelizmente, também assistimos no contexto europeu, onde a península ibérica, pelo facto de ser uma das zonas com maior desequilíbrio potencial, originado pelas alterações climáticas, não se assume como um dos pólos dinamizadores desta análise europeia. Certo é que até 2050, e com maior incidência no período posterior, Portugal pode sentir o impacto das alterações climáticas em setores de importância estratégica da economia, desde o turismo até à agricultura, florestas e pescas (bem como respetivas cadeias de abastecimento e unidades transformadoras associadas), para já não falar nos possíveis impactos nas populações motivados por uma progressiva desertificação da região sul do país e de alterações nos aglomerados costeiros.

Exige-se uma preparação estrutural, assente nos atuais modelos científicos sobre este tema e numa correspondente visão estrutural a prazo da sociedade e economia, seja no contexto nacional ou europeu. Este é, numa visão macro, também uma questão geracional. Os dados presentes apontam para que os nossos filhos e netos herdem um mundo, um continente europeu, e uma península ibérica, muito diferentes das atuais, mais exigentes nos desafios colocados aos seus habitantes. É inquestionável a responsabilidade das gerações anteriores no cenário que irão encontrar…mas essas mesmas gerações anteriores podem iniciar a preparação um futuro que será inevitavelmente de muitas mudanças, numa visão assente numa abordagem sustentada e de união face a este desafio, olhando o planeta de uma forma diferente, talvez mais interior, deixando emergir uma nova forma de buscar e viver a felicidade. Serão eles. os nossos filhos e netos a avaliar o nosso esforço perante as suas necessidades.

#bauhaus100

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação

O primeiro post de 2019 atravessa o tempo e a história. E faz este percurso para me associar às comemorações do nascimento da escola e do movimento Bauhaus, na Alemanha. Com efeito, foi em 1919 que o arquiteto Walter Gropius lançou a Staatliches Bauhaus (conhecida vulgarmente apenas por Bauhaus). Na mente de Gropius, o edifício devia voltar a ser o centro da produção artística, tal como na antiguidade, e deveria existir uma aproximação clara entre os artesãos e os artistas, derrubando as barreiras de classe que existiam entre estas duas atividades. Por outro lado, a criação decorrente dessa união deveria levar em linha de conta a industrialização crescente, já vivida na época, devendo essa criação artística ser orientada pela funcionalidade, dando lugar à forma, e à facilidade de produção industrial. Apesar de nos primeiros anos não existir um departamento de arquitetura, a Bauhaus lançou as sementes de um movimento modernista que teve repercussões em toda a Europa, não apenas nas diferentes disciplinas artísticas ministradas (onde o artesanato tinha uma presença fundamental, e onde reinava uma atmosfera de intenso fomento da criatividade) , mas igualmente no conceito de design de produto, lançando as bases da busca de funcionalidade na ótica do utilizador final,  assim como de estudos de materiais e técnicas associadas aos mesmos, com vista à produção industrial em série. Apesar da curta vida da Bauhaus, que se extingiu em 1933, devido à imensa pressão que o emergente partido Nazi (depois Governo) exerceu sobre as atividades e os princípios da escola, o legado da Bauhaus manteve-se como uma das referências primevas do modernismo artístico europeu do século XX nas áreas já referidas acima, aliada a uma revolução sobre o pensamento artístico e social vigente na época do seu fulgor.

Durante 2019, o Omnia irá dedicar especial atenção ao aniversário da Bauhaus. Vamos conhecer um pouco melhor a sua história, a sua realidade, as influências onde esteve presente, e as pessoas que participaram na edificação deste ideal moderno e progressista durante um dos períodos mais negros da história europeia, incluindo da arte. Vai igualkmente  existir alguma reflexão sobre como toda a existência da Bauhaus é um símbolo para os tempos modernos, uma referência a ter presente nos tempos modernos de futuro incerto.

Na imagem, da esquerda para a direita: Josef Albers, Marcel Breuer, Gunta Stolzl, Oskar Schlemmer, Wassily Kandinsky, Walter Gropius, Herbet Bayer, Lazslo Moholoy-Nagy, Hinnerk Scheper

 

Polónia sem história

Uma das recordações que retenho dos anos 80 foi a forma como Lech Walesa encabeçou a resistência polaca ao governo de Wojciech Jaruzelski, a partir do porto Lenine, em Gdansk, onde era eletricista de profissão e ativista sindical e líder do sindicato Solidariedade.

