Abrac…inhos

hugging
Crédito da imagem: India.com

Hoje fiquei a saber que há uma forma mais “normalizada” de dar um abraço. Nunca é tarde para aprender…é, basicamente, algo mais formal, colocando-nos um pouco de lado e pousando o braço nos ombros da pessoa. Para mim, que sempre valorizei muito este gesto, esta forma mais distante, mais protocolar de abraçar (um pouco como um cumprimento frequente e regular) causa-me alguma impressão, para não dizer que me é um pouco inócua. Abraçar é, para mim, algo de mesmo muito especial, que me permite sentir e comunicar com o próximo, em silêncio, por via da expressão do toque, dando-lhe uma sensação envolvente, tornando-a naquela forma de expressão que instintivamente entendemos, e que intuitivamente passa uma mensagem, um sentir, pelo contacto entre as diferentes vibrações de duas pessoas.

Por mim, continuarei a utilizar o beijo e o tradicional “passou bem” para esse tipo de cumprimentos, até porque, para ser franco, não partilho um abraço com facilidade. O Abraço, esse, sempre continuará a revelar-se na espontaneidade do seu surgir. Nunca forçado. Sem tempo, no momento certo.

 

O medo em blog

Por entre noticiários de almoço e jantar, fui ouvindo algumas notícias sobre como alguns bloggers, na base do anonimato, entram com os seus blogs nas guerras futebolísticas, como parte ativa ou apenas apoiando as partes. Numa das notícias que ouvi, o Benfica entrou em acordo com a Google para a divulgação dos nomes de alguns desses bloggers, assumidos  detratores do clube, para posterior procedimento judicial sobre os mesmos.

Não sei os motivos, mas para tal pedido ser feito, acredito que existam fundamentos juridicamente razoáveis. A meu ver, qualquer entidade que se sinta prejudicada nos seus interesses pela ação de um blogger anónimo, levada a cabo fora do legalmente enquadrado, tem, a meu ver, o direito de saber a identidade dessa pessoa, e agir judicialmente sobre ela. O que me chamou a atenção foi o grau de alheamento destas pessoas….dizia a notícia que um dos autores tinha manifestado receio pela sua família, pois a sua identificação poderia provocar vinganças de adeptos, com contornos graves. Dizia ainda que, na noite posterior ao aviso da Google de que a sua identidade seria revelada ao clube, não dormiu, e sentiu medo, enquanto observava a sua família pela manhã. Sem dúvida que o futebol capta o que de mais instintivo existe nas pessoas, envolvendo-as numa atmosfera de matilha e num perigoso sentido de pertença. Tal é feito por via de mensagens muito bem dirigidas, neste caso fundamentadas em referências a valores que, na prática, nada mais são mais elementos decorativos de políticas de comunicação, esvaziados de qualquer realidade histórica que lhes têm dado origem…daí nasce uma espécie de justificação medieval para o clima de tensão bárbaro que existe entre clubes, e para as subsequentes batalhas, onde estas pessoas, e mais alguns milhares (a outro nível) são orientadas como peões, com as suas ações a nada mais serem do que elementos de um xadrez jogado num nível estratosférico, do qual pouco compreendem, e sobre o qual não têm nenhuma influência. Na visão inversa, as pessoas (como aquele blogger) que se aventuram a entrar (no jogo) são facilmente esmagadas, numa espécie de guerra bárbara onde nada mais são do que cavaleiros da triste figura, num exército de reis caídos que se movem orgulhosamente nus por entre as turbes, e que pelas turbes são glorificados na elegia da futilidade…

Nenhum clube justifica colocar uma família numa situação perigosa, especialmente nos tempos que vivemos, onde tudo se escala com preocupante facilidade, fazendo com que a razão perca o seu sentido, e as caminhadas percam um qualquer sentido, num ambiente fora de razão. E se quisermos colocar a situação de um ponto de vista social, nenhum desporto vale o potencial descontrolo que estas situações podem tomar, extravasando-o e contaminando o ambiente social. É altura de parar.

