Ainda a rádio na Guiné

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Crédito: Conexão Lusófona / África Turismo

Ontem, ao regressar a Leiria, voltei a ouvir na TSF esta reportagem sobre a implantação da rádio na Guiné-Bissau, sobre a qual já tinha escrito brevemente aqui. E regressou o  mesmo sentimento de uma profunda humanidade, e da simplicidade que assume quando desprovida da noite que algumas vezes rodeia o seu progresso…voltei a emocionar-me com a “Mãe da Rádio”, que não sendo uma pessoa de posses, disponibilizou 1000 francos da sua pobreza a um jornalista para que comprasse canetas para continuar a escrever notícias…ou do jornalista que afirma que, estar preso pela sua luta em relação à liberdade de ser e fazer rádio, foi dos períodos “mais lindos” da sua vida, ao sentir o calor da população, e a união nessa luta.

África, com as suas histórias que atravessam espaço e tempo, continua-nos a ensinar caminhos e passos na caminhada, devolvendo-nos o sentido do existir, e de nessa existência viver também em espontaneidade e de partilha. E isso, faz-nos muita falta nos tempos que correm.

Histórias em luz

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Crédito da imagem: Paulo heleno

Na impossibilidade de colocar fotografias de todas as pessoas bonitas com quem convivi no passado sábado, fica a imagem do local onde a Nuvem Vitória esteve instalada, mesmo à entrada da Feira do Livro. Apesar de ter sido um dia fisicamente difícil, foi interiormente um dia de horizontes límpidos, nos sorrisos e olhares de todas as pessoas que ali deram um pouco do seu tempo para contar histórias bonitas que em muitas noites são partilhadas cada vez mais, por mais regiões do nosso país, iluminando um pouco mais crianças e jovens que se encontram em meio hospitalar; e também, obviamente, nos olhos e sorrisos pequeninos que inundaram de alegria um dia que se banhou sempre em muita luz…dragões, bruxas, ursinhos, avozinhas, vacas que subiam a árvores e meninos que comiam livros…é bom deixar a fantasia inundar-nos em alegria, maravilhando a nossa criança interior, e deixando-a correr livre por dias presentes e futuros, convergindo sem tempo nem espaço no brilho do sentir do próximo.

Somos o que escolhemos evoluir, e evoluímos no que desejamos escolher.

Muito grato a todos.

 

Simples…

A vida é simples. Simples no viver dos bons momentos, daqueles que não se partilham nas redes sociais, porque realmente não se têm de partilhar. Alimentam-se da energia do final dos dias, quando as pessoas ainda não desejam ir para casa, porque ainda existe uma busca a fazer. Em si, no próximo ou num qualquer local…não é muito relevante, até se sentir que se está no momento certo, com as pessoas certas, no lugar certo, e que toda essa vibração foi surgindo na semana, no tempo que simplesmente passa. E assim, por entre a confusão da cidade ou pelos caminhos que dela sai, conduzimos o nosso sentir até aquele ponto no espaço e no tempo onde apenas o essencial permanece num bom prato de deliciosas iguarias, e na conversa que se explana tão fresca e intensa como a imperial que está à tua frente, e que tu já não te lembravas de saborear com tanto prazer.

A vida é simples. É realmente muito simples…não interessa complicar.

Crédito da imagem: Schoolswork UK

Omnia in micro – 10

“A energia para o dia que nasce tem sempre a sua origem no desgaste do dia anterior…” escreveu ela enquanto o chá vagueava pelo quarto em aroma de menta…”entre eles”, continuou, “existe uma noite plena de luz, um silêncio pleno da voz do teu sentir, um vazio que se expande no teu Ser, repleto do que em ti existe para ofertares a ti mesma.”

Parou para refletir um pouco, olhando a janela entreaberta na noite…

“Assim”, concluiu, “quando dormes apenas deixas de existir, por entre a fina cortina do descanso. Tornas-te tempo sem espaço, por entre o pleno do vazio que desponta no brilhar da luz, na paz da voz, no que em ti se renova para renasceres de novo no sol de um dia que amanhece”

Sorriu e lentamente fechou os olhos. No dia seguinte, motivada pela insistência de quem a procurava, a polícia entrou na casa, encontrando-a sem vida na sua cama. Na sua face serena, ia-se erguendo o sol da manhã. Partiu só, como sempre viveu: repleta de si.

Major Tom

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Crédito: SpaceX

Como todo o mundo, assisti com um misto de admiração e alegria ao lançamento do Falcon Heavy. Numa ótica mais pessoal, juntou-se a este sentimento um certo revivalismo de alguém que sempre gostou muito de astronomia e da ciência astronáutica, e que sentia, desde o final da guerra fria e de alguns lançamentos ocasionais, falta desse imaginário infanto-juvenil, relacionado com a exploração espacial, preso num certo cinzentismo de uma rotina automática e circular em que a mesma se foi tornando. Não que ela não nos trouxesse a magia de cada vez melhor conhecermos a nossa real dimensão no universo (assim como a real consciência da mesma) mas…faltava algo.

Com o Falcon Heavy, a magia da exploração espacial renasceu. E por entre um ambiente geopolítico que evoca a dinâmica de blocos da guerra fria, onde nasceu e se desenvolveu num imemorial primeiro capítulo, renasce simbolizada do eterno Major Tom, o ícone da canção de Bowie…sim, oficialmente chama-se Starman, mas prefiro pensar que é o Major Tom que navega no espaço, transportando em si toda uma nova iconografia baseada no homem em vez do estado, na humanidade em vez do grupo, na conexão em vez dos conectados…a sua nave espacial já não é um símbolo de uma competição, mas de um engenho que mais que a visão de engenho humano e social de Elon Musk, transporta para o espaço o nome de um dos maiores génios que a humanidade, em toda a sua história, alguma vez conheceu, unidos por uma visão diferente, e alternativa do ser humano…Musk ao nível mundo, Tesla ao nível da eternidade.

Voltando à visão pessoal, o Falcon Heavy é também um símbolo de solidão, não com o significado mercantilista dos dias que correm, mas com a capacidade de interiormente discernir o que de mais vasto existe em nós, independentemente da distância e libertos dos grilhões do tempo…de que ainda vale a pena pensar o mundo e a humanidade no contexto da sua história, das lições aprendidas e dos horizontes alcançados por entre as pregas do espaço-tempo. Não sei se o Major Tom pensa nestas coisas no seu caminho para Marte. Gosto de pensar que sim, e de acreditar que quem nos guia pelo espaço nos mostra, de uma forma nova, o universo que todos nós vemos, o universo que desde sempre vive em nós.