A little piece oh heaven

Os dias já começam a ser um pouco mais compridos, algo que aqui se nota mais facilmente devido à elevado latitude. Mas continuam deliciosamente enevoados, compondo a atmosfera de um país e de uma região que nos entra no Ser. Existe aqui uma beleza plural, harmoniosa, onde o ordenamento do homem se harmoniza com a natureza envolvente, resultando em pequenos pedacinhos do céu em plena terra, como esta povoação de Kingsmead, onde vou todas as manhãs no fim de semana, numa caminhada muito relaxante de de cerca de 1 h, 1h 30 m, por entre ruas e alguns trilhos. As manhãs de sábado e domingo são calmas, em contraste com as noites de sexta e sábado em que restaurantes e pub’s se enchem com uma quantidade de pessoas que não se consegue ver durante o dia, neste meio pequeno. Algumas trabalham mais em Manchester ou Liverpool, e é no fim de semana que apreciamos a quantidade de pessoas que aqui vive, e que conseguem manter este pedacinho do céu tal como ele é, com um sentido de comunidade e serviço cívico muito característico das pequenas povoações aqui na zona mais a norte do Reino Unido.

Temos a sensação, quando experimentamos o ambiente de Londres e do sul, e de zonas como Manchester, no morte, que estamos em países diferentes. Aqui as pessoas são afáveis, muito simpáticas, gostam de conversar. Não se liga muito ao que se passa em Londres, nem tão pouco se fala muito disso…ainda me lembro que, em Newcastle-upon-Tyne, há cerca de ano e meio, um taxista me perguntou, meio a brincar meio a sério, o que é que raio eu queria fazer em Londres, se “cá em cima temos tudo”. E de facto é um pouco verdade…adicionando uma completamente diferente dimensão humana, aqui também existe urbanidade, muito vincada em Manchester ou Liverpool,  uma cultura riquíssima, plena de tradições e sabedoria popular que remontam a tempos idos da pré-história, e se estende até à modernidade. E, para ser franco, come-se melhor…mas muito melhor 🙂 almoçar em Londres durante a semana é quase uma experiência de desumanização, enquanto que aqui, uma almoço de trabalho, por vezes com as mesmíssimas sandes “Tesco-like” é uma experiência de partilha ,muito interessante, um momento de descompressão em conjunto no meio das sete horas de trabalho diário.

Depois de quase 6 meses em S. Paulo, no Brasil, o tempo vai-se acumulando na zona de Northwich. Experiências diferentes, mas complementares no crescimento que me proporcionaram, e proporcionam, enquanto profissional e pessoa. Amei as duas, pois continuo a fazer da busca do equilíbrio um caminho de felicidade, e da gratidão uma janela aberta ao universo, pelas dádivas que me dá, pela possibilidade de me dar a conhecer sempre mais deste mundo imenso e lindo em que vivemos.

CEP

Homenagear condignamente a presença do Corpo Expedicionário Português na I Guerra Mundial é um acerto de contas com a história de Portugal, e do estado português para com cerca de 55.000 soldados que pariram, mal equipados e preparados, para um dos mais violentos conflitos na história humana recente, um ponto de viragem na estratégia e procedimentos militares que fizeram dele um dos mais mortíferos. Também compreendo que na homenagem exista uma componente militar, através de um grande desfile (penso que um dos maiores em democracia). Afinal estes homens eram militares ao serviço de Portugal, e nesse papel cumpriram a sua (ingrata) missão…é normal e justificado que os seus pares na atualidade desejem esta homenagem…contudo, acho que estas datas, estes momentos, são muito esquecidas na população em geral, por entre uma geração desinteressadas das mesmas, e outra que delas vai perdendo a memória /sendo que por vezes estas duas características se confundem por entre gerações. E neste caso em particular do Corpo Expedicionário Português,já não existem uma testemunhas vivas dos acontecimentos, perdendo-se quase na totalidade o relato das vivências na primeira pessoa.

