Haus am Horn I – Contexto

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Crédito: @bauhausmovement

Neste centésimo aniversário da Bauhaus, uma das suas primeiras criações tem assumido um particular destaque, a hoje famosa Haus am Horn. É um marco que merece ser destacado, principalmente quando se analisa o período Weimar da escola, por ter sido  o foco da primeira apresentação pública do trabalho lá realizado.Mas vamos ao inicio.

Embora em atividade desde 1919, foi em 1922 que a Bauhaus teve oportunidade de publicamente mostrar o seu trabalho, por via das condições inerentes à  obtenção de um subsídio proveniente do governo de Weimar, que estabelecia a obrigatoriedade da realização de uma exposição pública das atividades da escola. Vivia-se ainda o cenário decorrente do final da Primeira Guerra Mundial, com a economia alemã pressionada pela fraca capacidade de geração de riqueza, e pelo ressarcir de indemnizações de guerra às potências vencedoras. Era um ambiente restritivo, que fazia com que a sociedade alemã visse de forma longínqua os anos de enorme abertura social e cultural que antecederam a guerra, fazendo da Alemanha  um dos estados mais progressistas da Europa em termos das ideias, da arte, e mesmo da interação desta com a indústria. As dificuldades económicas criavam uma atmosfera propícia à dúvida e ao ceticismo em relação a projetos como a Bauhaus, que se afirmava decididamente como progressista (e sempre modernista), a que se associava o facto de a nomeação de Walter Gropius como diretor deste novo projeto não ter merecido um entusiasmo claro no Governo, ao contrário do que aconteceu com alunos e professores.

A atribuição deste subsídio, com a exigência referida acima, foram abordados de forma decidida por Gropius e por todo o grupo da Bauhaus, com algumas medidas especiais a serem implementadas, como a extensão das horas dedicadas aos workshops ou a interrupção da admissão de alunos no verão de 1923. No campo da idealização da forma desta exposição, no meio das várias ideias apresentadas, uma sobressaiu, proveniente do Conselho dos Mestres: a criação e construção de uma casa completa, na sua edificação exterior e composição interior, como principal atração e foco da exposição e dos princípios orientadores da escola, em sinergia com a nova realidade económica do pós-guerra. Com efeito, as dificuldades económicas e a escassez de recursos materiais e energéticos pareciam abrir um caminho para os princípios inerentes á economia e eficiência da construção, ou da produção em fábrica, algo que estava inerente à génese do pensamento da escola, e ao pensamento mais estruturado de Gropius, retomando e levando mais além o conceito das Werkbunds, anteriores à guerra.

A escolha da ideia a ser explorada foi realizada num concurso interno, com uma votação final para a decisão. Várias surgiram, incluindo uma do próprio Walter Gropius, mas foi o desenho de George Muche, o mais jovem mestre da Bauhaus, ministrando as disciplinas de pintura e tecelagem, que venceu o concurso, com um desenho que curiosamente nada mais era do que a idealização de uma casa destinada a si e à sua família. Nascia assim a primeira versão da Haus am Horn, cujas linhas e planeamento foram sendo refinados até ao início da construção em abril de 1923, supervisionada pelo gabinete de Gropius, através de Adolf Mayer. Contudo, este período que mediou entre a escolha da ideia e o início da construção (e mesmo durante a mesma) foi caracterizado por profundas dificuldades nos financiamentos, afetados pela realidade inflacionista na República de Weimar (e que iria ter como consequência, juntamente com a crise de Wall Street em 1929, a ascensão do partido nazi ao poder). Os donativos rapidamente perdiam valor, e apenas concedendo a posse posterior da casa ao industrial de Berlim Adolf Sommerfeld, em troca de um financiamento contínuo, foi possível levantar a obra. Por outro lado, muitas empresas, nomeadamente as de cariz mais inovador, trabalharam no projeto numa perspetiva de obtenção de lucros futuros pela associação ao mesmo, enquanto que outras o fizeram a preços de custo.

A casa ficou pronta para a exposição do trabalho da Bauhaus, em Setembro de 1923, tendo sido uma das suas principais atrações. No próximo artigo, iremos analisar a casa em algum pormenor, desde a localização escolhida (um terreno onde eram colhidos os legumes e as frutas para a cantina da escola), linhas exteriores e construção.

