Outono

Ao contrário da maioria das pessoas, não me sinto cair numa tristeza algo anunciada na transição para o outono. Se o verão normalmente significa calor, o desfrute dos dias de luminosidade intensa que nos abre ao azul do mar, banhando a nossa praia interior; o outono traz-nos uma palete de cores que nos alimenta a alma pelas longas caminhadas em que o vermelho e o amarelo sobressaem num céu mais ou menos azul, mas sempre enquadrando esta tão invulgar palete.  Se no verão desfruto da energia positiva que me rodeia, e que emerge de um extravasar de energia de um certo libertar interior, o outono traz-me, por contraponto de equilíbrio, o recolhimento e a contemplação introspetiva da natureza por entre finais de tarde envoltos em tons dourados, por vezes entre os meus livros, apreciando de forma mais tranquila locais que no verão são literalmente inacessíveis dado ao volume de pessoas que os visitam ou frequentam. É igualmente a altura de me perder um pouco na montanha, ou nas praias que, já vazias, continuam a chamar quem nelas sempre se renova…

Bem-vindo Outono. Obrigado pela tua companhia sempre amiga.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Destralhar

Adotei carinhosamente este termo: “destralhar”. Li-o num site sobre minimalismo, e fiquei literalmente apaixonado pela fonética e pelo ímpeto que coloca na necessidade de por vezes redefinir o espaço em nossa volta, face ao que desejamos no nosso bem-estar, algo muito ligado também ao que designamos por limpeza interior, pela forma como na ausência do que sai, nascem os horizontes do que fica. Se o termo “tralha” tem força na dimensão da quantidade de coisas que nos cercam, o “destralhe” tem exatamente a força oposta. É um termo delicioso.

Todos os anos faço uma arrumação geral no meu espaço. Acredito que o que guardamos encerra igualmente em si a energia de momentos, positivos ou negativos, que se tornam parte do nosso sentir diário. É uma energia que, mesmo que positiva, nos desenquadra entre o tempo presente e o tempo desses objetos, prendendo-nos em lembranças e recordações que nos fazem por vezes não dar os passos que deveríamos. Sendo negativa, prende-nos a nós mesmos, na prisão do que eles significaram de negativo no nosso caminhar. Este ano para além do que normalmente costumo fazer, lancei-me aos livros. Mais de 60 livros saíram das minhas prateleiras. Alguns, já os possuo em versão eletrónica, enquanto outros apenas passaram o prazo de validade dentro de mim. Nos outros anos, libertar-me destes livros (e também de CD’s, um pouco pelos mesmos motivos), era para mim uma espécie de tabu…sempre sentia alguma intranquilidade quando pensava em os retirar. Energia de lembranças, sorrisos, tristezas, envoltas numa aura intemporal. Mas este ano foi altura de partirem, uns para serem vendidos, outros (apenas por enquanto) arrumados.

E assim, posto tudo isto,  foi dia de abrir a janela, abrir as cortinas, deixar o sol entrar, respirar um novo ar trazido pela luz do verão que caminha para o seu final. Não posso deixar de sentir respirar diferente, de um ar mais leve. Quer queiramos quer não, o ato das limpezas são, mais do que uma ação, uma afirmação de mudança. de compromisso entre o que fomos e o que desejamos ser, naquilo que desejamos construir. E isso, é uma parte importante do caminho da felicidade que sempre buscamos em nós.

Crédito da imagem:O Minimalista

Mais férias

E surge assim o segundo período de férias do ano. O primeiro (há sensivelmente um mês) já parece demasiado longe na memória, mas acaba por ser o tempo a principal recordação, e a forma como passou bem devagar durante toda uma semana utilizada para mergulhar fundo no meu Sentir. Nesta breve fase de desaceleração, que depois desagua na calma do tempo, dou comigo a refletir sobre esse vale profundo e absolutamente negro que separa a distopia funcional que caracteriza o conceito moderno de trabalho e a afirmação da personalidade e felicidade da pessoa humana…mas isso são contas de outros rosários, para outros textos…