Temos um excedente de celebrações destes momentos, com um foco excessivo no protocolo, na normalidade pacífica do status quo, na cerimónia, já não falando na oportunidade que estas situações proporcionam para marcar, ou entrar na agenda política. Precisamos de mais conhecimento, espalhado pelo país, através de uma visão integrada entre a educação, a sociedade civil  e a cultura, entre a escola, os núcleos e as associações da sociedade civil que existem por todo este país (não esquecendo em certos casos os familiares das pessoas) e a rede museológica (não esquecendo a investigação universitária). O património histórico deixado pelos homens do CEP, e que muitas outras pessoas em muitos outros atos deixaram, tem de ser algo que se renova e evolui no querer saber mais sobre o que nos construiu enquanto país, e que pode ajudar na formação de pessoas com uma superior cultura cívica, e mais interventivas na cidadania. Algo que o país tanto necessita.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Brasil – segundo turno

Chegamos então ao segundo turno das eleições no Brasil. O caminho feito até aqui, desde o primeiro turno, não trouxe nada de novo em termos de estratégias, típicas de uma segunda volta. em qualquer país. Os discursos são mais fluídos nas propostas apresentadas, tentando acomodar o eleitorado “orfão” do primeiro turno, mas igualmente procurando facilitar as negociações políticas  para um congresso que se prevê dividido, uma questão particularmente importante, dada a escolha mais radical de “vices” feita por ambos os candidatos.

Bolsonaro claramente suavizou um pouco o discurso em questões governamentais, retirando certezas da nomeação de Paulo Guedes para um super-ministério da fazenda, economia e desenvolvimento (inclusive lançando dúvidas sobre a criação do mesmo). A junção da agricultura com o ambiente foi também algo em que Bolsonaro pareceu recuar, juntamente com importantes referências de manutenção no acordo de Paris e ao não encerramento da fronteira com a venezuela (ambas importantes no cenário regional e global), tudo mostrando que de facto, a época da negociação política referenciada acima estava em curso). Ao contrário, Bolsonaro manteve a rudeza e a violência no discurso sobre segurança e corrupção, mantendo o sentimento anti-PT como driver fundamental de uma retórica que mais uma vez levantou dúvidas sobre o futuro democrático do Brasil. Continuou igualmente a campanha centralizada nas redes sociais, fazendo circular todo um manancial de fake news em circuito fechado, aumentando o surrealismo de uma campanha que levou o modelo Trump a um novo e infeliz nível ( a intervenção do Facebook e do Whatsapp, para além de tardia face aos indícios que já existiam, foi escassa. Ainda assim, podemos considerá-la um fator mediano na queda de Bolsonaro nos últimos dias.

Quanto a Haddad, já se lhe antecipava o caminho das pedras. Manter o fiel eleitorado do PT enquanto se lançam pontes para uma aliança anti-Bolsonaro nunca seria um exercício fácil no Brasil, depois da forma como o PT, nos anos de governo, tratou o centro-esquerda e o “centro”. Ainda assim, Haddad conseguiu parcialmente fazer essa ponte junto do eleitorado com a ajuda do aumento de rejeição a Bolsonaro, muito baseado na reação aquele discurso “caseiro” do candidato radical; de uma intervenção ao nível de certos núcleos evangélicos que, originalmente apoiando Bolsonaro, alteraram o seu apelo de voto, e com a intervenção de praticamente toda a classe cultural brasileira, que tem intervido em peso nos dias finais da campanha. Outro dos fatores importantes foi a intervenção direta de milhares de voluntários numa estratégia de contacto direto com as pessoas, muito em contraponto com a presença na net de Bolsonaro, promovendo uma “virada”no sentido de voto. A expressão desta tática foi muito forte em S. Paulo, tendo as sondagens ilustrado uma inversão no sentido de voto na cidade. Uma inversão que, em menor escala, se tem feito sentir ao nível nacional, principalmente na última semana, gerando uma onda forte de entusiasmo num sprint final tão interessante quanto indefinido. Ciro Gomes ainda não definiu qualquer orientação pública face ao seu sentido de voto, fazendo com que os 12% de votos expressos que atingiu no primeiro turno sejam uma parte do joker que irá pairar amanhã sobre estas eleições, ao mesmo tempo que mostra que a negociação para o Congresso pode ser bem mais complexa do que a congregação do eleitorado do centro numa frente anti-Bolsonaro, muito guiada pelo medo. A outra parte serão os cerca de 16% de indecisos, cuja provável orientação é, neste momento, bastante difícil de definir.

