Come and go…

Crédito: Paulo Heleno

Uma das coisas que sempre adorei ver em Porto Covo é a forma como os grandes navios surgem e desaparecem no horizonte. Tudo se passa num infinito conjunto de momentos, em que a forma se vai materializando ou desvanecendo, como se o tempo fosse parando na medida em que a imagem se encaixa na mente e mergulha na alma. É um excelente foco meditativo, para quem gosta de meditação, deixar estes grandes barcos fluir de uma forma calma. É também origem de pensamentos díspares…de como tantas vezes devemos deixar certas pessoas, ações, momentos lentamente desaparecer da nossa vida no momento, e ao ritmo certos. E de como muitas pessoas, ações, momentos, vão surgindo na nossa vida, afigurando-se lentamente como preponderantes na mesma, também no ritmo certo.

Expectativas não nos levam a nenhum lado, e por isso já as abandonei há muito. Muito menos expectativas a concretizar no curto prazo, como que numa deriva conquistadora de vida, moda do momento, que nos vai transformando por vezes no ocaso de nós mesmos. Saber esperar, amar, deixar fluir, nada mais é do que o nosso estado fundamental de humanidade nestes tempos modernos e, principalmente, nos que se avizinham.

Simples

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Crédito: Paulo Heleno

Hoje foi o meu primeiro passeio à beira-mar, em férias. Com corpo e mente a adaptarem-se a uma vibração mais calma, fui, como sempre, lentamente caminhando rumo ao meu destino de sempre, aqueles locais onde as pegadas desaparecem e o silêncio reina…dei por mim a questionar-me sobre a simplicidade do viver, e como nessa simplicidade conseguiria expressar não apenas o caminho que vou vivendo, mas igualmente o que ele me vai traz, passo a passo, acima dos dias…

Paz…Amor…Amar…Ser…Ir…Nós…Tudo…Nada…Flor…Voo…Mar…Céu…Sol…Azul…Dar…

A vida é realmente simples quando cada passo se manifesta apenas em três ou quatro letras…

O cuidar

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Crédito da imagem: José Camarinha

Há algumas semanas atrás fui à Figueira da Foz ouvir a Carla Neves falar sobre Cuidadores Informais. Estava, lembro-me, uma noite bonita, amena, convidativa a ouvir e conhecer um pouco mais sobre esta causa que também me desperta memórias pessoais de tempos idos. São memórias por vezes guardadas em nós mas que, na vertigem dos tempos modernos, e apesar de muitas vezes essa interiorização ser uma auto-defesa, devem dar lugar a abertura do nosso coração a uma visão mais social destas situações, aberta, solidária e cidadã, num tempo em que cada vez mais se fazem sentir desafios sociais e geracionais que a todos nos afetam, de forma mais ou menos direta, traduzindo-se em mudanças fundamentais nos paradigmas de relacionamento e vivência dos núcleos familiares e da própria comunidade.

A Carla é uma de 800.000 Cuidadores Informais existentes em Portugal. A voz cansada, mas decidida, e a humildade do discurso trazem consigo a alma de pais, mães, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias e por vezes amigos, que se dedicam a cuidar de quem tantas vezes deles cuidou, num verdadeiro ciclo de Amor que se traduz no desejo de cuidar por cuidar, evitando fenómenos de institucionalização que muitas vezes são mais nocivos que positivos. Pessoas que abdicam de toda uma vida pessoal, social, profissional em prol desta causa e que naquela noite, pela voz de uma delas, se abriram a nós, contando um pouco das suas vivências…das noites sem dormir, dos dias inteiros de prestação de cuidados de saúde, da constante monitorização de segurança dos que são cuidados, da exaustão, da falta de uma vida social (e por vezes familiar), dos parcos apoios do Estado…uma viagem por uma contextualização geral, mas também por casos concretos, também vindos da assistência, e que me impressionaram profundamente…por muito que cada vez mais os media disponibilizem tempo a esta causa, os relatos em primeira mão trazem-nos essa energia, que mexe connosco e nos desassossega de uma forma saudável, no contacto com realidades que a evolução social por vezes nos fez esquecer.

Falou-se igualmente de apoios. De um Estatuto do Cuidador Informal que nasceu a partir do nada, pela luta de todos, e que todos esperamos ser o início de uma alteração profunda na visão social desta situação, orientando estas pessoas ao acesso a mecanismos que permitam não apenas um aumento substancial dos subsídios atribuídos (presentemente algumas pessoas sobrevivem com valores que não chegam aos 200 euros mensais), mas igualmente à obtenção de pensões de reforma, entre outras situações que vão desde apoios ao descanso do Cuidador, até mecanismos de licenças em ambiente laboral. Falou-se no trabalho fantástico que vai sendo realizado ao nível local, não apenas por câmaras e freguesias que decidiram elas próprias avançar com iniciativas que podem proporcionar bons modelos para a evolução do Estatuto do Cuidador, mas igualmente pelos centros de saúde, que aliam as valências técnicas ao conhecimento das situações concretas, e à humanidade natural que naturalmente deve nortear os prestadores.

E, falou-se de nós. De cada um de nós…eu…tu que lês este artigo. De como cada um pode ajudar um Cuidador,  no seu dia a dia. Vivemos numa sociedade onde é tão glorificada a visibilidade dos resultados conseguidos, que o simples resultado em si, a pequena semente de algo, é quase sempre ignorada…ajudar numa tarefa, ir ao supermercado, consertar algo que se estragou e que é essencial para aquele Cuidador ou até simplesmente estar perto, e deixar fluir o sentimento de ajudar…tudo o que é grande começa no todo que é pequeno…nas pequenas ações que se podem propagar pelos enormes círculos de amizade e solidariedade que rodeiam os cerca de 800.000 cuidadores, pode estar o início de algo que todos temos de assumir como um desígnio comum para o futuro de todos.

 

 

2019

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação

Boas entradas em 2019, junto dos que mais amam, em plena harmonia e profunda paz.

Cuidadores informais – reportagem SIC

Na sequência do podcast sobre a temática dos Cuidadores Informais, publico aqui a reportagem realizada pela SIC sobre o mesmo tema. Um convite à reflexão, sobre o quanto todas estas existências estão tão próximas de nós, tão próximas que por vezes somos tentados a vê-las de uma forma distante…um olhar sobre quem em si liberta o amor na direção do próximo, erguendo-o no seu coração.

Os parabéns à SIC por esta reportagem, que vem trazer mais um contributo para a discussão pública que felizmente se vai começando a fazer sobre este tema, numa sociedade que tem de enfrentar ela mesma as “dores” da sua evolução.

Crédito do vídeo: SIC