Lembro-me claramente de um homem enérgico, nunca escondendo a sua face, que rapidamente se tornou num símbolo em toda a Europa Ocidental, pela sua atitude perante um cenário de repressão violenta, exercida pelo regime. Uma luta que foi crucial para a realidade geopolítica naquela zona, tendo a sua conclusão sido um fator decisivo para uma afirmação da Polónia na Europa (da qual os frutos têm sido colhidos também nos anos recentes), mas igualmente fundamental no recuo da influência russa na região. Nessa altura, a situação no Bloco de Leste fazia parte do dia a dia, fosse das discussões de café ou das conversas de liceu. Vivia-se a política internacional com uma atitude bem mais globalizada do que a vivemos hoje, em plena era da globalização, não sendo incomum encontrar pessoas nas nossas relações com pensamento e conhecimento formados sobre estas temáticas. A Guerra Fria estava bem presente, e existia uma consciência global das dinâmicas da mesma.

Hoje, enquanto revia alguns tweets, chamou-me a atenção um que referia este artigo do Wall Street Journal, afirmando que o nome de Walesa vai desaparecendo da memória coletiva polaca por ação do atual governo, que em exemplos como o citado, frequentemente desvaloriza o papel do antigo sindicalista e presidente. De facto, tem-se assistido na Polónia e em todo o Grupo de Visegrado, a um revisionismo histórico sem precedentes, tentando afirmar um nova filosofia, de pendor mais nacionalista e para consumo imediato…se a UE tem dúvidas sobre o autoritarismo e o défice democrático destes regimes, deveria olhar para esta prática que lhes é muito comum na realidade global. Aliás, tendo sido Walesa um lutador não apenas contra os regimes pró-comunistas polacos, mas igualmente um defensor da entrada da Polónia na UE e na NATO (já na fase da sua presidência), dever-se-ia talvez refletir com alguma atenção sobre a evolução ideológica deste grupo de Visegrado num contexto da afirmação da Rússia na fronteira leste europeia.

São estas as consequências de, entre outras coisas, um crescente e generalizado desinteresse pela história…todo o emergir do movimento populista e fascista na Europa nada mais é do que o reflexo de uma sociedade que vai hipotecando a sua identidade, o conhecimento do seu caminho enquanto povo por entre alguns dos momentos mais negros vividos no continente europeu, a um discurso sem passado, ancorado em futuros incertos que mudam ao sabor das conveniências geopolíticas e económicas…no presente, estes movimentos vão, paulatinamente, chegando ao poder, institucionalizando esse revisionismo, e passando-o à população na forma de uma mensagem demagógica mas muito ativa, de satisfação de necessidades rápidas de mudança, exigidas a partir de uma profunda desilusão que marca o ideal europeu desde a crise económica de 2008. No caso da Polónia, é evidente uma ligação da política à força que a religião mantém no país, procurando um bloco único de interesses que se alimenta a si mesmo.

Os resultados? talvez a história nos possa dar algumas pistas. Mas poucos são os que parecem dispostos a ouvir as lições do passado…

Crédito da imagem: FRANK PERRY/AFP/Getty Images)

Aylan

Passaram 3 anos, desde que o corpo de Aylan Kurdi deu à costa numa praia da costa turca. Desde essa altura, 600 crianças deram à costa, só nessas mesmas praias…os barcos de emigrantes continuam a cruzar o mediterrâneo. Apesar do conflito entre a Etiópia e a Eritreia ter sido debelado após 20 anos, as más condições de vida na generalidade do continente africano, o recrudescer de um conflito nunca terminada na Líbia, e a incerteza imensa que se vive na Síria e em todo o Médio Oriente faz com que as pessoas continuem a sentir uma necessidade extrema, obrigatória, de buscar a segurança e uma vida melhor para si e para os seus filhos, com as redes ilegais a terem uma ação mais abrangente, chegando às costas espanholas. No meio de tudo isto, a falta de uma resposta rápida da Europa, que literalmente abandonou a Itália e a Grécia à sua sorte no recolhimento inicial destes refugiados, colocou-a a jeito de ser “flanqueada” pelos membros do Grupo de Visegrado e de uma Itália recém rendida eleitoralmente ao populismo, que forçam umas das principais feridas desta União Europeia moderna, a tomada de decisões de política externa criteriosas, em conjunto, ainda para mais mergulhada no Brexit e no emergir de uma tendência populista internacional.

Entretanto, Aylan continua a ser uma das bandeiras mais trágicas de uma humanidade que recusa a sua história para se dirigir a lado nenhum… milhares de anos de movimentos migratórios, com os quais sempre tivemos de lidar, e com os quais naturalmente se construiu muito do desenvolvimento que temos no presente; esvaem-se numa era onde a afirmação de um poder alternativo, nos faz lembrar outros períodos históricos, de muito má memória coletiva…

Aylan é a história que não nos deve fazer esquecer a História.

Crédito da imagem: Nilufer Demir/REUTERS