Veremos amanhã como será orientado o sentido de voto dos brasileiros. Depois, vem aí um dia absolutamente crítico para o futuro deste novo ciclo: o 29 de Outubro de 2018.

Nobel da Paz 2018

Há muito que já não escrevia sobre atualidade. Tinha voltado a colocar este assunto no pipeline de escrita para esta semana, mas confesso que nenhuma das hipóteses em cima da mesa me despertava interesse…até que ontem, durante o almoço em Campo Maior, vi nas televisões os laureados do Nobel da Paz de 2018, e fiquei de imediato, profundamente feliz. E é também essa felicidade que hoje me faz escrever sobre isso, numa genuína vontade de partilhar duas excelentes escolhas.

O Comité Nobel apostou, em minha opinião, claramente numa fórmula que mostra um acompanhamento das dinâmicas globais no que concerne ao abuso das mulheres, numa visão integral desses abusos. Independentemente de uma relação mais ou menos direta, existe uma visão de conjunto entre a vítima como símbolo maior do sofrimento real dureza dos conflitos mundiais, e que emergem das suas cinzas como focos de uma luta glocal, também parte da sua própria catarse interior; e as pessoas que desenvolvem um trabalho de intervenção social em grupos específicos, muitas vezes incluindo estas vítimas, também muitas vezes na dura realidade do terreno. Um trabalho por vezes não muito mediático, mas que é fundamental na intervenção junto destas vítimas. Tudo isto evitando relações diretas, o que torna esta visão ainda mais global, abrindo-nos ainda mais a consciência disso mesmo.  Neste caso particular de 2018, aborda-se claramente a violência sexual nos conflitos, frequentemente pensada como estratégia de eliminação do outro e da sua cultura, de todos os alicerces que o sustentam, largada de forma incontrolável nos campos de batalha. Assim, temos a entrega do Nobel a Nadia Murad, uma mulher Yazidi que durante 2014 foi escravizada sexualmente de várias formas, para além do tráfico humano e da servidão forçada a que foi sujeita, após a ocupação e destruição da sua aldeia. Ela é o rosto um das 3000 mulheres das comunidades Yazidi, que foram igualmente vítimas da verdadeira tortura por que passou Nadia, após o assassinato em massa dos seus maridos e namorados. Depois da sua fuga a este cativeiro, partilhou não apenas a sua história pessoal, mas igualmente o retrato das humilhações destas comunidades Yazidi, dando a conhecer ao mundo o sofrimento de todo um povo, frequentemente esquecido. Com o Nobel de Nadia, é premiado ainda com mais ênfase a forma como estas pessoas reagem (como já deixei implícito acima), uma vez que aqui a vergonha da vítima tem uma importância maior. Quanto a Denis Mukwege, o seu trabalho é talvez menos conhecido do público em geral, apesar do seu nome já ter sido referido muitas vezes como um potencial laureado… estamos a falar de um homem que trabalhou (e trabalha) de forma ativa na recuperação física e emocional de mulheres violadas em ambiente de conflito, com ações de profunda abnegação pessoal no âmbito das violações em massa levadas a cabo na guerra civil do Congo, onde cuidou de milhares de mulheres, numa maternidade fundada por si, e posteriormente transformada naquela que é talvez uma das unidades mais especializadas em todo o mundo para este efeito, e que fornece um modelo experiente e altamente funcional para o surgimento de outras unidades do género. Temos então aqui, muito bem definidas, as duas partes da visão que explanei um pouco mais acima.