Saudáveis dores de cabeça

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Crédito dos livros: Taschen e autores dos mesmos

Depois de um sábado a ben-u-ron’s e a gerir uma dor de cabeça daquelas que não deixa saudades, eis que o dia vai acabando e, felizmente, vai levando consigo esta malfadada maleita. Começa agora uma dor de cabeça muito mais saudável, e que se traduz na pergunta “em qual pegar primeiro?”.  Apetece-me pegar nos dois de forma simultânea, mas infelizmente, é preciso escolher. Quem disse que a vida é simples? E quem me manda ir sempre ver as prateleiras da Taschen?

Desde o seu lançamento já neste ano de centenário que “Bauhaus Mödels”, de Patrick Rössler, era já um desejo. Rapidamente se tornou um dos livros de referência sobre a temática da presença feminina na Bauhaus, e de como as mulheres que a frequentaram ajudaram a construir este ideal modernista, em virtude de ser o produto mais recente da constante investigação feita nos arquivos da escola. Ficamos assim com mais uma justificada referência à presença, ao carácter e à obra de mulheres como Marianne Brandt, Gertrude Arndt, Lucia Moholy entre muitas outras, que ousaram seguir o seu próprio caminho artístico de uma forma moderna e progressista, em tempos conturbados da história alemã, marcados pela forte crise e pelo advento do nazismo. São histórias de liberdade e coragem, que ainda hoje nos ensinam algo.

“Bauhaus”, de Magdalena Droste, foi publicado pela primeira vez em 1990, e é uma das publicações de referência em termos de história da Bauhaus, com a autora a ser uma das mais respeitadas vozes sobre o tema, fruto duma profunda dedicação ao estudo da escola em todas as suas facetas, parte dele levado a cabo nos Arquivos Bauhaus como académica assistente. Nesta nova edição, contamos com 250 novas imagens, que tornam o livro maior, mas também mais rico, relativamente a uma edição mais antiga que pude brevemente consultar há algum tempo.

Entretanto, vai continuando a saudável dor de cabeça.

Crédito das publicações na imagem: Taschen

Brexit

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Crédito da imagem: Duncan Hill

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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Deutschland

Acabei agora de trabalhar. Ao ligar a televisão, apenas o tom dos jornalistas parecia deixar antever que algo de fantástico tinha acontecido. Fiquei assim a saber que a Alemanha tinha sido eliminada do Mundial de Futebol, que em Berlim era a tristeza que passeava pelas ruas numa (talvez) solarenga tarde, e que existia um certo tom de contentamento geral dos homens que habitualmente relatam estas coisas da bola. Não é, de facto, coisa que consiga perceber muito bem.

Toda esta reação em torno do gigante caído retrata um pouco de nós mesmos…na rotina dos dias, vivemos uma tão intensa quanto relativa (ou ausente) positividade que se respira no que de artificial nos rodeia, alimentando todo um conjunto de objetivos em que nunca pensámos, mas que com toda a certeza vamos conseguir atingir se muito trabalharmos, abdicando dessa “entidade negra” chamada zona de conforto (aquela a que por vezes temos tanta necessidade de voltar, para sarar as nossas feridas), para transcendermos o estado presente das nossas vidas…as fórmulas rodeiam-nos, e os resultados da sua aplicação multiplicam-se em ainda mais fórmulas, num caminho de nenhures, rumo ao sucesso…também aí reside uma parte importante das mecânicas nacionalistas que vão emergindo no nosso tempo, e que nada mais são do que o apoderar por parte de alguém destas dinâmicas coletivas, algumas vezes aplicando-lhes um símbolo. Mas a isso voltarei outro dia.

Neste processo mental de luta permanente, algures entre David e Golias, em cujo triunfo do underdog é considerado ao nível pessoal, vamos esquecendo como se erra, e como refletir nesses erros…esquecemos igualmente de como a vida nos brinda com a sua ciclicidade, que nos banha nas ondas de um mar interior que gostamos de ver ilustrado no silêncio da praia. Saber observar esse além, na natureza que nos rodeia e na humanidade que nela desponta, é o que nos faz evoluir, sonhar, pensar e amar um mundo melhor…sempre renovando-se, e levando-nos com ele.