O cuidar

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Crédito da imagem: José Camarinha

Há algumas semanas atrás fui à Figueira da Foz ouvir a Carla Neves falar sobre Cuidadores Informais. Estava, lembro-me, uma noite bonita, amena, convidativa a ouvir e conhecer um pouco mais sobre esta causa que também me desperta memórias pessoais de tempos idos. São memórias por vezes guardadas em nós mas que, na vertigem dos tempos modernos, e apesar de muitas vezes essa interiorização ser uma auto-defesa, devem dar lugar a abertura do nosso coração a uma visão mais social destas situações, aberta, solidária e cidadã, num tempo em que cada vez mais se fazem sentir desafios sociais e geracionais que a todos nos afetam, de forma mais ou menos direta, traduzindo-se em mudanças fundamentais nos paradigmas de relacionamento e vivência dos núcleos familiares e da própria comunidade.

A Carla é uma de 800.000 Cuidadores Informais existentes em Portugal. A voz cansada, mas decidida, e a humildade do discurso trazem consigo a alma de pais, mães, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias e por vezes amigos, que se dedicam a cuidar de quem tantas vezes deles cuidou, num verdadeiro ciclo de Amor que se traduz no desejo de cuidar por cuidar, evitando fenómenos de institucionalização que muitas vezes são mais nocivos que positivos. Pessoas que abdicam de toda uma vida pessoal, social, profissional em prol desta causa e que naquela noite, pela voz de uma delas, se abriram a nós, contando um pouco das suas vivências…das noites sem dormir, dos dias inteiros de prestação de cuidados de saúde, da constante monitorização de segurança dos que são cuidados, da exaustão, da falta de uma vida social (e por vezes familiar), dos parcos apoios do Estado…uma viagem por uma contextualização geral, mas também por casos concretos, também vindos da assistência, e que me impressionaram profundamente…por muito que cada vez mais os media disponibilizem tempo a esta causa, os relatos em primeira mão trazem-nos essa energia, que mexe connosco e nos desassossega de uma forma saudável, no contacto com realidades que a evolução social por vezes nos fez esquecer.

Falou-se igualmente de apoios. De um Estatuto do Cuidador Informal que nasceu a partir do nada, pela luta de todos, e que todos esperamos ser o início de uma alteração profunda na visão social desta situação, orientando estas pessoas ao acesso a mecanismos que permitam não apenas um aumento substancial dos subsídios atribuídos (presentemente algumas pessoas sobrevivem com valores que não chegam aos 200 euros mensais), mas igualmente à obtenção de pensões de reforma, entre outras situações que vão desde apoios ao descanso do Cuidador, até mecanismos de licenças em ambiente laboral. Falou-se no trabalho fantástico que vai sendo realizado ao nível local, não apenas por câmaras e freguesias que decidiram elas próprias avançar com iniciativas que podem proporcionar bons modelos para a evolução do Estatuto do Cuidador, mas igualmente pelos centros de saúde, que aliam as valências técnicas ao conhecimento das situações concretas, e à humanidade natural que naturalmente deve nortear os prestadores.

E, falou-se de nós. De cada um de nós…eu…tu que lês este artigo. De como cada um pode ajudar um Cuidador,  no seu dia a dia. Vivemos numa sociedade onde é tão glorificada a visibilidade dos resultados conseguidos, que o simples resultado em si, a pequena semente de algo, é quase sempre ignorada…ajudar numa tarefa, ir ao supermercado, consertar algo que se estragou e que é essencial para aquele Cuidador ou até simplesmente estar perto, e deixar fluir o sentimento de ajudar…tudo o que é grande começa no todo que é pequeno…nas pequenas ações que se podem propagar pelos enormes círculos de amizade e solidariedade que rodeiam os cerca de 800.000 cuidadores, pode estar o início de algo que todos temos de assumir como um desígnio comum para o futuro de todos.

 

 

Histórias no parque

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Crédito da imagem: APEL

Sábado vai ser um dia especial para mim. Assim como foi, não o passado fim de semana, mas o outro, onde fiz a formação para prestar voluntariado na pediatria do Hospital de Leiria, fazendo exatamente o que irei fazer nesta minha ida à Feira do Livro de Lisboa. Na vida, vamos sempre descobrindo um pouco mais de nós mesmos…poder contar histórias a crianças e jovens (e porque não por vezes aos respetivos pais) foi algo que foi surgindo em mim…não posso dizer que o desejei, fui atrás, fiz trinta por uma linha para chegar aqui…não o posso dizer, porque estaria a mentir. Um dia, apenas por um momento, identifiquei-me com uma causa, e simplesmente deixei despertar em mim mesmo os reflexos da sintonia com a mesma, no âmbito do meu contínuo caminhar, que cada vez mais se revela em horizontes novos. O tempo fez o resto. As coisas simples são sempre assim. Simples. E levam-nos longe, para mais perto de nós.

E assim lá estarei, no espaço da Nuvem Vitória, ajudando e, quem sabe, contando as minhas primeiras histórias a miúdos e graúdos das 11 da manhã, até sensivelmente à hora de jantar. Quer dizer…sensivelmente até à hora de jantar. Porque posso gostar mesmo muito, e posso ficar até ao fim, pelas 11 da noite. O que é bastante provável 🙂

Causas

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Crédito: FOX

Fazer uma maratona de Ficheiros Secretos dá-me um enorme prazer. Porque aprecio a série e o tema. Mas acima de tudo porque, na ficção e na realidade aprecio alguém que luta por uma causa. Apenas lutar por uma causa…e se na ficção o semear do tema ainda garante a colheita de grandes histórias, na realidade pouco já existe, disperso na bruma densa dos objetivos.