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Brexit

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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25 anos de Rodrigo Leão

Em noite de eleições intercalares americanas, e já com alguma dificuldade em conter um ou outro bocejo, lembrei-me que este é o ano do 25º aniversário da carreira a solo de Rodrigo Leão. É um dos músicos portugueses que sigo mais de perto, e que na minha opinião, possui a identidade musical mais vincada, uma identidade com a qual me identifico profundamente. Encontro nas suas sonoridades uma paz imensa que se estende desde a melancolia (com a qual tenho uma relação muito particular, não a sentindo de uma forma particularmente negativa), até à serenidade imensa.

Assim, num intervalo por vezes infinito que se explana desde a leveza de um sentir mais reservado, até à imersão num leve sorriso de contemplação interior, sinto na música de Rodrigo Leão a vibração do estar, do agora, do momento, naturalmente submergindo o Ser. No momento desta pequena homenagem, deixo aqui As Cidades, uma música que Rodrigo Leão compôs para a banda sonora de Portugal, Um Retrato Social, uma série da RTP idealizada por António Barreto. É talvez um dos seus menos conhecidos trabalhos (não teve uma publicidade tão intensa quanto a restante obra), mas para mim é um dos mais geniais, pela atmosfera que transmite a toda a série…se as imagens nos documentam, e à nossa evolução por entre os caminhos curvilíneos do Portugal da era moderna, a música identifica-nos na nossa essência comum, do povo que se resigna ao povo que deseja algo mais. Sendo um excelente exemplo dessa visão, este vídeo é assim uma sucessão de momentos, distanciados num tempo vasto, mas unidos nas linhas das partituras, que edificaram este álbum. Vale mesmo a pena ouvir.

Crédito do vídeo: Rodrigo Leão

Crédito da imagem: RTP

Brasil – segundo turno

Chegamos então ao segundo turno das eleições no Brasil. O caminho feito até aqui, desde o primeiro turno, não trouxe nada de novo em termos de estratégias, típicas de uma segunda volta. em qualquer país. Os discursos são mais fluídos nas propostas apresentadas, tentando acomodar o eleitorado “orfão” do primeiro turno, mas igualmente procurando facilitar as negociações políticas  para um congresso que se prevê dividido, uma questão particularmente importante, dada a escolha mais radical de “vices” feita por ambos os candidatos.

Bolsonaro claramente suavizou um pouco o discurso em questões governamentais, retirando certezas da nomeação de Paulo Guedes para um super-ministério da fazenda, economia e desenvolvimento (inclusive lançando dúvidas sobre a criação do mesmo). A junção da agricultura com o ambiente foi também algo em que Bolsonaro pareceu recuar, juntamente com importantes referências de manutenção no acordo de Paris e ao não encerramento da fronteira com a venezuela (ambas importantes no cenário regional e global), tudo mostrando que de facto, a época da negociação política referenciada acima estava em curso). Ao contrário, Bolsonaro manteve a rudeza e a violência no discurso sobre segurança e corrupção, mantendo o sentimento anti-PT como driver fundamental de uma retórica que mais uma vez levantou dúvidas sobre o futuro democrático do Brasil. Continuou igualmente a campanha centralizada nas redes sociais, fazendo circular todo um manancial de fake news em circuito fechado, aumentando o surrealismo de uma campanha que levou o modelo Trump a um novo e infeliz nível ( a intervenção do Facebook e do Whatsapp, para além de tardia face aos indícios que já existiam, foi escassa. Ainda assim, podemos considerá-la um fator mediano na queda de Bolsonaro nos últimos dias.