VOST – os filhos de Leslie

Uma das polémicas levantadas com a tempestade Leslie foi a falta de informação por parte da Proteção Civil, especialmente nas zonas que se previam mais afetadas. Em Leiria, nem eu, nem pessoas que conheço receberam algum tipo de SMS indicador da situação e, pelo que tenho ouvido, apenas Lisboa viu surgirem SMS…via EMEL. A juntar a esta situação, relatos têm existido de pessoas que realmente receberam um SMS de aviso mas apenas…24 horas depois. Por outro lado, foi notório o apagão nas redes sociais. Milhares de pessoas esperaram por informação da Proteção Civil nestes canais, mas esta foi inexistente no Twitter e, no Facebook, resumiu-se a pouco mais que nada.

As justificações para o referido acima espantaram-me um pouco, não apenas pela revelação de falta de capacidade, mas igualmente de organização e eficiência. Dizer-se que não se enviaram alertas localizados porque não era possível conhecer com exatidão a trajetória da tempestade, é, na prática, colocar uma muito injusta mancha sobre o bom trabalho que o IPMA realizou. As trajetórias associadas a estas tempestades são muito complexas de calcular, dada a complexidade e extensão dos fenómenos, para não falar da (ainda) raridade dos mesmos, não completamente tipificadas na modelação matemática. Ainda assim, o IPMA conseguiu ir reduzindo a área com mais probabilidade de eventos graves, num trabalho que ia sendo divulgado via comunicados. O que me pareceu contudo, foi que este trabalho não teve um seguimento apropriado pela Proteção Civil que, apesar dos apelos das pessoas nas redes (no Twitter eram constantes), não se fez ouvir em meios que, hoje em dia, são plataformas massivas para comunicação deste tipo, em tempo real, revelando um preocupante autismo ou inépcia face à realidade. Seria talvez de refletir sobre a criação, para este tipo de eventos climáticos (e suas consequências), de um hub comunicacional, albergando o IPMA e a Proteção Civil, para que a informação seja sincronizada e se torne mais rigorosa, concisa e abrangente. Não seria também dispiciente considerar a participação da agência LUSA neste hub, integrando a realidade multi-plataforma destas três entidades (e de outras que fosse conveniente juntar), para maior eficiência da comunicação. Por outro lado, é preciso redefinir a forma como os SMS’s são transmitidos, talvez promovendo maior aproximação com as operadoras de serviço móvel. Por outro lado, e porque alguns disseram, inclusive na própria televisão, que tais avisos poderiam constituir uma situação de alarme social injustificado, apetece-me apenas dizer que tal alarme por vezes surge pela falta de compreensão da mensagem transmitida, mas muito mais surge quando essa mensagem simplesmente não existe…e aqui também cabem algumas perguntas sobre a falta de informação que existiu às populações nos próprios locais, algo que está a ser muito falado na Figueira da Foz.

No meio de tudo isto, surgiu a @VOST , uma página no Twitter, feita por voluntários, que fez um trabalho absolutamente excecional na disseminação de informação clara, concisa, e importante, recolhendo-a criteriosamente de várias fontes e transmitindo-a de forma clara e eficiente, algo que inclusive chamou a atenção de alguns canais de notícias, que igualmente começaram a passar a informação desta iniciativa. Um grupo de voluntários…4 voluntários…estabeleceu uma base no Twitter que se consubstanciou não apenas no emergir de um serviço cívico, de cidadania, mas igualmente, pela dinâmica que foram imprimindo durante a noite, induziram um extraordinário movimento cívico na rede, criando rapidamente confiança e tornando-se um agregador das informações e pedidos de auxílio que iam chegando um pouco de todo o lado. Foi um trabalho notável, e que verdadeiramente merece ser aqui destacado.

Talvez afinal a Tempestade Leslie não tenha deixado apenas coisas negativas junto de nós…que o positivo que nos deixou possa germinar, e mais uma prova de cidadania que Portugal tanto precisa.

