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Fim do mundo

Na minha viagem de hoje, por entre uma zona costeira da região centro banhada pelo sol, ouvi com prazer esta reportagem da TSF sobre as rádios comunitárias da Guiné-Bissau. Devo dizer que me emocionei ao ouvi-la. E emocionou-me sobretudo a forma humilde e simples e ao mesmo tempo tão assertiva e voluntária como o nosso povo irmão da Guiné vive a comunidade, e o trabalho para o bem dessa mesma comunidade, defendendo com tenacidade o direito dos que não têm voz a terem a sua opinião, a exprimirem as suas vidas e as suas ideias, num serviço essencialmente comunitário para o bem de todos. Foi bonito ouvir o orgulho e o empenho com que os fundadores destas rádios, assim como aqueles que nelas trabalham, têm nas mesmas e no seu papel, muitas vezes contrariado pelas autoridades.

Partilho agora com todos vós esta reportagem. Vale muito a pena ouvir.

Nota à nota (ainda Monchique)

Confesso que a forma como está a ser discutida esta questão das evacuações em Monchique, e que numa primeira fase comentei em virtude de alguma insensibilidade que se começava a sentir,  está a atingir níveis absolutamente lamentáveis insulto fácil e gratuito, atropelando a dignidade que as vítimas dos efeitos provocados pelo incêndio de Monchique, todas elas, merecem.

A meu ver, a questão prende-se a dois níveis:

  • A forma como a GNR atua num cenário de grande stress, onde as pessoas estão sobre uma enormíssima pressão emocional. Ao contrário da dúvida existencial de alguma imprensa, nunca tive grandes questões sobre se, à luz dos normativos, o que a GNR estava a fazer era legal ou não. Já me questiono sobre se levar pessoas algemadas para fora das suas casas é a postura mais correta a ter nestes casos.
  • A forma absolutamente leviana como alguns comentam o drama daquelas pessoas ,(e foi mais isto que me levou a escrever o post anterior) que contaminou de uma forma quase viral esta discussão. É preciso perceber bem o que sofrem estas pessoas, e espero sinceramente que quem fez esses comentários nunca passe por isso. Que o futebol permita treinadores de sofá, é uma coisa. Mas estas são situações que não podem ser vistas da mesma forma. Para esta realidade não igualmente contribuído o comportamento de alguma comunicação social tem mostrado ao amplificar e endeusar a forma como essas pessoas procederam, e que é outra forma errada de ver o problema.

Monchique passou pelo meio dos “pingos da chuva”, deixando não apenas uma gigantesca área ardida, mas mais uma vez uma preocupante noção da falta de algo que vai muito para além da cidadania ou de organização do estado, consubstanciando-se num profundo relativismo da crítica fácil e vazia. Mais uma vez, matamos uma discussão importante à nascença por via da irresponsabilidade da comunicação social, e da ansiedade por protagonismo nas redes sociais…

Será que Pedrogão não nos ensinou nada?

Crédito da imagem: Global Imagens

Taurautarquias

Li há alguns dias que a Azambuja prepara-se para candidatar a tourada a património mundial. Confesso que não sou apreciador de touradas, pelos motivos que são normalmente utilizados, desde a crueldade para com o animal até ao anacronismo desta tradição em tempos modernos. E, para ser ainda mais franco, tenho muita dificuldade em compreender aquelas largadas que muitas vezes se realizam em festas populares…nestes casos, não acho que exista algum tipo de anacronismo de tradição…nos tempos modernos, cada vez mais as pessoas apreciam as emoções fortes, a adrenalina de desafiar um perigo em condições mais ou menos controladas…assim, rapidamente estes acontecimentos tornam-se bem modernos, cativando, em muitos casos, um número esmagador de pessoas de gerações mais novas…porque o fazem colocando-se à frente de um touro é algo que realmente me escapa. Na era tecnológica em que vivemos, quem sabe o anacronismo não resulte daí.

Mas, voltando às touradas, a crueldade levada a cabo para com o animal é em si mesma, não apenas um anacronismo de tradição, mas igualmente de existência. Talvez o nómada que ainda existe em nós ainda vibre com a tortura planeada e coordenada do touro na arena, em vislumbres instintivos dos tempos em que caminhávamos pela Terra, defendendo-nos do ataque de animais selvagens…mas nesse anacronismo da existência cabe igualmente alguma hipocrisia do respeito pelo outro e pela vida, num falso sentimento de humanização que nos mata a todos, ao redor de uma arena, aos olhos de um animal que apenas reage ao sofrimento que lhe é infligido, por vezes de forma particularmente cobarde…levar tal espetáculo cínico ao panteão do património mundial nada mais é do que celebrar o status quo do passado, da mesma forma como ignoramos um planeta que chama por nós, convidando-nos a uma nova vida que nos escapa por entre os dedos da realidade. Saber que o tempo muda, e com ele muda o homem nos trilhos da sua história, libertando-nos do passado para os horizontes dessa mesma liberdade será, mais que um património cultural, o património do nosso futuro.