Por agora, desfruto o ritmo dessa desaceleração. Sem obrigações, nem tempo, nem espaço…Miles toca, e ao fechar por um momento os olhos já vai desfilando em mim um som genialmente espontâneo, que sempre foi uma das minhas principais referências no Jazz. Desbloqueia em mim a profunda necessidade que sinto de verdadeiro alimento para a alma, que durante as semanas apenas a espaços consigo usufruir, normalmente devido a um cansaço extremo que no final do dia e na noite me leva apenas a descansar…aqui ao lado, o álbum da Taschen sobre Edward Hopper solta-me um leve fascínio no olhar…há muito que gostava de saber mais sobre um pintor cuja obra me encanta, pela melancolia tranquila que me transmite, expressa nas suas personagens e ambientes, e que reconheço em mim mesmo em várias fases da minha vida, numa paz em mim desenhada e pintada, na sua palete de cores…neste momento, exatamente as mesmas cores reveladas pela luz que entra na janela, inundando a casa…é curioso como tudo ganha uma dimensão diferente quando a mente se retira para descansar…nada fisicamente muda (apesar de ter de começar seriamente a pensar num destino a dar às prateleiras atulhadas de livros que nada mais são do que energia passada acumulada)…mas algo pesado desaparece, levado pela luz que nos relaxa num respirar calmo do som ambiente. E nesta necessidade de abrir portas e janelas sem tempo pelo espaço, espero sinceramente que o sol que faltou no mês passado não me passe outra partida, pois souberam a pouco as duas longas caminhadas na praia, e os banhos subsequentes. Não que me incomode a neblina e a chuva miudinha num cenário que sempre nos encanta e desbrava horizontes em nós, mas o corpo está mesmo a necessitar de sol, do calor e do sal marinho, enquanto a mente anseia pelo céu azul e mar esverdeado,vagueando pelo meio de nenhures. Muito existe para fazer e sentir…

As férias são, para mim, uma reconexão com as coisas simples…e nada existe mais simples do que a sensação essencial do existir pelo desfrutar dos nossos gostos, de como em nós florescem, semente após semente, despertando um qualquer novo horizonte de vida, de voo, de destino, enquanto desligam o mundo que nos rodeia.

O meu dia agridoce

Há sempre no espaço, uma relatividade nas emoções…da Tailândia veio o calor humano que me enterneceu o coração. Da minha rua, um ameaço de incêndio no meu prédio fez-me vacilar de receio. Pelo meio, o tempo perde o sentido e tudo se mistura na humanidade de sermos seres que sempre caminharam, e caminham, num mundo fluído, por entre o dia ou a noite, a alegria ou a tristeza, a lágrima ou o riso. Um Yin Yan eterno em nós se movimenta em equilíbrio, apesar de muitas vezes cedermos um pouco mais ao lado pesado da energia que nos rodeia.

Mas ainda assim, no final do dia, quando o trabalho se esvai na última luminosidade de um verão envergonhado, o efeito do pequeno susto se vai perdendo, e a a saúde do momento já vai pedindo férias, é mesmo da Tailândia que vem um pensamento de paz, na certeza que todas aquelas crianças, e o seu treinador, já se encontram abraçados pela luz do dia…e assim deito a cabeça, respirando bem fundo, e deixando a alma esboçar-me um pequeno sorriso na face. Talvez fosse mais fácil carregar já o amanhã com uma qualquer carga negativa, de um qualquer assunto complicado. Mas hoje, só por hoje, tudo se resolveu, e no momento, neste momento, sorrio e tenho esperança dentro de mim. Uma esperança que vai bem fundo, bem para lá das rotinas dos dias…mais do que me fazer sentir bem, fez-me acreditar em todos nós…na humanidade, em mim, em ti. Num mundo melhor. Porque simplesmente não faz sentido sentir-me bem, sem acreditar, e trabalhar, para todos e com todos, para um mundo melhor. Por entre a rotina dos dias. Na via do Caminho do Meio. No horizonte das dez mil coisas.

E muito obrigado a todos pelas vossas mensagens. Foi apenas o susto, tudo está bem 🙂

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.