O novo dia da Matilde

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Crédito: RTP

O dia 27 foi um novo dia para a Matilde. Não porque encontrou a sua cura, não porque miraculosamente a sua doença desapareceu, mas porque deu um passo em frente. Um passo sem destino definido, mas um simples passo em frente…talvez um dia, quando for maiorzinha, ela entenda que de facto o importante é mesmo o caminhar, o sentir que algo fica para trás porque, nesse processo, algo vai naturalmente despontando…por agora, tudo isto já está imerso no seu pequeno passinho, amparado pela vontade enorme de pais que nunca desistiram e não desistem de que a sua vida possa ser mais um conjunto de pequenos passinhos. É que nunca se sabe quando um passinho se pode tornar um grande passo.

Fui uma das pessoas que contribuiu para a conta da Matilde. Fui, e voltaria a fazê-lo. Se calhar deveria ter esperado para ver como o Estado reagia…ou talvez não. E por isso escolhi o não esperar…não vou cair na suprema hipocrisia de opinar sobre a aposta que os pais da menina fizeram, porque não sou eu que tenho uma filha com atrofia muscular espinhal, porque não sou eu que todos os dias via o tempo a passar numa enfermaria de cuidados intensivos…o que eu sei é que, apenas após o caso vir a público, e já com as doações muito próximas do objetivo, é que também veio a público que o Estado poderia comparticipar o Zolgensma…a televisão é realmente uma poderosíssima arma de movimentação de causas…mas antes disso, apenas vi algo a que não podia negar, porque realmente o tempo ia passando numa enfermaria de cuidados intensivos…E dei. E voltava a dar. Poderia ser errado? não me interessou na altura, e não é motivo de arrependimento no meu íntimo. O que me interessa, é que talvez tenhamos todos aprendido com a Matilde que pode haver ferramentas que, no futuro, noutras situações, podem ser acionadas, se ditas aos pais no momento certo e com a informação correta…e se demorar a resposta…bom, se demorar a resposta, tenho a certeza que a ajuda solidária não faltará.

Só uma última nota sobre a questão dos dinheiros…assistimos hoje durante a tarde a uma inqualificável deriva de teorias jurídicas sobre como as pessoas que doaram dinheiro o poderiam exigir de volta porque, pelo que ouvi, existiu uma substancial alteração dos pressupostos da ajuda…só gostava de dizer que não tenho qualquer intenção de pedir o dinheiro de volta…é que se realmente existiu uma substancial alteração dos pressupostos de ajuda, se calhar tal aconteceu porque existe uma muito forte probabilidade de o Estado não cumprir o seu papel, por entre cortes, ineficiência e falta de um acompanhamento próximo e atempado deste tipo de doenças, não apenas aos sujeitos das mesmas mas igualmente ao núcleo familiar…se os pais querem ajudar outras crianças com a mesma doença, estão no seu pleno direito de encaminhar parte desses fundos para outros meninos e meninas que necessitem. Eu faria a mesma coisa. Se o poderiam fazer de uma forma diferente, mais sustentada no know-how de algumas pessoas habituadas a lidar com estas situações? talvez…eu faria. Mas isso sou eu, que não tenho a pretensão de vir dizer que sei o que podem estar a passar e o que podem ter sentido nesta experiência…porque não sei…

 

Ainda a rádio na Guiné

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Crédito: Conexão Lusófona / África Turismo

Ontem, ao regressar a Leiria, voltei a ouvir na TSF esta reportagem sobre a implantação da rádio na Guiné-Bissau, sobre a qual já tinha escrito brevemente aqui. E regressou o  mesmo sentimento de uma profunda humanidade, e da simplicidade que assume quando desprovida da noite que algumas vezes rodeia o seu progresso…voltei a emocionar-me com a “Mãe da Rádio”, que não sendo uma pessoa de posses, disponibilizou 1000 francos da sua pobreza a um jornalista para que comprasse canetas para continuar a escrever notícias…ou do jornalista que afirma que, estar preso pela sua luta em relação à liberdade de ser e fazer rádio, foi dos períodos “mais lindos” da sua vida, ao sentir o calor da população, e a união nessa luta.

África, com as suas histórias que atravessam espaço e tempo, continua-nos a ensinar caminhos e passos na caminhada, devolvendo-nos o sentido do existir, e de nessa existência viver também em espontaneidade e de partilha. E isso, faz-nos muita falta nos tempos que correm.

Fatigatis aptum

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Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação sobre o autor.

