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Travelling with Miles

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

Um dia na América

Uma das principais práticas que tenho neste tipo de acontecimentos é o não promover qualquer tipo de comentário imediato. Sempre me pareceu a postura mais correta a ter, por entre notícias desencontradas, jogos de informação e contra-informação, aumento de fluxo nas redes sociais. Isto não invalida que logo não possam surgir algumas ideias sobre o sucedido, nomeadamente decorrentes do que ações deste tipo podem significar na visão mais global do que as contextualiza.

Faltam cerca de duas semanas para as eleições intercalares, e sobre elas muito haverá para escrever, tendo os acontecimentos deste dia um espaço nessa reflexão. Mas parecendo ser um ato de terrorismo doméstico, convém que não nos esqueçamos de algumas notas…este tipo de terrorismo interno é uma realidade nos EUA, apesar de não muito noticiado no exterior. Ele expande-se desde um conjunto de milícias de direita, espalhadas por todo o território, até movimentos políticos mais radicais, dentro ou fora da esfera do partido republicano, e passando por lobos solitários, gangs de cariz mais violento e criminoso, etc. Toda esta “galáxia” encontrou em Trump a imagem quase perfeita de uma legitimização da sua existência, por um lado…por outro, a retórica presidencial agressiva é, para alguns ideólogos mais radicais, nada mais do que a porta para a assimilação institucional de algumas das suas ideias (embora talvez não na amplitude que desejariam, por enquanto…). Neste enquadramento, este tipo de eventos podem começar a ser normais, especialmente em períodos eleitorais…num ambiente de permanente conflito retórico, ao mais alto nível, que inevitavelmente cria um clima de tensão sobre uma sociedade de feridas abertas (e algumas antigas), a insistência numa colagem a assuntos fraturantes, direcionados com frequência em ataques ao partido, figuras e apoiantes democratas (bem como à imprensa liberal e imigração) estimula a ação de movimentos radicais que desejam mostrar que estão vivos (o que lhes permite angariar mais membros), passando ao mesmo tempo a mensagem de que Trump lhes interessa; ou de lobos solitários, manifestando o seu apoio por via de intervenção prática no terreno, que observam como oportunidades únicas de agir. Em tudo isto, não nos podemos esquecer da forma como Trump tem lidado com instituições como o FBI, particularmente odiadas por estes movimentos ou pessoas, como símbolos de uma autoridade opressora.

Mas ainda existe muita poeira pelo ar. É necessário tempo para que esta assente… esperemos então  pelas eleições intercalares.

Crédito da imagem: Washington Post

Nobel da Paz 2018

Há muito que já não escrevia sobre atualidade. Tinha voltado a colocar este assunto no pipeline de escrita para esta semana, mas confesso que nenhuma das hipóteses em cima da mesa me despertava interesse…até que ontem, durante o almoço em Campo Maior, vi nas televisões os laureados do Nobel da Paz de 2018, e fiquei de imediato, profundamente feliz. E é também essa felicidade que hoje me faz escrever sobre isso, numa genuína vontade de partilhar duas excelentes escolhas.

O Comité Nobel apostou, em minha opinião, claramente numa fórmula que mostra um acompanhamento das dinâmicas globais no que concerne ao abuso das mulheres, numa visão integral desses abusos. Independentemente de uma relação mais ou menos direta, existe uma visão de conjunto entre a vítima como símbolo maior do sofrimento real dureza dos conflitos mundiais, e que emergem das suas cinzas como focos de uma luta glocal, também parte da sua própria catarse interior; e as pessoas que desenvolvem um trabalho de intervenção social em grupos específicos, muitas vezes incluindo estas vítimas, também muitas vezes na dura realidade do terreno. Um trabalho por vezes não muito mediático, mas que é fundamental na intervenção junto destas vítimas. Tudo isto evitando relações diretas, o que torna esta visão ainda mais global, abrindo-nos ainda mais a consciência disso mesmo.  Neste caso particular de 2018, aborda-se claramente a violência sexual nos conflitos, frequentemente pensada como estratégia de eliminação do outro e da sua cultura, de todos os alicerces que o sustentam, largada de forma incontrolável nos campos de batalha. Assim, temos a entrega do Nobel a Nadia Murad, uma mulher Yazidi que durante 2014 foi escravizada sexualmente de várias formas, para além do tráfico humano e da servidão forçada a que foi sujeita, após a ocupação e destruição da sua aldeia. Ela é o rosto um das 3000 mulheres das comunidades Yazidi, que foram igualmente vítimas da verdadeira tortura por que passou Nadia, após o assassinato em massa dos seus maridos e namorados. Depois da sua fuga a este cativeiro, partilhou não apenas a sua história pessoal, mas igualmente o retrato das humilhações destas comunidades Yazidi, dando a conhecer ao mundo o sofrimento de todo um povo, frequentemente esquecido. Com o Nobel de Nadia, é premiado ainda com mais ênfase a forma como estas pessoas reagem (como já deixei implícito acima), uma vez que aqui a vergonha da vítima tem uma importância maior. Quanto a Denis Mukwege, o seu trabalho é talvez menos conhecido do público em geral, apesar do seu nome já ter sido referido muitas vezes como um potencial laureado… estamos a falar de um homem que trabalhou (e trabalha) de forma ativa na recuperação física e emocional de mulheres violadas em ambiente de conflito, com ações de profunda abnegação pessoal no âmbito das violações em massa levadas a cabo na guerra civil do Congo, onde cuidou de milhares de mulheres, numa maternidade fundada por si, e posteriormente transformada naquela que é talvez uma das unidades mais especializadas em todo o mundo para este efeito, e que fornece um modelo experiente e altamente funcional para o surgimento de outras unidades do género. Temos então aqui, muito bem definidas, as duas partes da visão que explanei um pouco mais acima.

Ambos mais que merecem este prémio Nobel, que ao mesmo tempo transporta consigo uma nota que me parece não ser inocente. Em primeiro lugar, porque surge exatamente um ano depois do início do caso Weinstein, e em segundo lugar, porque surge no mesmo dia das manifestações contra a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA, e que levaram a algumas detenções de manifestantes que se opunham a essa mesma nomeação. Mas se analisarmos a resposta de Berit Reiss Andersen a uma pergunta que visava perceber a relação do movimento Me Too com estas nomeações, consegue-se perceber uma mensagem que é importante, e que marca uma tentativa de separar as águas por parte do Comité Nobel. Diz a chairman do Comité Nobel que “I believe that #MeToo and war crimes aren’t quite the same thing…What they do have in common is that it is important to see the suffering of women, to see the abuses.” Sinto nestas palavras uma ideia de que o movimento Me Too é visto pelo Comité Nobel como algo importante na denúncia dos abusos sobre as mulheres, mas falta-lhe a visão global desses abusos, que vão muito mais longe do que as (mais que justas) lutas onde o movimento é mais visível, principalmente nas sociedades ocidentais, e onde por vezes pontifica alguma irracionalidade. Em meu entender, não deixa de se encontrar aqui um apelo ao amadurecimento do movimento. Com um Me Too mais maduro, e mais consciente da realidade global das mulheres, talvez esta separação não fosse necessária…cabe ao movimento Me Too fazer essa escolha.

Crédito da imagem: Alagoas 24 horas