Quanto a Haddad, já se lhe antecipava o caminho das pedras. Manter o fiel eleitorado do PT enquanto se lançam pontes para uma aliança anti-Bolsonaro nunca seria um exercício fácil no Brasil, depois da forma como o PT, nos anos de governo, tratou o centro-esquerda e o “centro”. Ainda assim, Haddad conseguiu parcialmente fazer essa ponte junto do eleitorado com a ajuda do aumento de rejeição a Bolsonaro, muito baseado na reação aquele discurso “caseiro” do candidato radical; de uma intervenção ao nível de certos núcleos evangélicos que, originalmente apoiando Bolsonaro, alteraram o seu apelo de voto, e com a intervenção de praticamente toda a classe cultural brasileira, que tem intervido em peso nos dias finais da campanha. Outro dos fatores importantes foi a intervenção direta de milhares de voluntários numa estratégia de contacto direto com as pessoas, muito em contraponto com a presença na net de Bolsonaro, promovendo uma “virada”no sentido de voto. A expressão desta tática foi muito forte em S. Paulo, tendo as sondagens ilustrado uma inversão no sentido de voto na cidade. Uma inversão que, em menor escala, se tem feito sentir ao nível nacional, principalmente na última semana, gerando uma onda forte de entusiasmo num sprint final tão interessante quanto indefinido. Ciro Gomes ainda não definiu qualquer orientação pública face ao seu sentido de voto, fazendo com que os 12% de votos expressos que atingiu no primeiro turno sejam uma parte do joker que irá pairar amanhã sobre estas eleições, ao mesmo tempo que mostra que a negociação para o Congresso pode ser bem mais complexa do que a congregação do eleitorado do centro numa frente anti-Bolsonaro, muito guiada pelo medo. A outra parte serão os cerca de 16% de indecisos, cuja provável orientação é, neste momento, bastante difícil de definir.

Veremos amanhã como será orientado o sentido de voto dos brasileiros. Depois, vem aí um dia absolutamente crítico para o futuro deste novo ciclo: o 29 de Outubro de 2018.

Um dia na América

Uma das principais práticas que tenho neste tipo de acontecimentos é o não promover qualquer tipo de comentário imediato. Sempre me pareceu a postura mais correta a ter, por entre notícias desencontradas, jogos de informação e contra-informação, aumento de fluxo nas redes sociais. Isto não invalida que logo não possam surgir algumas ideias sobre o sucedido, nomeadamente decorrentes do que ações deste tipo podem significar na visão mais global do que as contextualiza.

Faltam cerca de duas semanas para as eleições intercalares, e sobre elas muito haverá para escrever, tendo os acontecimentos deste dia um espaço nessa reflexão. Mas parecendo ser um ato de terrorismo doméstico, convém que não nos esqueçamos de algumas notas…este tipo de terrorismo interno é uma realidade nos EUA, apesar de não muito noticiado no exterior. Ele expande-se desde um conjunto de milícias de direita, espalhadas por todo o território, até movimentos políticos mais radicais, dentro ou fora da esfera do partido republicano, e passando por lobos solitários, gangs de cariz mais violento e criminoso, etc. Toda esta “galáxia” encontrou em Trump a imagem quase perfeita de uma legitimização da sua existência, por um lado…por outro, a retórica presidencial agressiva é, para alguns ideólogos mais radicais, nada mais do que a porta para a assimilação institucional de algumas das suas ideias (embora talvez não na amplitude que desejariam, por enquanto…). Neste enquadramento, este tipo de eventos podem começar a ser normais, especialmente em períodos eleitorais…num ambiente de permanente conflito retórico, ao mais alto nível, que inevitavelmente cria um clima de tensão sobre uma sociedade de feridas abertas (e algumas antigas), a insistência numa colagem a assuntos fraturantes, direcionados com frequência em ataques ao partido, figuras e apoiantes democratas (bem como à imprensa liberal e imigração) estimula a ação de movimentos radicais que desejam mostrar que estão vivos (o que lhes permite angariar mais membros), passando ao mesmo tempo a mensagem de que Trump lhes interessa; ou de lobos solitários, manifestando o seu apoio por via de intervenção prática no terreno, que observam como oportunidades únicas de agir. Em tudo isto, não nos podemos esquecer da forma como Trump tem lidado com instituições como o FBI, particularmente odiadas por estes movimentos ou pessoas, como símbolos de uma autoridade opressora.

Mas ainda existe muita poeira pelo ar. É necessário tempo para que esta assente… esperemos então  pelas eleições intercalares.