Na reta final para as férias, vou-me deixando levar pelo caminho…chego ao final dos dias com o corpo bastante dorido, enquanto que a mente revela uma imensa dificuldade em manter-se desperta, após o esforço cada dia maior de se manter ativa, e alguma dificuldade em dormir. Há um prazer imenso em ficar deitado, fechar os olhos, respirar devagar, e lentamente deixar o sono surgir por entre pensamentos que se apagam na medida da luz que a alma desnuda e desperta emana…vivo, nestes dias de mais exaustão, essa dicotomia entre o físico que dela padece, e da alma que dela se liberta, seja numa caminhada pelo ar ainda fresco do final do dia, ou pelo lento mas certo ato de dar vida às inúmeras notas que vão povoando o meu caderno azul, que em si condensa um céu marítimo no mar imenso…em cada fotografia que vai vendo a luz do dia aqui no blog, em cada escrito que aqui amadurece ou que nessas notas vai ganhando forma, existe um pouco de mim que desperta do cansaço, e que sorri por entre as palmeiras que muito suavemente bailam ao sabor da brisa, muito comum por estas paragens, e tantas vezes com um cheiro tão indelevelmente bom a mar…

Para mim,a alegria sempre foi azul… mais escuro ou mais claro. Mas sempre azul…e ainda hoje é esse azul que me desperta para a simplicidade do existir, e da felicidade que existe no mero ato de caminhar no trilho entre a noite que por vezes nos cerca, e o dia que sempre em nós amanhece, iluminando aquela semente que, apesar de tudo, está destinada a nascer em nós…

Hoje.

Habemus fotos

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Crédito: Paulo Heleno

As pessoas que seguem o Omnia mais de perto repararam que surgiu um novo tópico. Fotografia. E sim, é verdade, era um tópico que aparecia e desaparecia um pouco ao sabor das ilusões e desilusões dos serviços de visualização, que nunca me satisfaziam. Por outro lado, finalmente acho que finalmente me consegui libertar um pouco da capa de “pai-galinha” das minhas fotografias, o que permitiu olhar para o que queria fazer de uma forma mais vasta e simples…nada como mudar os óculos com que vemos o mundo, para o mundo aparecer diante nós de uma forma bem mais direta e descomplicada.

Assim, as fotografias irão começar a ter aqui a sua casa, numa disposição macro dividida entre um portfolio de cor, mais generalista, e vários, temáticos,  a preto e branco. No primeiro caso, já conhecem as fotos do Instagram (fotografo muito pouco a cores, usando máquina fotográfica). Gosto do Instagram, e divirto-me bastante com a utilização dos filtros. Muitas vezes, em viagem, é uma forma muito versátil de fotografar e partilhar, de rapidamente transmitir uma mensagem, um pensamento, uma voz…não acho de todo que seja uma menoridade… Acho, e ainda esta semana escrevi isso na LinkedIn, que estimulou um sub-género mobile muito interessante, onde, se procurarmos com atenção, encontramos pessoas a fazer coisas mesmo muito interessantes. Aqui, algumas dessas fotografias terão um tratamento mais clássico, mas ainda assim, partem da mesma matriz que originou a versão “Instagram”. Quanto ao Preto e Branco, será um conjunto de álbuns temáticos que irão vendo a luz do dia de uma forma talvez um pouco mais lenta, mas de uma forma contínua. Algumas fotografias já têm algum tempo, e ganham aqui uma nova vida. Outras serão reveladas mais perto do final do ano.

Por último, referir que não me importo que usem as fotografias para publicar no âmbito dos vossos trabalhos ou hobbies. Contudo, gostaria sinceramente que se tal acontecer, coloquem o nome do autor, e o endereço onde se encontram. Todos somos aquilo que damos, e caminhamos naquilo que recebemos…pelo meio, existe sempre algo que todos ganhamos no respeito pelo trabalho do outro, e pela forma como esse trabalho nos pode, quem sabe, também fazer-nos ir um pouco mais além. Num mundo de tantos desencontros, saber partilhar apenas pela expressão do sentir dessa partilha é o redescobrir de algo belo, de como todos podemos ser capazes de caminhar em conjunto, naquilo que em cada um de nós vamos descobrindo, no convívio com todos.

Ao sabor do vento

Tenho andado com esta música na boca e no coração…acho-a lindíssima, e traz-me uma enorme paz, talvez porque está em completa harmonia com aquela que cada vez mais é a minha caminhada.

Crédito da música: Donovan