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Travelling with Miles

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

A luz do voltar

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.

Geotime

Depois de algum tempo afastado, decidi voltar ao Geocaching. Com efeito, com uma vida profissional que faz com que cada momento de descanso seja aproveitado exatamente para isso, o tempo para as grandes caminhadas e para o hiking vai sendo menos (apesar de alguns percursos estarem em preparação, mas sem data prevista). Preciso de algo que me permita praticar mais perto, e ao mesmo tempo, ser mais uma solução para aproveitar não apenas os tempos livres das viagens em trabalho, mas igualmente alguns momentos nas viagens de lazer. O Geocaching é ótimo para descobrir territórios, culturas, saberes, e tem uma comunidade muito ativa. Não pratico há já alguns anos e, para ser sincero, tenho algumas saudades do sentimento de mistério que estas caixinhas provocam, e daquela ansiedade que surge ao abrir, transformando-se em prazer quando se encontram e se abrem, sendo que algumas são mesmo muito interessantes.

Já agora, o meu handle é: paulomcheleno .Estejam à vontade para contactar.

Crédito da imagem: Geocaching.Com

Desvio 45

O aproximar de uma tempestade é sempre uma boa razão para se voltar às curtas do Indie. Deste vez, mais um exemplo de bom cinema português, do já longínquo ano de 2002. Escrito, realizado e produzido por António Borges Correia, Desvio 45 é uma história de distorção temporal muito bem escrita e realizada…enquanto um casal de idosos simula uma viagem, num carro parado algures num descampado (onde outros idosos vão jogando voleibol), um casal jovem inicia a sua viagem de lua de mel. As ações de um casal são o espelho das ações do outro, uma técnica que poderia ser considerada cliché, mas que aqui surge com qualidade, não nos passando pela mente de que já a vimos em bastantes filmes…chegados a um desvio, o casal jovem entra por uma estrada secundária que os leva a ficarem perdidos, sem combustível, o que os leva a caminhar por entre o descampado, encontrando o seu futuro, no casal idoso que simula a viagem num carro que, na sua mala, tem um reservatório de gasolina, que permite ao casal mais novo seguir a sua viagem.

Essencialmente é um trabalho muito bem escrito, com uma boa realização. Com a música de João Gil a dar um toque muito positivo à criação de uma atmosfera de intemporalidade que marca todo o filme, que nos faz pensar se a idade não será apenas uma desculpa para pretendermos alargar a nossa imaturidade.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: António Borges Correia