Crédito da imagem: VOST Portugal

Feminismo on sale

Surgiu-me hoje um tweet sobre formações de feminismo, orientadas por uma conhecida figura do panorama audiovisual português. E confesso que, durante alguns momentos fiquei um pouco atónito, sem saber o que pensar…mas, recomposto, se algo me surge imediatamente é o reconhecimento do falhanço de comunicação de uma mensagem feminista que, bem vistas as coisas, tem no mundo moderno uma ligação ainda bastante vincada ao movimento original, diversificado na sua ação, que defendia os direitos a voto, contrato, educação, propriedade, entre outras lutas que ainda vão subsistindo, e que dependendo dos países, assumem dimensões de verdadeiras lutas por meros direitos humanos existenciais, inerentes à própria humanidade do Ser.

Na Índia, por exemplo, ainda se luta pela erradicação das violações em grupo, ou da discriminação das meninas pela sua sociedade de castas, que as segrega por serem apenas…meninas. Assim, se me perguntarem em termos da realidade global, eu diria que a mensagem feminista está bem viva, bem ancorada nos seus valores originais e até indo além deles, renovando-os com a realidade do tempo presente de uma forma resoluta, forte, mas saudável, e que por todo o mundo vai produzindo resultados, tendo sempre a igualdade como horizonte. Talvez não à velocidade que se deseje…mas certos caminhos, infelizmente, ainda continuam a ser feitos assim. Caminhando…mas este é o feminismo que apoio, e pelo qual luto, mesmo nesta sociedade ocidental, onde no campo das igualdades, ainda existe muito por fazer.

Mas no ocidente, há muito que esse deixou de ser o foco do discurso, entrando-se numa verdadeira guerra de sexos, muitas vezes sem quartel, levando a sociedade a um exagero, de vigiar comportamentos, a forma como as pessoas se relacionam, à luz de um comportamento que tem mais de belicista do que de construtivo. É a radicalização do discurso, que rapidamente, desde o caso Weinstein, foi largada sociedade fora (também se alimentando muito da figura misógina de Trump na Casa Branca), despoletando todo um conjunto de casos julgados publicamente antes de o serem na justiça, revelando-se em alguns casos flagrantes injustiças, enquanto que noutros, a tão desejada justiça foi feita. A “caça” continua…incluindo a caça “às bruxas”, alimentando-se do relativismo que se vai instalando no nosso mundo, por via da histeria das redes sociais e de todo um conjunto de pessoas que fazem do incêndio das ideias uma pretensão de um nascimento da luz…convinha, neste aspeto, retirar as lições do século passado sobre incendiar ideias, especialmente quando, no tempo moderno, muitas delas são concebidas em departamentos de marketing e de relações públicas, e propagados numa sociedade cada vez menos pensante e atenta ao que a rodeia, apesar da informação abundante que a inunda.

Tal como deixei escrito nas entrelinhas do meu post sobre piropos, e no meu comentário a este texto, ainda existe muito a caminhar em relação a uma certa mentalidade masculina abusiva, física e mentalmente, assim como nos costumes, que se traduz ainda, infelizmente, em muitas mulheres mortas ou vítimas de violência física e psicológica. Mas tudo isto não se pode consubstanciar numa radicalização da mensagem feminista, assente na guerra aberta e no antagonismo militante entre sexos, transformando-se num revisionismo da mensagem original. Homens e mulheres devem caminhar numa comunhão de ideias, unidos na mensagem original igualitária do feminismo, evoluindo métodos e formas de luta para que este caminho possa acontecer com o contributo de todos,  motivando homens e mulheres de vários países (incluindo os ocidentais)  a unirem-se na persecução de soluções construtivas e agregadoras, e não através de radicalizações inconsequentes, baseadas numa intelectualização e mediatização de um discurso que, felizmente, ainda vai sendo muito rejeitado…sinto isso nas mulheres que conheço, muitas das mulheres com que me cruzo nas redes sociais, e muitas mulheres que sobre isto falam nos media. E ainda bem. Devemos por os olhos nas mulheres africanas, que através de uma crescente organização, e com uma compreensão masculina lenta, mas progressivamente maior, vão construindo vitórias importantes, ou pelas mulheres da Índia, que não deixam que a violência que cai sobre elas lhes tolde a necessidade de se organizarem, e de lutarem muitas vezes de formas não violentas, pelos seus direitos, trazendo muitos homens para a sua causa.

Um, é a semente. Dois, são a plenitude.