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Dia do cuidador informal

Celebra-se hoje o dia do cuidador informal. Volto a publicar aqui o podcast que fiz sobre este tema, deixando aqui mais uma vez a ligação para o site da Associação Nacional de Cuidadores Informais. Num período de discussão do Orçamento de Estado para 2019, esta é uma boa altura para todos, enquanto sociedade, nos lembrarmos das dificuldades por que passam estas pessoas na sua entrega ao próximo, pontualmente, e de forma escassa ajudadas de forma exígua pelo Estado, seja em apoios monetários ou apoios nos cuidados de saúde, não apenas para quem é cuidado, mas igualmente para quem cuida (apesar de, neste último caso, existirem alguns casos interessantes em termos da atividade de algumas unidades de saúde).

Falo de pessoas que, numa esmagadora maioria, abdicam da sua vida profissional (e mesmo pessoal) para se dedicarem a ascendentes ou descendentes com doenças crónicas graves ou deficiências, caindo com frequência na pobreza ou, pelo menos, em profundas dificuldades de subsistência, sem emprego, e dependendo da solidariedade para com elas, e para as pessoas ao seu cuidado. Urge que o Estado assuma as suas responsabilidades no apoio a estas pessoas, e que a sociedade civil também veja o problema de uma forma mais integrada, nas organizações locais, nas empresas, nas iniciativas privadas de solidariedade…necessitamos de caminhar para um novo paradigma de cuidados de saúde para enfrentar esta realidade cada vez mais presente, e que um dia, pode vir a ser a realidade de qualquer um de nós.

Crédito da imagem: DN (Reportagem sobre cuidadores informais)

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CEP

Homenagear condignamente a presença do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial é um acerto de contas com a história de Portugal, e do estado português para com cerca de 55.000 soldados que pariram, mal equipados e preparados, para um dos mais violentos conflitos na história humana recente, um ponto de viragem na estratégia e procedimentos militares que fizeram dele um dos mais mortíferos. Também compreendo que na homenagem exista uma componente militar, através de um grande desfile (penso que um dos maiores em democracia). Afinal estes homens eram militares ao serviço de Portugal, e nesse papel cumpriram a sua (ingrata) missão…é normal e justificado que os seus pares na atualidade desejem esta homenagem…contudo, acho que estas datas, estes momentos, são muito esquecidas na população em geral, por entre uma geração desinteressadas das mesmas, e outra que delas vai perdendo a memória /sendo que por vezes estas duas características se confundem por entre gerações. E neste caso em particular do Corpo Expedicionário Português,já não existem uma testemunhas vivas dos acontecimentos, perdendo-se quase na totalidade o relato das vivências na primeira pessoa.

Temos um excedente de celebrações destes momentos, com um foco excessivo no protocolo, na normalidade pacífica do status quo, na cerimónia, já não falando na oportunidade que estas situações proporcionam para marcar, ou entrar na agenda política. Precisamos de mais conhecimento, espalhado pelo país, através de uma visão integrada entre a educação, a sociedade civil  e a cultura, entre a escola, os núcleos e as associações da sociedade civil que existem por todo este país (não esquecendo em certos casos os familiares das pessoas) e a rede museológica (não esquecendo a investigação universitária). O património histórico deixado pelos homens do CEP, e que muitas outras pessoas em muitos outros atos deixaram, tem de ser algo que se renova e evolui no querer saber mais sobre o que nos construiu enquanto país, e que pode ajudar na formação de pessoas com uma superior cultura cívica, e mais interventivas na cidadania. Algo que o país tanto necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

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Censored Mapplethorpe

Não vale a pena fazer um grande esforço para suavizar palavras que caracterizem o que alegadamente aconteceu em Serralves, com a tão aguardada exposição de fotografia de Robert Mapplethorpe. Se existiu retirada de fotografias nos dias imediatamente anteriores ao evento, indo para além dos normais avisos face à natureza explícita da exposição, ou até de uma já muito questionável sala específica para algumas fotografias (apesar de, particularmente, desejar que essas fotografias pudessem ser vistas em espaço aberto, por todos, incluindo os mais jovens quando acompanhados dos pais), então, estamos perante um ato de censura.

Esta é uma situação que atinge uma dimensão mais ampla em virtude de estarmos a falar de Serralves, um espaço que desde o início se apresentou ao Porto e ao país como um foco de harmonia entre a arte exibida e as vivências culturais, muito vastas, que a globalidade do espaço oferecia. E isso seria importante num país em que a arte é frequentemente desvalorizada, satisfazendo muitas vezes apenas meras necessidades de afirmação social numa sociedade onde googlar conhecimento substituiu o pensar e viver conhecimento, com consequências nefastas nas dinâmicas não apenas de educação cultural formal, mas igualmente no estímulo não apenas dos jovens, mas da população em geral, para a apreciação da cultura como fruto do nosso próprio desenvolvimento interior, motor da nossa ação diária num mundo que cada vez mais se quer diferente, para o bem de todos. Depois da demissão de João Ribas do cargo que desempenhava, esperam-se esclarecimentos, e rápidos, da administração da Fundação de Serralves face a este caso. É preciso conhecer exatamente o que realmente aconteceu. O trabalho de Mapplethorpe toca pontos que na sociedade portuguesa não apenas ainda são tabu, como estão sempre reféns de um certo puritanismo baixo, escondido, mas infelizmente muito funcional, reagindo com incapacidade e receio à visão da arte como pólo de reflexão construtivo (e muitas vezes alternativo) de que o país necessita muito, em troco da manutenção de um status quo de ignorância sobre estas questões. Muitos artistas têm a experiência desse puritanismo quando tentam expor/apresentar as suas criações. Seria triste se viéssemos a comprovar que os motivos do que aconteceu apenas assentaram na necessidade de calar a voz das imagens de Mapplethorpe, que nos tocam em feridas abertas do nosso tecido social, resultando numa sociedade que ainda hoje esconde o que nunca soube admitir e abordar.

E aí, o estado português, que é fundador e um dos principais financiadores de Serralves, deve atuar.

Crédito da imagem: Robert Mapplethorpe Foundation