Quo vadis TV?

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Crédito da imagem: Miguel Baltazar

As coisas não vão bem na televisão em Portugal…desta feita, o anátema da desconfiança irrompeu ali para os lados da TVI…depois da confirmação da existência de provas periciais, que atestam a falsidade de alguns testemunhos relativos às reportagens sobre o caso das adoções fraudulentas pela IURD, surgiu agora no Twitter um vídeo com uma reação coletiva de vários pais face a uma reportagem da mesma estação, relativa a alegadas intimidades entre crianças de 3 e 4 anos, numa escola de Lisboa. No vídeo percebe-se de forma clara que o sentimento geral é de defesa da escola. Poderá eventualmente dar-se o benefício da dúvida, embora estejamos a falar de algumas dezenas de pais numa posição coletiva…ou estamos perante um grau de negligência que extravasa a escola, ou realmente poderá existir aqui mais uma polémica.

Existe uma razão para colocar esta fotografia, “televisionamente” inócua. É que, na minha visão, estamos perante um problema transversal, centrado na forma como as televisões inundam diariamente o quotidiano com o lado prático de estratégias centradas sensacionalismo, orientadas por um círculo vicioso entre conquista de share, para obter mais receitas de publicidade, que resultem em mais share. Pelo meio, esta dinâmica alimenta uma cultura baseada na aparência e no ilusório, cativando as pessoas numa sociedade como a portuguesa, onde os sonhos e as esperanças andam por vezes ao nível dos passeios… acresce a este facto que esta é uma estratégia que tem as redes sociais como um dos seus pilares, numa conjunção que não foi de toda feita no céu, como se constata pelo ambiente muito pouco celestial que tudo isto gera, numa base diária. Continuar a ler

Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Brasil – eleições 2018

Amanhã, o Brasil escolherá o seu destino, com meio mundo a observar, preocupado. Eu incluído. Dos quase seis meses que passei num país onde fui muito bem recebido por todos, guardo na memória um povo ausente da esperança que normalmente qualquer ato político contém. Um povo sem esperança num país que lentamente se ia afundando num pântano político.

Por um lado o PT aposto na carta de Lula da Silva até demasiado tarde, numa luta apresentada ao povo um pouco como a mãe de todas lutas pela derradeira oportunidade de um Brasil melhor. Com essa luta política, surge então um polido, mas não consensual Fernando Haddad, que ainda assim passou mais tempo a tentar manter Lula na corrida através dele, do que em lutar per se. Por outro lado, a crise no PT levantou uma onda de confiança no centro político brasileiro. Estou convencido que um hábil candidato único nesta zona política ganharia estas eleições…contudo, a confiança foi tanta que o centro político dividiu-se, com cada um dos candidatos que representa esse círculo a achar que podia capitalizar a luta quixotesca do PT. Esse foi um erro que o centro pagará caro, ao ser (parece-me) para já, o primeiro perdedor político em conjunto…de tudo isto emerge Bolsonaro, com um discurso mobilizador, aproveitando a falta de fé de um povo que ao mesmo tempo se traduzia na abertura a uma solução extremista, de rutura, ou até da tomada de controlo pelo exército, algo que o povo via como uma possível solução. Apoiado pela IURD, Bolsonaro soube adaptar o seu discurso a essa desilusão, captando a ala direita do centro e unindo-a ao velho Brasil das elites que desejam voltar ao poder, construindo uma atmosfera de esperança artificial, que poderá dar aos brasileiros o que eles pensam que querem, baseado em forças que são omnipresentes no dia-a-dia, como o racismo, ou a visão negativa do pobre como um dos fulcros de situações, por exemplo, como a insegurança. O atentado que sofreu foi muito bem capitalizado nesse sentido, quase que juntando Bolsonaro ao povo, fundindo-os no seu sofrimento. Foi, de facto, um atentado muito conveniente, em termos de posicionamento na disputa.

Com elevada probabilidade, pelo que se pode ver das sondagens, Bolsonaro passará à segunda fase com um Haddad que consegue fazer ao centro político aquilo que o centro político não lhe conseguiu fazer. Mas as perspetivas não são boas. Logo à partida porque os dois candidatos escolheram “vices” ainda mais radicais que eles, nas suas áreas…no Brasil diz-se (em jeito de brincadeira, ou talvez não) que um impeachement a qualquer um dos dois homens seria impensável, pois o seu vice seria ainda pior. Este facto prejudica irremediavelmente as negociações que já se vão fazendo para um congresso brasileiro que se prevê dividido…a visão alternativa é que as torna um pouco mais tenebrosa…Haddad tenta negociar com os partidos do centro que tentaram destruir o PT (estas coisas no Brasil não se esquecem), ao mesmo tempo que vai ter de gerir a questão do posicionamento perante a libertação de Lula…enquanto isso, do lado de Bolsonaro, Edir Macedo saberá melhor que Deus por que caminhos o candidato se vai virando, mas já é conhecida a falta de grandes reservas morais quando se tenta conquistar algo. E para além disto, Bolsonaro tem sempre uma saída que Haddad nunca ousaria ter: o caminho ditatorial, que é perfeitamente possível de acontecer.