Crédito da imagem: Washington Post

Brasil – eleições 2018

Amanhã, o Brasil escolherá o seu destino, com meio mundo a observar, preocupado. Eu incluído. Dos quase seis meses que passei num país onde fui muito bem recebido por todos, guardo na memória um povo ausente da esperança que normalmente qualquer ato político contém. Um povo sem esperança num país que lentamente se ia afundando num pântano político.

Por um lado o PT aposto na carta de Lula da Silva até demasiado tarde, numa luta apresentada ao povo um pouco como a mãe de todas lutas pela derradeira oportunidade de um Brasil melhor. Com essa luta política, surge então um polido, mas não consensual Fernando Haddad, que ainda assim passou mais tempo a tentar manter Lula na corrida através dele, do que em lutar per se. Por outro lado, a crise no PT levantou uma onda de confiança no centro político brasileiro. Estou convencido que um hábil candidato único nesta zona política ganharia estas eleições…contudo, a confiança foi tanta que o centro político dividiu-se, com cada um dos candidatos que representa esse círculo a achar que podia capitalizar a luta quixotesca do PT. Esse foi um erro que o centro pagará caro, ao ser (parece-me) para já, o primeiro perdedor político em conjunto…de tudo isto emerge Bolsonaro, com um discurso mobilizador, aproveitando a falta de fé de um povo que ao mesmo tempo se traduzia na abertura a uma solução extremista, de rutura, ou até da tomada de controlo pelo exército, algo que o povo via como uma possível solução. Apoiado pela IURD, Bolsonaro soube adaptar o seu discurso a essa desilusão, captando a ala direita do centro e unindo-a ao velho Brasil das elites que desejam voltar ao poder, construindo uma atmosfera de esperança artificial, que poderá dar aos brasileiros o que eles pensam que querem, baseado em forças que são omnipresentes no dia-a-dia, como o racismo, ou a visão negativa do pobre como um dos fulcros de situações, por exemplo, como a insegurança. O atentado que sofreu foi muito bem capitalizado nesse sentido, quase que juntando Bolsonaro ao povo, fundindo-os no seu sofrimento. Foi, de facto, um atentado muito conveniente, em termos de posicionamento na disputa.

Com elevada probabilidade, pelo que se pode ver das sondagens, Bolsonaro passará à segunda fase com um Haddad que consegue fazer ao centro político aquilo que o centro político não lhe conseguiu fazer. Mas as perspetivas não são boas. Logo à partida porque os dois candidatos escolheram “vices” ainda mais radicais que eles, nas suas áreas…no Brasil diz-se (em jeito de brincadeira, ou talvez não) que um impeachement a qualquer um dos dois homens seria impensável, pois o seu vice seria ainda pior. Este facto prejudica irremediavelmente as negociações que já se vão fazendo para um congresso brasileiro que se prevê dividido…a visão alternativa é que as torna um pouco mais tenebrosa…Haddad tenta negociar com os partidos do centro que tentaram destruir o PT (estas coisas no Brasil não se esquecem), ao mesmo tempo que vai ter de gerir a questão do posicionamento perante a libertação de Lula…enquanto isso, do lado de Bolsonaro, Edir Macedo saberá melhor que Deus por que caminhos o candidato se vai virando, mas já é conhecida a falta de grandes reservas morais quando se tenta conquistar algo. E para além disto, Bolsonaro tem sempre uma saída que Haddad nunca ousaria ter: o caminho ditatorial, que é perfeitamente possível de acontecer.

Mas lá chegaremos à segunda volta, quando esta acontecer…se algo aprendi no Brasil é que o melhor mesmo é acompanhar o país dia a dia. O que hoje é certo, amanhã pode ser ainda mais certo…o que pode não interessar a muita gente que pode tornar o certo em algo impossível de acontecer. Ainda assim, os cenários, independentemente dos resultados não serão nada bons. Agora é necessário observar, passo a passo, o que vai acontecer amanhã, na primeira volta. Depois, voltarei a este tema.