Ambos mais que merecem este prémio Nobel, que ao mesmo tempo transporta consigo uma nota que me parece não ser inocente. Em primeiro lugar, porque surge exatamente um ano depois do início do caso Weinstein, e em segundo lugar, porque surge no mesmo dia das manifestações contra a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA, e que levaram a algumas detenções de manifestantes que se opunham a essa mesma nomeação. Mas se analisarmos a resposta de Berit Reiss Andersen a uma pergunta que visava perceber a relação do movimento Me Too com estas nomeações, consegue-se perceber uma mensagem que é importante, e que marca uma tentativa de separar as águas por parte do Comité Nobel. Diz a chairman do Comité Nobel que “I believe that #MeToo and war crimes aren’t quite the same thing…What they do have in common is that it is important to see the suffering of women, to see the abuses.” Sinto nestas palavras uma ideia de que o movimento Me Too é visto pelo Comité Nobel como algo importante na denúncia dos abusos sobre as mulheres, mas falta-lhe a visão global desses abusos, que vão muito mais longe do que as (mais que justas) lutas onde o movimento é mais visível, principalmente nas sociedades ocidentais, e onde por vezes pontifica alguma irracionalidade. Em meu entender, não deixa de se encontrar aqui um apelo ao amadurecimento do movimento. Com um Me Too mais maduro, e mais consciente da realidade global das mulheres, talvez esta separação não fosse necessária…cabe ao movimento Me Too fazer essa escolha.

Crédito da imagem: Alagoas 24 horas

Censored Mapplethorpe

Não vale a pena fazer um grande esforço para suavizar palavras que caracterizem o que alegadamente aconteceu em Serralves, com a tão aguardada exposição de fotografia de Robert Mapplethorpe. Se existiu retirada de fotografias nos dias imediatamente anteriores ao evento, indo para além dos normais avisos face à natureza explícita da exposição, ou até de uma já muito questionável sala específica para algumas fotografias (apesar de, particularmente, desejar que essas fotografias pudessem ser vistas em espaço aberto, por todos, incluindo os mais jovens quando acompanhados dos pais), então, estamos perante um ato de censura.

Esta é uma situação que atinge uma dimensão mais ampla em virtude de estarmos a falar de Serralves, um espaço que desde o início se apresentou ao Porto e ao país como um foco de harmonia entre a arte exibida e as vivências culturais, muito vastas, que a globalidade do espaço oferecia. E isso seria importante num país em que a arte é frequentemente desvalorizada, satisfazendo muitas vezes apenas meras necessidades de afirmação social numa sociedade onde googlar conhecimento substituiu o pensar e viver conhecimento, com consequências nefastas nas dinâmicas não apenas de educação cultural formal, mas igualmente no estímulo não apenas dos jovens, mas da população em geral, para a apreciação da cultura como fruto do nosso próprio desenvolvimento interior, motor da nossa ação diária num mundo que cada vez mais se quer diferente, para o bem de todos. Depois da demissão de João Ribas do cargo que desempenhava, esperam-se esclarecimentos, e rápidos, da administração da Fundação de Serralves face a este caso. É preciso conhecer exatamente o que realmente aconteceu. O trabalho de Mapplethorpe toca pontos que na sociedade portuguesa não apenas ainda são tabu, como estão sempre reféns de um certo puritanismo baixo, escondido, mas infelizmente muito funcional, reagindo com incapacidade e receio à visão da arte como pólo de reflexão construtivo (e muitas vezes alternativo) de que o país necessita muito, em troco da manutenção de um status quo de ignorância sobre estas questões. Muitos artistas têm a experiência desse puritanismo quando tentam expor/apresentar as suas criações. Seria triste se viéssemos a comprovar que os motivos do que aconteceu apenas assentaram na necessidade de calar a voz das imagens de Mapplethorpe, que nos tocam em feridas abertas do nosso tecido social, resultando numa sociedade que ainda hoje esconde o que nunca soube admitir e abordar.

E aí, o estado português, que é fundador e um dos principais financiadores de Serralves, deve atuar.

Crédito da imagem: Robert Mapplethorpe Foundation