Mas lá chegaremos à segunda volta, quando esta acontecer…se algo aprendi no Brasil é que o melhor mesmo é acompanhar o país dia a dia. O que hoje é certo, amanhã pode ser ainda mais certo…o que pode não interessar a muita gente que pode tornar o certo em algo impossível de acontecer. Ainda assim, os cenários, independentemente dos resultados não serão nada bons. Agora é necessário observar, passo a passo, o que vai acontecer amanhã, na primeira volta. Depois, voltarei a este tema.

A parte essencial

O que fica após ver A Parte Essencial, uma curta metragem portuguesa de 2012é uma sensação de intimismo muito nítida, que persiste numa identificação clara com os testemunhos apresentados…numa base de animação bem conseguida em termos de visão do filme, o testemunho de pessoas que passaram pela experiência da leucemia interage com os testemunhos de pessoas que assumem o papel de dadores de medula, numa mensagem pessoal e equilibrada. Aqui sentimos um discurso íntimo, sem chavões, onde ideias como o recomeço, a esperança, a necessidade de mudar, viver, transformar, num aproveitamento diferente do tempo que temos e das relações que vivemos, é base comum. Encontramos esta dicotomia na relação entre os testemunhos, contextualizados visualmente por fotografias das próprias pessoas, numa montagem simples mas bem conseguida, e a animação de cenários tristes, secos, desolados, com alguma referência à construção de algo que rapidamente se vai…um retrato muito interessante, mesmo em termos da forma como na sociedade vivemos até a abordagem e a discussão destas situações, quase sempre envolvidas num embrulho de plástico numa pseudo nova era que de facto, não existe enquanto coletivo.

Sinceramente gostei. Uma mensagem muito positiva sobre a vida, a doença, o Ser e o Sentir, num conceito visual muito simples, mas igualmente muito leve.

Crédito da Imagem: Desconhecido. Solicito informação

Em busca do Luís

Tenho acompanhado com apreensão as buscas pelo Luís Grilo. Ao mesmo tempo, lembro-me dos tempos em que fazia Trail Running, e das muitas vezes que treinava só, no isolamento da Serra D’Aire, da sua natureza ou das suas povoações dispersas. Era o tipo de treino que gostava mais de fazer…apesar de ser importante o treino coletivo, com as dinâmicas de grupo em termos de ritmos, solidariedade, etc, era sozinho, na paz da natureza, usufruindo da energia do natural, do silêncio, do foco no momento.

Não vou de todo colaborar para o manancial de especulações mais ou menos justificadas sobre o que possa ter acontecido ao Luís Grilo. Poderá ter sido alvo de uma intervenção de terceiros, por via de assalto ou outra, ou pode ter sido um acidente de treino motivado por muitos fatores…se é certo que os atletas de competição ou amadores que levam o desporto mais a sério preferem percursos bem conhecidos que lhes permitem focar na performance e na sua medição, reduzindo preocupações periféricas, também é certo que quem treina individualmente detém uma possibilidade de gestão quase infinita do treino, e, em linha com a experiência, pode induzir um número elevado de variações no mesmo. Nunca tendo sido atleta de competição ou amador mais sério, mas tendo sempre gostado de planeamento e gestão, nos meus dias de treinos em serra, tinha um percurso bem definido e balizado no tempo, após a análise de uma série longa de treinos que me permitia saber exatamente em que zona estaria a certo ponto, com certa condição. Certo é que algumas vezes introduzia variações no percurso por decisão momentânea, face a condicionalismos físicos, vontade de um desafio, alterações rápidas na meteorologia, etc. E se por vezes corria bem, outras não era isento de sustos, pois algumas vezes o menor conhecimento dos percursos alternativos trazia alguma surpresas.

Do pouco que vou sabendo pela imprensa, parece-me  estranho o abandono do telemóvel. No caso dos triatletas, apenas na água ele não pode ser usado, mas num treino em estrada (seja de corrida ou de bicicleta), é um dos acessórios fundamentais, nomeadamente para um contacto rápido em caso de dificuldades. Se bem que por vezes também seja utilizado na marcação da rota, acredito que o Luís, como todos os atletas que de competição levasse consigo um relógio desportivo. Mas é um facto estranho, e preocupante, o facto de o telemóvel ter sido descartado…à partida não existe uma causa lógica para tal ter acontecido, que não o de uma queda acidental de um bolso, sem o atleta dar conta.

Apesar dos sinais, continuo com esperança, e, de coração, desejo apenas o melhor para o desfecho desta situação. Não contem comigo para criticar quem, neste momento, não se encontra apto para se defender…depois de quatro anos de Trail Running, e agora já com dois mais voltado para o Hiking, aprendi o suficiente para saber que muitas vezes as pessoas não sabem o que dizem, e dizem o que não sabem…não será um defeito das pessoas… talvez seja mais feitio de uma sociedade construída numa estrutura “googlada”. Além disso, neste tipo de andanças, bem válida continua a velha máxima popular “só quem lá anda é que sabe…”. E normalmente, aprender com possíveis falhas faz parte dessa sabedoria.

Crédito da imagem: Aline Correia