Crédito da imagem: Plataforma nacional para a abolição das touradas

O meu dia agridoce

Há sempre no espaço, uma relatividade nas emoções…da Tailândia veio o calor humano que me enterneceu o coração. Da minha rua, um ameaço de incêndio no meu prédio fez-me vacilar de receio. Pelo meio, o tempo perde o sentido e tudo se mistura na humanidade de sermos seres que sempre caminharam, e caminham, num mundo fluído, por entre o dia ou a noite, a alegria ou a tristeza, a lágrima ou o riso. Um Yin Yan eterno em nós se movimenta em equilíbrio, apesar de muitas vezes cedermos um pouco mais ao lado pesado da energia que nos rodeia.

Mas ainda assim, no final do dia, quando o trabalho se esvai na última luminosidade de um verão envergonhado, o efeito do pequeno susto se vai perdendo, e a a saúde do momento já vai pedindo férias, é mesmo da Tailândia que vem um pensamento de paz, na certeza que todas aquelas crianças, e o seu treinador, já se encontram abraçados pela luz do dia…e assim deito a cabeça, respirando bem fundo, e deixando a alma esboçar-me um pequeno sorriso na face. Talvez fosse mais fácil carregar já o amanhã com uma qualquer carga negativa, de um qualquer assunto complicado. Mas hoje, só por hoje, tudo se resolveu, e no momento, neste momento, sorrio e tenho esperança dentro de mim. Uma esperança que vai bem fundo, bem para lá das rotinas dos dias…mais do que me fazer sentir bem, fez-me acreditar em todos nós…na humanidade, em mim, em ti. Num mundo melhor. Porque simplesmente não faz sentido sentir-me bem, sem acreditar, e trabalhar, para todos e com todos, para um mundo melhor. Por entre a rotina dos dias. Na via do Caminho do Meio. No horizonte das dez mil coisas.

E muito obrigado a todos pelas vossas mensagens. Foi apenas o susto, tudo está bem 🙂

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Falcões

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Crédito: Edward Hopper

Quando vi Nigthawks pela primeira vez, demorei algum tempo para passar a outro quadro. Se há na obra de Hopper um símbolo da mestria do lidar com o tempo, de deixar que num momento fixo ele continue a fluir na nossa mente, então esse símbolo será este cenário noturno, intemporal, que podemos encontrar em qualquer cidade, imerso numa qualquer noite, e do qual sempre fugimos na superficialidade da vida moderna. É um quadro sobre a solidão…uma pessoa só, de cabeça um pouco baixa, reflete…um casal parece imerso numa conversa calma, onde a análise de algo impera…não sabemos o que falam ou o que pensam, nem sequer se se encontraram apenas aqui, na partilha da sua solidão individual, ainda que a mulher apareça algo alheia e impaciente. Mas encontramos uma certa dualidade nesta solidão, porque se uma pessoa só pode eventualmente estar perdida no seu mar de pensamentos, sem um caminho ou uma saída, certo é que a solidão também pode existir num espaço de duas pessoas, dois seres que decidem na partilha caminhar sós, num mundo que naquele momento (ou em outros) não lhes interessa. Ainda que possam estar perante um dilema, exigindo reflexão, estão calmos…sabem que têm de estar ali. Sós.

Como em toda a obra de Hopper (principalmente na que retrata momentos, pessoas), é desafiante pensar em Nighthawks como um momento num tempo que passa, num espaço isolado na realidade. Na visão do momento, não é tão importante para mim pensar no “de onde estas pessoas vieram”, mas mais no “como estas pessoas chegaram”…se estariam perdidas na noite e perdidas continuavam, ou se encontraram este local depois de encontrarem a solução para os seus próprios momentos interiores, e apenas relaxam neste ponto de chegada. Posso aqui inferir todo um conjunto de exercícios psicológicos, mas, independentemente dos cenários, desperta-me a atenção de que este café noturno não tem portas de entrada. Surge-nos como uma inevitabilidade da caminhada, um ponto onde não é importante a entrada ou a saída, mas o estar, o pensar, o refletir…tanto mais importante quanto estamos perante uma rua que parece intercetar outra…uma divisão que naquele café se consubstancia não na necessidade de decidir, mas de refletir nessa decisão, o que não deixa de conferir a este quadro uma certa intemporalidade que se assume quase como uma lição do sermos humanos em tempos de desnorte moderno.

Nighthawks realmente fascina-me. Irei voltar a ele várias vezes, porque a sua vastidão não permite colocar todo o seu sentido num artigo, e porque a sua vastidão também depende muito do momento que vivemos quando o observamos, colocando esse sentido numa dimensão que tanto nos assusta: a emocional. A humana. O sermos nós, com a nossa fraqueza moderna de termos de pensar, sentir. É, de facto, um lugar comum da arte,  esta relativização do sentir, mas é isso que torna-o admiravelmente transcendente e, para mim, um dos expoentes máximos da apreciação da pintura como exercício da nossa própria humanidade.