Tag Archives: brexit

Brexit

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

Continuar a ler

A little piece oh heaven

Os dias já começam a ser um pouco mais compridos, algo que aqui se nota mais facilmente devido à elevado latitude. Mas continuam deliciosamente enevoados, compondo a atmosfera de um país e de uma região que nos entra no Ser. Existe aqui uma beleza plural, harmoniosa, onde o ordenamento do homem se harmoniza com a natureza envolvente, resultando em pequenos pedacinhos do céu em plena terra, como esta povoação de Kingsmead, onde vou todas as manhãs no fim de semana, numa caminhada muito relaxante de de cerca de 1 h, 1h 30 m, por entre ruas e alguns trilhos. As manhãs de sábado e domingo são calmas, em contraste com as noites de sexta e sábado em que restaurantes e pub’s se enchem com uma quantidade de pessoas que não se consegue ver durante o dia, neste meio pequeno. Algumas trabalham mais em Manchester ou Liverpool, e é no fim de semana que apreciamos a quantidade de pessoas que aqui vive, e que conseguem manter este pedacinho do céu tal como ele é, com um sentido de comunidade e serviço cívico muito característico das pequenas povoações aqui na zona mais a norte do Reino Unido.

Temos a sensação, quando experimentamos o ambiente de Londres e do sul, e de zonas como Manchester, no morte, que estamos em países diferentes. Aqui as pessoas são afáveis, muito simpáticas, gostam de conversar. Não se liga muito ao que se passa em Londres, nem tão pouco se fala muito disso…ainda me lembro que, em Newcastle-upon-Tyne, há cerca de ano e meio, um taxista me perguntou, meio a brincar meio a sério, o que é que raio eu queria fazer em Londres, se “cá em cima temos tudo”. E de facto é um pouco verdade…adicionando uma completamente diferente dimensão humana, aqui também existe urbanidade, muito vincada em Manchester ou Liverpool,  uma cultura riquíssima, plena de tradições e sabedoria popular que remontam a tempos idos da pré-história, e se estende até à modernidade. E, para ser franco, come-se melhor…mas muito melhor 🙂 almoçar em Londres durante a semana é quase uma experiência de desumanização, enquanto que aqui, uma almoço de trabalho, por vezes com as mesmíssimas sandes “Tesco-like” é uma experiência de partilha ,muito interessante, um momento de descompressão em conjunto no meio das sete horas de trabalho diário.

Depois de quase 6 meses em S. Paulo, no Brasil, o tempo vai-se acumulando na zona de Northwich. Experiências diferentes, mas complementares no crescimento que me proporcionaram, e proporcionam, enquanto profissional e pessoa. Amei as duas, pois continuo a fazer da busca do equilíbrio um caminho de felicidade, e da gratidão uma janela aberta ao universo, pelas dádivas que me dá, pela possibilidade de me dar a conhecer sempre mais deste mundo imenso e lindo em que vivemos.

The nest

Realizado em 2018 por Jamie Jones, e produzido no Reino Unido, The Nest é uma curta-metragem perturbadora pelo seu realismo, e pelo facto de esse realismo ser em si mesmo, tanto mais próximo de nós quanto o desejamos por vezes ignorar. Apresentando como pano de fundo do argumento (também escrito por Jamie Jones) a crise imobiliária de Londres, e a forma como esta também se assume como um problema humanitário, despoletado pela frieza corporativa dos grandes conglomerados imobiliários, o filme assenta na história de uma mãe solteira que, de forma praticamente instantânea e brutalmente desumana, se vê despejada da sua casa com os seus três filhos,e o drama dos momentos seguintes. Toda a sequência de acontecimentos se manifesta numa Londres algo kafkiana, um ambiente que se manifesta desde a forma deficiente como muitas vezes os problemas da multiculturalidade são abordados, incentivando um cenário de nacionalismo das classes mais baixas, extremamente perigoso neste ambiente de Brexit, até uma certa ausência de realidade da juventude britânica, destas mesmas classes mais baixas, perdida num presente onde um futuro vazio se desenha numa sociedade bastante marcada pelos profundos erros de políticas sociais. transversais a todos os governos.

É um filme muito cru (no bom sentido) pela força do seu argumento e por uma realização simples que reforça essa força. Vale a pena ver.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Beyond fiction